Faz de conta que Nova York é uma cidade (Pretend It’s a City) é uma provocação já evidente no título em português, porém pouco mais sarcástica e ambígua no original, ao deixar o pronome no lugar do substantivo. Parece banal prestar atenção a este detalhe, no entanto, a performance de Fran Lebowitz, dirigida por Martin Scorsese, é um esforço de colocar um discurso em evidência. Do outro lado, o espectador faz o seu papel, ou seja, o de negociar com o que é dito e mostrado. Em outras palavras, assistir –  em acordo ou desconfiança – a opinião de uma escritora nova-iorquina ao lado do seu amigo, um renomado diretor de cinema, sobre assuntos gerais é um exercício de alteridade. 

Em sete curtos episódios, a minissérie é uma mise-en-scène de uma conversa de bar entre amigos com um tom documental sobre suas memórias e suas visões do mundo. Do ponto de vista do entretenimento, Faz de Conta que Nova York é uma Cidade apresenta um recorte desse ambiente tumultuado por milhões de pessoas a partir do viés de Fran Lebowitz, apresentada como uma mulher distinta, isto é, uma pessoa mais interessante que os demais. Ao menos, esta é a ideia desejada por Scorsese em quase quatro horas. Lebowitz expõe suas ideias sempre com humor, ironia e sarcasmo, o que poderíamos resumir na palavra: sagacidade. 

Desde o primeiro episódio, é expresso o prazer e o desconforto da nova-iorquina em morar próximo a Times Square. Segundo ela, um espaço para os turistas, os quais não estão preocupados com os afazeres do dia a dia daqueles que pagam os impostos dos monumentos, dos quais eles tiram fotos. Uma opinião evidente, a qual ninguém discute, ao contrário, acha-se graça. São essas “ideias feitas”, quase banais e um tanto quanto convencionais, que são colocadas à mesa. Elas divertem Scorsese, tal como nossos amigos nos divertem sobres suas aventuras do fim de semana. 

Um exemplo de sua habilidade discursiva é o espetáculo da artista em Manhattan, no qual a plateia lhe direciona perguntas para que ela apresente uma “resolução” a partir de sua visão do mundo. Sua retórica apresenta-se sempre afiada e irônica. Em conversa com Spike Lee (Destacamento Blood), um dos pontos altos da obra, Fran Lebowitz fala do seu total desgosto pelos esportes, mas de forma educada. Enquanto Spike Lee enobrece a figura de Malcolm X, como boxeador e sua relevância através do esporte, ela o vê apenas como uma figura pública e política.  



Apesar do ar intelectual de Faz de Conta que NY é uma Cidade, a conversa é amigável e familiar. Os questionamentos levantados são assuntos midiáticos, por exemplo, ela fala sobre seu desacordo com o termo “guilty pleasure” (prazer culposo), uma crítica à crítica sobre “valor” cultural. Para ela, essa ideia não existe, prazer é prazer e ponto. São reflexões astutas sobre o cotidiano ordinário, mídia, sociedade e vícios, todavia suas histórias são peculiares, como quando Leonardo DiCaprio lhe emprestou um cigarro eletrônico.  

Os interlocutores Alec Baldwin, Olivia Wilde, Toni Morrison, além do já citado Spike Lee enriquecem o cenário e provocam uma circulação de ideias mais desenvolta. Contudo, o conceito da série é uma reconstrução do documentário Public Speaking, de 2010, realizado por Scorsese para a HBO. Tanto lá quanto cá, na Netflix, a intenção é idêntica, uma conversa informal ensaiada numa mesa de bar, discursos públicos da personagem, imagens de arquivos e suas andanças pela cidade a contar 40 anos de experiência da vida nova-iorquina. 

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Para torná-la mais perceptiva, a produção recorre à maquete detalhada de 867,2 m², chamada Panorama da Cidade de Nova York, com suas pontes, baías, prédios e muitos arranha-céus, localizada no Museu de Arte do Queens. Assim, dá-se uma dimensão visual da cidade como personagem narrativo. Deste modo, ao ver a escritora a caminhar entre a miniatura, visualizamos também ela a percorrer pelas suas lembranças, tal como se olhasse do alto, de forma soberana, o que ocorre nas ruas lá embaixo. 



Com um título em alusão à falta de consciência coletiva, Faz de Conta que NY é uma Cidade é um manifesto de Scorsese para o mundo ver sua amiga da maneira que ele a enxerga. Uma pessoa inteligente, rabugenta e zombeteira, com a qual todos gostariam de tomar um café. No último episódio, Lebowitz fala da sua paixão pelos livros; sobre a juventude, ela categoriza: “a gente apenas entende os nossos contemporâneos”. Compreender uma visão discordante é a proposta eficaz da minissérie, mas, sobretudo, divertir-se com os paralelos e as perpendiculares dessas observações.

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