Filme assistido durante o Festival de Sundance 2021

Em meio a um verão ensolarado, as mais diversas facetas da black music se reuniam em um único palco para celebrar a cor preta, apagada e ignorada pela história norte-americana. Tons diversos, mas todos de uma raça só, esses artistas cantavam para os seus, celebravam a negritude que esbanja beleza em seus cabelos de curvaturas diversas e formatos distintos e se comunicavam com famílias pretas, de crianças a idosos. Por meio das vozes de gente como Nina Simone, Stevie Wonder, Mahalia Jackson e até mesmo o ministério de louvor cristão, Edwin Hawkin Singers, Summer of Soul foi muito mais do que um festival de música. Um manifesto de um povo que ainda pranteava a morte de Martin Luther King Jr., o evento marcou uma comunidade inteira, mas foi ignorado por sua própria nação. Mas pelas mãos do novato cineasta Questlove, ele ganha vida no brilhante documentário Summer of Soul (…Or, When the Revolution Could Not Be Televised).



O festival Summer of Soul surgiu em meio ao famigerado Woodstock. Com premissas absolutamente distintas e propósitos díspares, o evento que celebrava a negritude e fora gravado no bairro nova-iorquino Harlem foi esquecido pela imprensa e pelo tempo. “Vendido” como o “Woodstock Preto”, ele não parecia importante, embora seus valores transcendessem qualquer apologia subversiva pregada pelo popular evento majoritariamente frequentado e promovido por pessoas brancas. E sem o amparo e publicidade necessários, o encontro dos artistas mais populares da black music foi engavetado e assim permaneceu por 50 anos. Mas à medida que o multifacetado artista Questlove inaugurava sua carreira como cineasta, os rolos de filmagem bem guardados foram desempoeirados e finalmente puderam ser vistos à luz do projetor, sob as lentes e excepcional direção de um homem preto que não resistiu em esconder mais essa história.

E o que faz do documentário Summer of Soul algo tão único não é apenas sua riquíssima, exclusiva e inédita coleta documental, que reúne imagens e momentos jamais vistos. O longa se destaca dentro do seu gênero por sua profundidade narrativa, capaz de usar todos os elementos computados e apurados em um belo emaranhado histórico e social. A partir das performances do festival de música apresentado, a trajetória do povo afro-americano é relatada com maestria. E com a morte de King ainda latente e fresca na mente do seu povo, observamos como Summer of Soul também se mostrava como um grito sofrido de uma comunidade que perdera o seu último grande líder social.

A produção de Questlove nos revela como a música foi utilizada como uma manifestação dos anseios do povo preto em relação aos seus direitos sociopolíticos e econômicos, fazendo uma reconstrução impecável, que permeia os momentos mais clínicos que levaram à realização do evento. Indo mais além, o documentário extrapola as fronteiras musicais e traça uma linha temporal poderosa que recupera a história afro-americana pela ótica da moda, arte e do Cristianismo, suplantando e conferindo uma alicerce ainda maior para as raras imagens expostas diante da audiência.

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E reunindo entrevistas das mais diversas, que englobam pessoas comuns que viveram o festival, à artistas e outras figuras públicas fundamentais, o longa é um documentário completo e dinâmico, que facilmente se transforma em uma incrível aula de história. Com uma edição e montagem que agregam ainda mais à sua riqueza documental, Summer of Soul une todas as esferas da culturalidade preta de uma só vez, proporcionando uma experiência cinematográfica única, visceral e apaixonante. Feito com amor por alguém que também possui a música pulsando em suas raízes, a produção rapidamente se solidifica como aquela que será lembrada como uma das melhores do seu gênero.

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