Depois de duas semanas bastante tediosas – apesar de uma estética infalível e irretocável – Penny Dreadful: City of Angels’ parece finalmente ter voltado aos trilhos com um episódio que, se longe de alcançar as glórias da série original, ao menos começa a pavimentar um caminho interessante e que já mostra uma novo e envolvente alter-ego interpretado por Natalie Dormer. “Wicked Old World”, no final das contas, tenta acrescentar algumas camadas histórias e sobrenaturais a um panfletarismo político desnecessário e que ofuscava o que realmente deveria importar – como o embate secular entre o bem e o mal, a morte e a vida (e uma profecia que pareceu cair no esquecimento até o momento, prenunciando uma batalha regada a sangue e a fogo entre irmãos e nações).

O capítulo anterior calcou-se num cliffhanger chocante que trazia de volta à vida o alvejado Raul Vega (Adam Rodriguez), quase assassinado por seu irmão, o detetive Tiago (Daniel Zovatto), durante um conflito entre moradores de um dos guetos de Los Angeles e as forças armadas da cidade. Apesar da cena inicial parecer cultivar a atmosfera da iteração, ela é rapidamente varrida para debaixo do tapete, dando lugar ao relacionamento entre Tiago e a celebridade evangelista Molly (Kerry Bishé), a busca de Mateo (Johnathan Nieves), o caçula dos Vega, por sua identidade e um motivo para lutar por sua família, e até mesmo da crescente polarização europeia advinda do crescimento exponencial do nazi-fascismo, que impacta diretamente nos dialogismos norte-americanos. Eventualmente, essa centelha que trouxe os mortos de volta à vida é descartada – e não se sabe se ela será recuperada nas próximas semanas.

Com exceção de um breve comentário feito por Tiago, as linhas narrativas convergem para uma análise mais humana e falha dos personagens, criando até mesmo alguns escopos que recuperam espectros da escola romântica – como o nacionalismo e o amor utópico. Este é encarnado pelos encontros às escondidas de um homem latino sem quaisquer raízes que não tem ideia de quem seja e de uma mulher branca superprotegida que deseja conhecer o mundo que observa às custas de uma mãe insana; aquele, por sua vez, começa a ganhar forma conforme Mateo se reencontra com o irreverente Fly Rico (Sebastian Chacon) e Rio (Dormer), uma das novas personificações de Magda que funciona como uma chefona latina do crime e que não pensa duas vezes antes de lutar pelo que acredita.

Basicamente, esses são os passos que ‘City of Angels’ dá, ainda optando por um desenrolar lento e linear. É claro que Peter Craft (Rory Kinnear) também dá as caras em uma sequência nada memorável ao lado da misteriosa Elsa (Dormer novamente), enquanto o detetive Lewis Michener (Nathan Lane) deixa suas emoções aflorarem ao perceber a guerra racial que se posta em sua adorada cidade – lutando para encontrar os nazistas locais por sua origem judaica e constantemente ameaçada de extinção.

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O spin-off volta a cometer os mesmos erros que os episódios passados, procurando dividir com exatidão os holofotes para as dezenas de personagens, falhando nesse quesito com frustração gigantesca. Em comparação, o show original, que também não pensava duas vezes antes de entrelaçar clássicos nomes da cultura literária britânica em um mesmo cosmos, conseguia dosar melhor a recorrência das personas e como até os mais simples detalhes contribuíam para um entendimento macro do pano de fundo e das metáforas empregadas em cada temporada. Aqui, as partes fragmentadas têm maior peso separadas que quando amalgamadas em um único receptáculo – o que espera-se que seja lapidado o quão antes possível.

Não é surpresa que a melhor peça audiovisual do novo capítulo seja uma cena muito bem coreografada que se passa no The Crimson Cat, uma danceteria propriamente extirpada dos anos 1930 para uma contemporaneidade anacrônica e envolvente – representando um delicioso momento de paz antes do caos previsto pela presença estonteante e mortal do demônio Magda. Em comparação com as investidas predecessoras, o diretor Sergio Mimica-Gezzan aposta em uma construção suavizada, colorida, recheada de figuras adoráveis que nos convidam para uma jornada brilhante e borbulhante.

Penny Dreadful: City of Angels’, a cada semana, encontra uma pista identitária (artística ou imageticamente) que exala potencial – mas falha em condensá-lo em algo crível ou impactante o suficiente. De qualquer forma, não podemos tirar mérito do criador John Logan em deixar de lado as ambiguidades e promover um retorno saudoso àquilo que já era indescritível e arrepiante.

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