No final de 2019, os fãs de sagas de fantasia se divertiam com o lançamento da temporada de estreia de The Witcher, narrativa baseada nos escritos homônimos do lendário romancista polonês Andrzej Sapkowski. Entretanto, apesar das boas intenções, a iteração falhou em conquistar o público com uma adaptação envolvente que, apesar de fidedigna aos romances, não conseguiu encontrar uma linha de força sólida o bastante para criar uma identidade própria – valendo-se demais do carisma dos atores principais e de um mergulho antológico para ao menos apostar fichas em reviravoltas constantes.

Dois anos mais tarde, a showrunner e produtora executiva Lauren S. Hissrich anunciou que as aventuras do poderoso bruxo conhecido como Geralt de Rivia (Henry Cavill) estavam prestes a voltar para a Netlfix – nos deixando em um dilema acerca do que esperar dos novos episódios. Contrariando expectativas menos otimistas, a segunda temporada da série alcançou o raro feito de, além de expandir a mitologia arquitetada por Sapkowski, aperfeiçoar praticamente todos os aspectos que falharam no ciclo anterior, permitindo a imortalização de arcos mais íntegros e emocionantes, sem perder a essência mítica ambientada no Continente e sem deixar de lado incursões temáticas de extrema necessidade para a contemporaneidade – como intolerância ao diferente, racismo e questões familiares. Consagrando-se como uma das melhores produções do gênero de 2021, The Witcher entregou tudo o que esperávamos em uma jornada enfeitiçadora e eletrizante.

Enquanto estreia serviu como apresentação de personagens que ficaram marcados na cultura pop pelos livros supracitados e pela aclamada franquia de games, Hissrich, aliada a um habilidoso time técnico e criativo, percebeu que tinha os elementos necessários para alimentar as múltiplas personalidades existentes no Continente, desde a feral impassibilidade Geralt e dos outros bruxos (que têm um protagonismo gigantesco nos episódios), Yennefer de Vengerberg (Anya Chalotra) e os outros magos e feiticeiros que habitam o Continente, e a Princesa Cirilla de Cintra (Freya Allan), elo em comum que é disputado pelas mais variadas forças que desejam dominar o mundo e moldá-lo ao seu bel prazer. No topo de tudo isso, uma legião de monstros, demônios e seres malignos que pululam das telinhas para nos engolfar em um turbilhão de sequências de ação poderosas e de tirar o fôlego.



Entretanto, enquanto as cenas de luta são muito bem coreografadas e mantêm o frenético ritmo da produção, é o desenvolvimento dos protagonistas e coadjuvantes que merece nossa atenção, por não se valer da superficialidade de fórmulas baratas e realmente permitir que eles cresçam através de obstáculos, erros e arrependimentos. O exemplo mais claro disso emerge com Yennefer que, depois de salvar a todos na Batalha de Sodden, foi capturada como prisioneira de guerra, perdeu seus poderes mágicos e foi tratada como traidora e possível espiã por aqueles que defendeu a vida inteira. Arrasada e solitária, Yennefer percebe que não conhece as pessoas como poderia, mas nunca deixa sua personalidade sarcástica de lado, defendendo seus valores com unhas e dentes à medida que usa os momentos de fraqueza para se redimir e se sacrificar por um bem maior.

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Além da feiticeira, Geralt e Ciri roubam os holofotes quando aparecem, dividindo a tela ou não. Para aqueles que não se recordam, a dupla já estava predestinada a se reencontrar muito antes dos eventos no tempo presente e, quando o fazem, nutrem de uma estranheza que alavanca uma aliança quase familiar entre eles. Nos episódios finais, Ciri até mesmo comenta que Geralt é a figura paternal que sempre quis ter, sustentando as incursões dramáticas promovidas por Hissrich e pelo time de roteiristas. É claro que, vez ou outra, o exagero dos diálogos mancha a límpida estrutura em que a temporada se alicerça, mas não com força o suficiente para causar estranhamento ou afastar os espectadores.

Nesse tocante, percebemos a cautela e a solidez com que os diretores percorrem essa jornada – em outras palavras, é notável como há um diálogo estético que funde os episódios em um microcosmos compreensível e com começo, meio e fim (deixando, obviamente, um belíssimo gancho para os ciclos futuros). Não há nada de original a ser mostrado, mas as ambições são controladas e fazem referências a outros títulos do gênero com maestria – pegando páginas emprestadas da atmosfera vibrante de ‘O Senhor dos Anéis’ e os momentos mais solenes de Game of Thrones, por exemplo. A montagem segue uma ideia similar e se joga sem medo em uma construção episódica funcional e simbólica da maneira mais sutil possível.



Deslizes à parte, os novos capítulos de The Witcher é um presente adiantado de fim de ano aos fãs da franquia e aos admiradores de fantasia que se decepcionaram ou se frustraram com a iteração anterior. Apresentando lados diferentes dos personagens e aumentando nossa empatia ou antipatia para com eles, cada elemento da história se amalgama a interpretações fabulosas e nos deixa ainda mais animados para os eventos que irão se suceder.

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