‘I Love Lucy’ se tornou uma das sitcoms mais famosas e importantes da era de ouro da televisão norte-americana e, até hoje, estende sua influência em quaisquer produções do gênero. Estrelada pelos lendários Lucille Ball e Desi Arnaz, a série fez um estrondo gigantesco de público e promoveu uma revolução estética na indústria do entretenimento, principalmente pela química dos protagonistas quanto pela forma de produção e concepção.

No mais novo filme original do Prime Video, o diretor e roteirista Aaron Sorkin resolveu utilizar um dos momentos mais cruciais da sitcom para explorar a intrincada e complexa relação entre Ball e Arnaz, que eram casados na vida real e que enfrentaram momentos de pura agonia frente ao cenário político do show business e da própria nação. Em Being the Ricardos, como ficou conhecido o longa-metragem, a história, a princípio, nos leva de volta aos bastidores da sitcom e à semana mais crucial das gravações – mas não leva muito tempo até que um desconjuntado roteiro resolve ir e viajar ao passado para tentar explicar as origens da relação do casal em questão e fornecer certa luz sobre como um enredo romântico se desenlaçou em uma amálgama de traição e desconfiança.

O resultado parte dos mesmos obstáculos enfrentados por Sorkin em sua estreia na cadeira de direção, A Grande Jogada – que é o excesso de incursões desnecessárias e sequências que seriam facilmente editadas e colocadas como extras em uma suposta versão física. É claro que o realizador já demonstrou seu apreço incontrolável por acontecimentos verídicos, amadurecendo sua estética com o ótimo Os 7 de Chicago; porém, seu desejo de manter a teatralidade e o classicismo de ‘I Love Lucy’ foi um tanto quanto discutível, considerando que múltiplas escolhas se aglutinam em uma profusão cansativa que oscila entre o melodrama e o reflexivo. Felizmente, os problemas que despontam na iteração são ofuscados pela performance aplaudível de nomes como Javier Bardem, J.K. Simmons, Nina Arianda e, principalmente, da icônica Nicole Kidman (sedenta por mais uma estatueta do Oscar).



Chamar o roteiro de Sorkin de “desconjuntado” é quase um crime – ainda mais lembrando de sua obra-prima, ‘A Rede Social’. Entretanto, é notável como não há uma preocupação em equilibrar as várias partes do filme, exigindo que ele ora direcione a atenção para o comando de cada cena, ora para como os atores irão se entregar aos diálogos. Nesse quesito, Kidman faz um trabalho incrível e, mais uma vez, reitera sua versatilidade artística, firmando-se como uma das maiores atrizes de sua geração: sua rendição como Ball é aplaudível e irretocável, capturando trejeitos físicos e vocais do e criando um arco sólido o suficiente para nos guiar durante duas horas. Bardem também encanta dentro do inexplicável charme exalado por Arnaz, enquanto Simmons e Arianda foram as escolhas perfeitas para William Frawley e Vivian Vance.

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De fato, o elenco é o bem de maior valor do longa – motivo pelo qual é utilizado como chamativo para o público. Os personagens são bem delineados e, desde a abertura, são exaltados dentro do conflito que paira na atmosfera principal: Lucille sempre lutou para conquistar seu espaço na indústria do entretenimento e, no momento que acreditou que sua carreira estava prestes a começar, enfrentou a problemática do etarismo e se viu obrigada a dar dois passos para trás. Quando “resgatada” por uma emissora televisiva, ela se aliou ao marido, Desi, para estrelar a sitcom que originou a cinebiografia. No auge de sua fama, Lucille enfrentou boatos sobre sua posição partidária e virou alvo de um escândalo de adultério envolvendo o esposo – ambos os eventos se fundindo em uma explosão vulcânica que colocou em xeque o que ela realmente acreditava.

Em meio a tantas reviravoltas, Sorkin mergulha de cabeça na exposição imagética, em um frenesi descomedido que realiza um movimento constante de dilatação e expansão – tanto em relação à narrativa quanto à condução. O retorno ao passado não é bem demarcado e, por vezes, não é imediatamente absorvida pelos espectadores (e nem mesmo tem um propósito muito explorado). O foco, aqui, deixa de ser as controvérsias acerca de ‘I Love Lucy’, afasta-se do período delimitado pelo objeto de estudo e até mesmo abandona certo protagonismo de Desi, exigindo que Lucille comande qualquer cena em que apareça – lutando para ter sua voz ouvida e percebendo que, ao passar boa parte do tempo almejando por um lar, alimentou uma situação simbiótica com o estúdio que a acolheu e com a jovem dona de casa que se tornou parte de si mesma.



Muitas coisas são omitidas para garantir maior fluidez de Being the Ricardos, mesmo não funcionando em algumas partes. No final das contas, a obra é divertida e nos deixa curiosos para saber a conclusão do enredo, contando com um desfecho surpreendentemente coeso e uma sensação agridoce de que o enorme potencial não foi esmiuçado por completo.

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