Em Maldivas, a mais nova série brasileira da Netflix, somos convidados a um mundo marcado por mentiras e hipocrisia, ambientado em um condomínio de luxo na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. A comédia de mistério, assinada por ninguém menos que Natália Klein, presta homenagem às produções de gênero e consagra-se como um dos títulos nacionais mais interessantes da plataforma de streaming, abrindo portas para uma desmistificação do que é a indústria nacional – é claro que, no cenário cinematográfico, diversos realizadores do nosso país já demonstraram afeição considerável pelo drama familiar e até mesmo pelo realismo fantástico, mas é sempre bom lidarmos com uma narrativa refrescante e, ao mesmo tempo, saudosista como esta que Klein nos apresenta. 

Em desenvolvimento desde 2018, a curta produção estende-se por apenas sete episódios e gira em torno de um grupo de mulheres que esconde segredos sórdidos das próprias amigas – e que são arrastadas para um misterioso assassinato envolvendo a traumatizada Estela Morgado (Vanessa Gerbelli retornando com força para o cenário do entretenimento). Apesar de aparecer com menos protagonismo que o restante do elenco, a complexa personagem de Gerbelli dá o tom da obra e mergulha em um enredo marcado por uma tragédia do passado que inclusive a separou da filha, Liz (Bruna Marquezine), além de torná-la alvo de um homicida sem identidade que tira sua vida da maneira mais brutal possível. 

MALDIVAS. (L to R) BRUNA MARQUEZINE as LIZ in MALDIVAS. Cr. RACHEL TANUGI/Courtesy of Netflix © 2022

Apesar de tropeçar no meio do caminho, seja pelo desenvolvimento apressado do roteiro, seja pela curta duração dos episódios, Maldivasdemonstra preocupação em não entregar um entretenimento barato, mas uma inflexão que demanda atenção e atividade por parte do público que, desde os primeiros minutos, tenta descobrir que foi responsável pela morte de Estela. Como se não bastasse, os aspectos técnicos são engendrados em vibrações diferentes umas das outras, acompanhando tanto o arco das protagonistas quanto a atmosfera trazida às telinhas – cortesia de uma equipe criativa comandada por nomes como Daniel Flaksman e Bruno De Laurentis. Cada sequência explode em cores complementares e contrastes estéticos que nos levam em direções diferentes, talvez como artifício para nos guiar em caminhos opostos que se cruzarão ou não ao decorrer dos episódios. 

Mas isso não é tudo – afinal, temos a presença de artistas de peso na frente das câmeras. Manu Gavassi interpreta Milene Jardim, síndica do condomínio titular que vê seu reino ameaçado por Estela. Milene está presa em um relacionamento tóxico do qual não consegue se desvencilhar, subjugada a um marido que é cirurgião-plástico e que a transformou, a seu bel-prazer, em uma “bonequinha” com quem poderia brincar – e o mais notável sobre tal personagem é como ela é delineada não como vilã, e sim uma espécie de anti-heroína encarcerada em desejos que não pode cumprir para o bem da fachada que calcou junto ao esposo; Sheron Menezzes faz um trabalho ótimo como Rayssa Velasquez, dançarina, empreendedora e esposa de Cauã (Samuel Melo) famoso músico de axé que é pega em flagrante “traindo” o marido também por Estela (isto é, até descobrirmos que a relação de Rayssa e Cauã é mais complicada do que parece). 


MALDIVAS. (L to R) SAMUEL MELO as CAUA, SHERON MENEZZES as RAYSSA in MALDIVAS. Cr. RACHEL TANUGI/Courtesy of Netflix © 2022

Considerando o teor da obra, as personagens são construídas a fim de oscilarem entre o drama e a comédia – mas Carol Castro emprega toda sua bagagem cômica para o papel de Kat Martinelli, cujo marido se envolveu em um esquema de corrupção e agora está em prisão domiciliar, colocando em xeque a vida que outrora construíram. E, obviamente, os dois utilizam Estela como “laranja”, sem ela saber, para aplicar um golpe na Receita Federal – e que pode colocar um fim definitivo na última esperança de salvarem o que ainda têm. E, por fim, Klein interpreta Verônica, uma mulher que não tem uma relação muito amigável com as outras mulheres do condomínio e que faz de tudo para entrar em conflito principalmente com Milene, utilizando as armas de que se dispõe para refutar tudo o que ela fala. 

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Marquezine volta a colaborar com Gerbelli dezenove anos depois da icônica novela ‘Mulheres Apaixonadas’, interpretando sua filha. Como vemos logo no episódio piloto, Liz cresceu com a avó e, só depois de quase duas décadas, resolveu deixar seu passado para trás e reencontrá-la no Rio de Janeiro, procurando respostas sobre o abandono e sobre o que aconteceu durante sua infância. A atriz, que agora migra para a DC com o vindouro ‘Besouro Azul’, rende-se a uma interpretação que tangencia o impecável, fazendo máximo que pode dentro dos limites da própria personagem para investir em um enredamento detetivesco que oculta sua identidade e que a deixa mais cada vez mais próxima de descobrir a verdade. 

MALDIVAS. (L to R) MANU GAVASSI as MILENE, NATALIA KLEIN as VERONICA in MALDIVAS. Cr. RACHEL TANUGI/Courtesy of Netflix © 2022

Como já mencionado, os principais deslizes restringem-se a certas escolhas técnicas e ao fato de os episódios serem concluídos dentro de um frenesi rítmico. Todavia, os pontuais equívocos não são fortes o bastante para nos desligar da série, ainda mais quando contamos com a precisa e reverberante direção do veterano José Alvarenga Júnior, cuja filmografia se estende desde clássicos seriados até terrores sobrenaturais, apostando fichas em uma tendência mercadológica que vem dominando o mainstream há algum tempo. 

Maldivaspode não estar livre das fórmulas do gênero a que se propõe discorrer, mas, sem dúvida, cumpre com o prometido e ergue-se como uma espécie de comédia de erros recheada de tipos sociais que escondem suas reais intenções sob a máscara do bon vivant. No final de tudo, o resultado é aprazível e envolvente – e merece ser conferido por aqueles que querem se divertir. 


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