Crítica | Os Tradutores – Thriller Francês é um dos melhores lançamentos do ano!

Existe um ditado popular que diz que um segredo sabido por duas pessoas significa 50% de chance de ser revelado. Agora, imagine quando o segredo precisa ser mundialmente divulgado ao mesmo tempo, em diferentes línguas e lugares, entretanto, antes que isso aconteça ele será compartilhado entre dezenas de pessoas, que devem jurar silêncio em contrato. É o que acontece com os grandes lançamentos mundiais dos aguardados filmes da Marvel, por exemplo, ou com a publicação de livros ansiados pelo público, como os últimos da saga Harry Potter. E é exatamente disso que se trata o novo thriller franco-belga ‘Os Tradutores’, que chega essa semana aos cinemas brasileiros.

Em uma mansão isolada, nove tradutores são contratados para traduzir o ‘Dedalus’, a aguardada última parte de uma trilogia best-seller mundial, cuja identidade da autoria segue em anonimato. Lá eles descobrem que mais que trabalhar simultaneamente para cumprir o prazo do contrato eles ficarão trancados em uma espécie de bunker de luxo, sem sinal de internet, com seus celulares confiscados, sem contato com o mundo exterior, porém com todo o conforto que a mansão proporciona. Quando as primeiras dez páginas do manuscrito vazam na internet e o criminoso pede uma recompensa financeira para não divulgar mais cem páginas, todos os nove tradutores automaticamente se tornam suspeitos, e o que seria apenas um trabalho comum se torna a mais mortal de todas as traduções já feitas.

Seguindo a linha de mistério tão popularmente difundida nos livros de Agatha Christie, ‘Os Tradutores’ traz, em uma hora e quarenta e cinco minutos, uma história coesa toda calcada no suspense estilo “quem é o culpado”. Isso é parte da estratégia do roteiro de Romain Compingt, Daniel Presley e Régis Roinsard, que ao mesmo tempo em que apresenta cada um de seus personagens principais também lhes atribui características que justificam a desconfiança do espectador sobre a idoneidade do caráter de cada um deles, de modo que ninguém é absolutamente inocente na construção da trama. Os maiores destaques vão para os personagens Katerina (Olga Kurylenko) e Alex (Alex Lawther), tão instigantes quanto fascinantes.

Dirigido com muita precisão por Régis Roinsard, ‘Os Tradutores’ traz o clima de suspense e mistério para dentro do mundo editorial – universo este que é desconhecido pelo grande público. Ao mostrar o quão mordaz e cruel muitas vezes é o trabalho de um tradutor (ou revisor, ou editor), o público consegue visualizar como crimes como a pirataria são realizados – e o enorme impacto que este crime causa na produção editorial. Além disso, o diretor consegue manter a constância do thriller por todo o longa, sem deixar a peteca cair e, muitas vezes, surpreendendo-nos com cenas e revelações chocantes e inesperadas.

Exibido em pouquíssimas sessões no Festival do Rio 2019, um dos pontos fortes do filme é ser falado em dez línguas ao mesmo tempo (o que demonstra, inclusive, o alto grau de dedicação dos tradutores do longa, para legendá-lo aqui no Brasil). Mesmo sendo um filme de 2019, não é exagero dizer que é um dos melhores lançamentos do ano nos cinemas por aqui, pois ‘Os Tradutores’  traz tudo que o espectador quer ver: uma história hipnotizante, personagens sedutores, boas atuações e um final condizente com o esperado. ‘Os Tradutores’ vale a ida ao cinema.

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Janda Montenegro
Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.