Em meio a altos e baixos, a carreira de Ryan Murphy tem alguns pontos extremamente sólidos e que ganharam o coração da crítica e do público – e um deles é a antologia American Crime Story. Trazendo histórias reais à vida em vez de focar em narrativas mirabolantes, a produção apresentou versões dramatizadas do icônico caso de O.J. Simpson, ex-jogador de futebol americano acusado de ter matado a esposa e o amigo, e do lendário estilista Gianni Versace, morto por um serial killer chamado Andrew Cunanan. Agora, Murphy retorna ao lado de colaboradores familiares para mostrar um dos acontecimentos mais marcantes da história estadunidense: o escândalo Clinton-Lewinsky.

Para aqueles não familiarizados, a trama é centrada essencialmente no ex-presidente Bill Clinton e na figura pública Monica Lewinsky. À época dos eventos, Lewinsky trabalhava como estagiária na Casa Branca e foi arrastada a um relacionamento perigoso e controverso com Clinton – ainda mais considerando que ela era uma subordinada ao governante dos Estados Unidos e que ele, por sua vez, era casado com Hillary Clinton (e é, até hoje). Após inúmeras investigações que envolveram outros nomes conhecidos, como Linda Tripp, Ann Coulter e Lucianne Goldberg, Clinton foi condenado por obstrução da justiça e perjúrio, visto que mentira sob juramento de quaisquer envolvimentos com Lewinsky. Em dado momento, ele foi retirado do cargo da presidência pela Casa dos Representativos e foi a tribunal por assédio sexual, cometido contra a jovem Paula Jones.

Trazer esse complexo e intrincado enredo às telinhas não seria um trabalho fácil e, conhecendo o frenesi prolífico de Murphy e associados, o resultado poderia ser tanto incrível quanto decepcionante. No final das contas, o episódio de abertura de ‘Impeachment: American Crime Story pode tropeçar no meio do caminho e enfrentar certas irregularidades ao longo de uma hora de duração, mas deixa que um talentoso elenco irradie centelhas magníficas e nos faça querer saber o desenrolar dos próximos episódios.

A princípio, a iteração de estreia, intitulada “Exiles”, é calcada sobre uma trajetória familiar de tantos outros dramas políticos recentes – e pega certos elementos emprestados de ‘The West Wing’ e ‘House of Cards’, por exemplo. O cenário concentra-se nos claustrofóbicos e opressores corredores da Casa Branca, onde segredos obscuros se escondem e explodem em um turbilhão de reviravoltas chocantes. Antes dos espectadores se engolfarem com a problemática interação entre Clinton e Lewinsky, o foco é canalizado para Tripp (Sarah Paulson), secretária do advogado e deputado Vince Foster (Matthew Floyd Miller), que vê sua vida virar de cabeça para baixo quando seu “chefe” se suicida e causa um tumulto interminável onde ela e seus colegas trabalham. Transferida injustamente, como ela pontua, para o Pentágono e em um cargo inferior ao que exercia, ela parte em uma espécie de vingança pessoal que visa a revelar os podres do sistema que controla o país – mas não sabe como, por ora.



Enquanto algumas cenas se mostram longas demais e/ou desnecessárias, Paulson faz o máximo de um roteiro assinado por Sarah Burgess que falha em ousar muito mais que o óbvio – e pode inclusive conquistar mais uma estatueta do Emmy depois de sua aclamada performance como Marcia Clark em ‘The People v. O.J. Simpson. A atriz não se transforma apenas com uma poderosa e incrível maquiagem, mas incorpora todos os trejeitos de Tripp em uma rendição honrável (algo não muito surpreendente, considerando o status que Paulson adquiriu desde o começo da carreira). Entretanto, ela não é a única a nos chamar a atenção: Beanie Feldstein, incorporando a ingênua e um tanto quanto traumatizada Lewinsky, faz uma estreia gigantesca no cânone seriado de Murphy e deve impactar a crítica e os votantes das principais premiações.

Além da dupla, há outras aparições que merecem nosso tempo – incluindo a transmutação de Cobie Smulders como Coulter, a pontual presença de Clive Owen e Edie Falco como o casal Clinton e o impacto de Margo Martindale como Goldberg. Porém, nota-se uma preferência assustadora dos holofotes por Tripp, que rouba cada uma das tramas e se envolve profundamente em cada ato – deixando, dessa forma, que o escândalo que deveria reger a narrativa fique em segundo plano (ao menos por enquanto). Nessa medida, a direção de Murphy, apesar de mais comedida em relação às temporadas anteriores e em relação à ‘American Horror Story’, por exemplo, também deixa transparecer certas afetações em relação a escolhas visuais e sonoras (ou seja, à paleta de cores e à críptica trilha sonora).

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‘Impeachment: American Crime Story pode não ter começado com a mesma força de suas conterrâneas, mas, com certeza, deu o tom do que podemos esperar nos próximos episódios. Há muito potencial a ser explorado – só é necessário aparar algumas pontas soltas e controlar deslizes de ritmo. Tropeçando no caminho, o primeiro capítulo da terceira temporada é interessante e instigante, ainda que não vá agradar a todos os fãs da antologia.



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