É impressionante como, a cada filme, o ainda jovem cineasta britânico Edgar Wright vai refinando o seu estilo e aprimorando o seu modo de contar histórias. Desde quando fez Chumbo Grosso (2007), passou por Scott Pilgrim contra o Mundo (2010) e chegou a Baby Driver (2017), que Edgar gera, dentro de si mesmo, diversas revoluções. Antes assumido como um diretor de comédias inglesas recheadas de referências a cultura pop, se transformou rapidamente num entusiasta da estética – sempre inquieta e distante de realizadores estéreis como Wes Anderson – finalmente atingiu um grande feito ao entregar um filme de ação moderno no maior estilo tarantinesco. Edgar é sem dúvidas um dos realizadores mais promissores da indústria cinematográfica mundial e, dessa vez, realiza o que podemos chamar da sua obra mais madura e original com o goticamente pitoresco Noite Passada em Soho.

Divulgado abertamente como uma produção de terror, que bebe da fonte do horror orquestrado por Dario Argento e Mario Bava, sobretudo por sua estética expressiva, já constatada nos trailers e cartazes divulgados, Last Night in Soho (no original) possui um primeiro ato absolutamente atípico daquilo que se espera nesses filmes europeus comandados pelos cineastas citados. Aliás, é curioso perceber que a linha de atuação escolhida pela atriz Thomasin McKenzie (Tempo) é completamente diferente do que se via nos giallo movies e pareça, na verdade, com àquelas conferidas pelas musas que estrelavam as produções do mestre Alfred Hitchcock. Desde o sotaque britânico característico até os trejeitos metódicos, a protagonista parece ter mesmo saído diretamente de um filme da década de sessenta. O que tem tudo a ver com a Eloise Turner de McKenzie, que, mesmo vivendo no presente, não faz questão de esconder os seus gostos datados e peculiares.

Edgar Wright e Anya Taylor-Joy

Ainda que Eloise (ou só Ellie) seja uma figura particularmente interessante e até excêntrica, a garota assume sua forma de super-heroína quando “encarna” a charmosa e provocante Sandy, que ganha vida pela exuberante Anya Taylor-Joy (A Bruxa). As aventuras de Sandy acontecem exatamente em 1966, onde a garota tenta enveredar na carreia musical fazendo apresentações nas conhecidas boates da época. Para isso vai ter que se juntar ao agente e empresário Jack, interpretado por Matt Smith (Doctor Who), uma espécie de cafetão que não ver problemas em usar as artistas que agencia da maneira mais sórdida possível. No primeiro momento, Ellie fica encantada com a vida de Sandy, no entanto, rapidamente, todo glamour começa a se transformar numa vida abjeta, onde tudo parece desmoronar quando ela se depara diante da realidade cruel enfrentada pelas artistas daquele recorte temporal.

É óbvio que a trama e seus desdobramentos pra lá de curiosos acabem sendo por si só uma atração à parte – por sinal, ainda que continue trabalhando com cinema de gênero, Edgar Wright leva tudo bem a sério dessa vez e não abre mão de criar cenas tensas e dramáticas – mas, a bem da verdade, não tem como negar que o grande chamariz de Noite Passada em Soho, pra variar, é a carpintaria construída pelo próprio autor.



Repleto de cenas impressionantes, realizadas quase que totalmente através de coreografias arrebatadoras e confessadas pelo próprio Wright, a troca de lugares numa dança que envolve Thomazin e Anya, correndo de lados opostos da câmera, beira o inacreditável por ser isenta de truques digitais. Há também um fascínio particular da obra em relação à espelhos, onde o cineasta novamente dispensa a utilização de computação gráfica ou mesmo o artifício de telas verdes, os conhecidos chroma keys. Tudo que acontece nesses andamentos citados são trucagens cinematográficas analógicas como, por exemplo, sets duplicados e espelhos que deslizam pelas câmeras, além da movimentação frenética que é habitual de Edgar e o seu parceiro montador Paul Machliss.

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A parte digital do longa acontece na criação de projeções e figuras sombrias que precisam surgir de lugares improváveis, causando um certo tipo de desconforto necessário para gerar situações que se entregam completamente ao surrealismo fantástico. Em um desses andamentos vemos o que seria a fusão de dois clássicos distintos e absolutos: primeiro nos símbolos de linguagem e temores eróticos aludidos a Repulsa ao Sexo (1965), de Roman Polanski; depois na fotografia expressivamente sangrenta e narrativamente hermética de Suspiria (1977), do já citado Argento. Aliás, falando no mestre do terror italiano, o clímax ou momento de embate central do qual descobrimos a verdade por trás de tudo é quase que literalmente tirado de outro filme de Dario Argento, esse chamado de O Pássaro das Plumas de Cristal (1970), sobretudo no famigerado plano detalhe da faca. Indo mais além, podemos reparar na atmosfera inglesa soturna, sensação costumeira nas produções de horror feitas por Nicolas Roeg, vide Inverno de Sangue em Veneza (1973).



O filme ainda reserva um sentimento nostálgico por trazer os últimos papéis das divas e Bond girls Margaret Nolan (007 Contra Goldfinger) e Diana Rigg (007 a Serviço Secreto de Sua Majestade), onde esta última desempenha uma grande performance na pele da curiosa senhora Collins. Da mesma maneira também foi ótimo poder rever o veterano ator Terence Stamp (Superman 2 – A Aventura) ganhar um papel de destaque e realizar uma das cenas mais fortes e surpreendentes do longa. Sim, a obra tem o poder de chocar por meios próprios e distantes daquilo que é habitual no gênero. De modo que Noite Passada em Soho é muito mais do que aparenta ser e pode surpreender àqueles que buscam uma estrutura mais clássica vista nos autênticos filmes de terror. Você que já é fã do cineasta não precisa de preocupar, Edgar Wright continua fazendo o cinema pulsante, referencial e eletrizante de sempre, com àquelas trucagens visuais empolgantes e uma trilha sonora repleta de canções sensacionais e importantes narrativamente. No entanto tudo agora foi construído pelas mãos de um artesão mais experiente, que sabe a hora certa de disparar a carga elétrica de ação necessária para tudo acontecer como deve ser.

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