Cercado por um silêncio ensurdecedor, em um gélido hiato no espaço, Augustine é um homem sem pressa para morrer. Com seus dias contados há mais tempo do que talvez ele se lembre, hoje ele encara o fim da sua saúde em um contraste com o fim do mundo. Sem um horizonte literal e figurativo diante de si, ele caminha por um frio e extenso laboratório, esperando pelo seu próprio apocalipse, agora que está isolado no pouco do que restou do planeta Terra. O Céu da Meia-Noite, novo original da Netflix, é essa grande metáfora simbólica sobre a vida em meio a um profundo isolamento. Conversando com a audiência como quem fala a um amigo, o novo longa dirigido e estrelado por George Clooney é poético. É lindo. Mas tem seus defeitos.

Clooney está aqui pela primeira vez se aventurando no gênero de sci-fi como diretor. Veterano do aclamado vencedor do Oscar Gravidade, dessa vez ele conta e estrela a sua própria história espacial de redenção e arrependimento. Só que ao invés de divagar pelo espaço sideral, seus dias aqui são contados em uma terra sem vida, gelada e fria em todos os sentidos. E incumbido da árdua missão de estabelecer contato com uma tripulação espacial que estava em rota em direção à Terra, ele terá que correr contra o tempo para avisá-los de que não há para o que voltar. Sua jornada física ainda se transforma em uma epifania pessoal, onde ele será obrigado a finalmente confrontar uma vida inteira em que optou por se distanciar das pessoas.

O Céu da Meia-Noite é o tipo de filme que parece ter sido feito para os tempos contemporâneos. Obviamente produzido muito antes de qualquer sinal de pandemia, o longa consegue marcar seu território por inevitavelmente já estar à frente do seu tempo. E calcado em uma premissa tão valiosa, que é a profundidade do isolamento social no âmbito emocional e psicológico, Clooney conta uma história sobre como a forma como nos relacionamos (ou não) com as pessoas é capaz de nos transformar pelo resto de nossas vidas. E convidando a audiência para uma imersão na mente de seu personagem, o cineasta e ator consegue nos tomar pela mão e nos envolver em seus traumas, erros e anseios mais profundos.



Enxergando o mundo por sua ótica, ainda somos dissimulados pelo roteiro, que consegue garantir um dinamismo entre o drama e a ficção científica, mas se constrói de forma híbrida, tornando o aspecto sci-fi em apenas um background para uma produção que é essencialmente bem dramática. E talvez um dos maiores problemas de O Céu da Meia-Noite seja exatamente o seu excesso de sentimentalismo. A narrativa de Augustine (Clooney) é tocante por si só, mas ganha uma camada extra e melosa de melancolia que não se encaixa tão naturalmente como se espera – lhe garantindo um efeito rebote que torna o filme um tanto piegas.

Ainda assim, a belíssima atuação de Clooney compensa esse excesso, nos entrelaçando à sua jornada de auto avaliação a ponto de nos colocar no mesmo ponto de reflexão. Em diante de uma fotografia apaixonante do mais severo inverno islandês, o drama original da Netflix nos cativa por sua qualidade técnica admirável, que fortalece o talento do veterano como diretor. Com efeitos visuais impecáveis que não perdem em nada para outros longas prestigiados do gênero sci-fi, O Céu da Meia-Noite erra por suas barrigas que tornam a trama morosa já no final do seu segundo ato. Mas ainda assim, Clooney recupera o seu fôlego no final, com uma delicada e doce despedida sobre o quão vazia é a vida, quando não compartilhada. E nós nunca precisamos tanto entender isso como agora.

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