Rosamund Pike conquistou o mundo após protagonizar o thriller de suspense ‘Garota Exemplar’, sendo até mesma indicada ao seu primeiro e único Oscar. É claro que a atriz não era nenhuma novata na indústria cinematográfica, visto que participou de obras como ‘Orgulho e Preconceito’ e ’007 – Um Novo Dia para Morrer’, mas seria apenas depois da incursão na obra de David Fincher que sua carreira decolaria. Desde então, ela interpretou Marie Curie e Marie Colvin em duas cinebiografias que lhe renderam aclame por parte da crítica e a lançaram como uma das artistas mais versáteis de sua geração. Agora, Pike retornou com mais uma chance de brilhar no thriller de comédia ácida ‘Eu Me Importo’.

A premissa é bastante simples e se respalda em diversas narrativas de golpe que continuam a ter apreço pelo público: Pike dá vida à Marla Grayson, uma sagaz e audaciosa curadora que utiliza a população idosa de sua cidade natal para crescer na vida. Fundadora de uma pequena empresa familiar, ela, em conluio com vários outros membros de sua comunidade, convence juízes a passarem todos os bens de pessoas mais velhas que, alegadamente, não conseguem mais tomar conta de si próprios. Entretanto, Marla apenas se aproveita de uma espécie de submissão involuntária para se apropriar de quaisquer itens de valor que eles tenham, vendendo-os em leilão para benefício próprio – isso é, até cruzar caminho com uma misteriosa e perigosa senhora, Jennifer Peterson (Dianne Wiest).

I CARE A LOT (L-R): EIZA GONZALEZ as FRAN, DIANNE WIEST as JENNIFER, ROSAMUND PIKE as MARLA.
Credito: SEACIA PAVAO/NETFLIX

Em retrospectiva, o enredo do longa-metragem pode não ser um dos mais originais, mas ainda assim é bastante prático. Afinal, chega-se em um momento em que todas as grandes histórias já foram contadas e, agora, cabe aos próprios realizadores encontrar um novo modo de trazê-las aos espectadores – algo que J Blakeson faz com solidez considerável, apesar das óbvias falhas. O diretor, que também assina o roteiro, é conhecido por obras como ‘O Desaparecimento de Alice Creed’ e ‘A 5ª Onda’ e, por esse motivo, não é estranho a construções do gênero. Todavia, diferente de suas breves investidas anteriores, ele parece ter mais certeza do que deseja fazer e quais serão seus focos, deixando que um exímio elenco comande cada um dos atos e cada uma das reviravoltas.



Eventualmente, o roteiro torna-se denso demais para que os múltiplos arcos narrativos sejam explorados em sua completude. De um lado, temos a jornada de ascensão e que de Marla, que funciona como um emblema bastante óbvio do que deseja ser: desde o princípio, ela abandona seus princípios e sua ética para sobreviver entre os lobos e para encontrar sucesso em meio a uma opressão sistemática que outrora a impedia de ter tudo o que desejava. Em outras palavras, por que seguir as regras, se quebrá-las é bem mais gratificante? Já em outro espectro, ela lida com a identidade de Jennifer, que, na verdade, é mãe de um perigoso líder da máfia russa chamado Roman Lunyov (Peter Dinklage), que não está nem um pouco feliz com Marla e com seu reino de golpes que ameaça um império do tráfico que levou anos para se erguer.

Como se não bastasse, há também as subtramas pessoais da protagonista, incluindo seu romance com Fran (Eiza González), que a ajuda em praticamente todos os ardis. De certa forma, afastá-la de uma construção essencialmente maniqueísta ajuda a humanizá-la e a levar a audiência a apostar em sua vitória, por mais que suas atitudes sejam bem controversas e inconsequentes. É nesse lento e cauteloso trilhar que o mundo de Roman e Marla colidem em uma explosiva aventura que, no final das contas, os reúne para um desejo em comum: dinheiro. É certo dizer que, no quando a personagem principal consegue sobreviver e salvar sua amada de um ataque impiedoso de seus algozes, tudo o que podemos fazer é sentar e esperar que ela se vingue da forma mais articulada possível, cruzando mares e montanhas para proteger aqueles à sua volta e para ter sua tão sonhada liberdade.

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O filme esbarra em alguns equívocos previsíveis, como inflexões sobre passados traumáticos que adicionam em nada para a complexidade das personas ou do enredo – e um final que, mesmo sendo premeditado por um belíssimo diálogo de enfrentamento entre as forças opostas, deixa a desejar pela fórmula do choque. De qualquer forma, a impecabilidade de uma direção caprichosa e dinâmica, aliada à química de atrizes e atores, consegue ofuscar os profusos erros e transformar a obra em uma divertida e competente iteração que nos mantém presos do começo até o fim.



Em suma, ‘Eu Me Importo’ pode ser relembrado em certas categorias na temporada de premiações – já tendo levado Pike a receber sua terceira indicação ao Globo de Ouro e colocando-a em uma disputa acirrada pelo Oscar. Entregando o que promete, com algumas pitadas críticas bem-vindas, o longa é uma boa adição ao extenso catálogo da Netflix e à lista daqueles que buscam relaxar e deixar as preocupações de lado.

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