Há muito tempo a Pixar deixou de ser um estúdio de animação que produzia filmes voltados unicamente para o público infantil, como ‘Carros’, para focar com muito mais interesse em histórias que funcionassem para toda família mas que causassem maior impacto no público adulto. Filmes como ‘Viva – A Vida é uma Festa’, ‘Up! Altas Aventuras’ e ‘Divertida Mente’, cujas histórias transcendem a mera aventura e adentram em temas profundos como o pós-morte e a psicanálise ou que simplesmente tratam de temas universais muito caros aos seus espectadores. Por isso choramos tanto. E essa linha de pensamento acaba de ser elevada e multiplicada com o mais novo lançamento da Disney/Pixar, ‘Soul’, que chega direto à plataforma da Disney Plus.

Joe (na voz original de Jamie Foxx) é um professor de música frustrado com o rumo que sua vida tomou, pois passa os dias ensinando à jovens desinteressados, quando seu verdadeiro sonho e vocação era tocar jazz com grandes artistas. Um dia, um ex-aluno o convida para se apresentar junto com uma grande saxofonista, e Joe sente que essa é a grande chance da sua vida. Ele está tão animado e distraído, que acaba sofrendo um acidente e morre. Já no outro plano, Joe se dá conta de que não aproveitou sua vida direito e se recusa a aceitar que morreu. Com a ajuda de 22 (Tina Fey), uma alma que não tem nenhum interesse em encarnar, Joe viverá uma aventura de aprendizado e descobertas que uma vida inteira não foi capaz de lhe ensinar.

Soul’ é mais uma pérola da Pixar, mas sua beleza não fica evidente: é preciso se aprofundar nos temas levantados no filme para entender o tamanho do impacto desse longa, que foge da roupagem ocidental cinematográfica. O argumento escrito por Pete Docter, Mike Jones e Kemp Powers parte do cotidiano de um sujeito comum para conduzir o espectador por uma história com muitas camadas, sendo a mais evidente delas aquela que trabalha os valores que damos às coisas em nossas vidas e a qualidade que damos ao tempo que nos resta.



Para elaborar essa jornada, o roteiro escrito por essa tríade (com direção de Pete Docter e Kemp Powers) visita algumas construções de sucesso de outras produções da Pixar, como a estética e a modo de organização do pós-vida bastante semelhante aos universos dentro da cabeça de ‘Divertida Mente’, que o espectador mais atento conseguirá perceber. Talvez por isso o primeiro arco de ‘Soul’ pareça simples demais, com muita influência da série ‘The Good Place’; o segundo arco apresenta a aventura em si – um pouco estendida demais, porém divertida; por fim, o grand finale de ‘Soul’, que arrebata a gente de maneira inesperada, pois somos encaminhados a focar numa linha narrativa, quando, na verdade, o trunfo do filme está numa camada mais especial.

Alinhada com as mudanças mundiais, a Pixar encerra a década anunciando os novos ventos que vão conduzir suas produções: animações com narrativas variadas, atenta às individualidades e às identidades distintas dos povos. Não à toa, em ‘Soul’ o protagonista é um homem preto, a maioria dos dubladores em inglês são artistas pretos, o tipo de música que Joe mais se identifica é de origem preta (o jazz e o soul – e o trocadilho do título não é por acaso) e a verdadeira alma de origem zulu é o seu grande ensinamento: o Ubuntu, que ensina que “uma pessoa é através de outras pessoas”.



Para um melhor maravilhamento de ‘Soul’, pense Ubuntu, e tente segurar as lágrimas no fim.

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