O gênero western, conhecido em português como faroeste, é um dos mais famosos do cinema e vem se reinventando desde seu surgimento nas primeiras décadas do século XX. Clint Eastwood, sendo um dos expoentes dessa esfera do entretenimento, foi um dos principais nomes que mantiveram as narrativas do Velho Oeste vivas até hoje – não é surpresa que vemos suas influências em obras contemporâneas como ‘Sete Homens e um Destino’, ‘Os Oito Odiados’ e ‘Godless’. Agora, as conhecidas tramas dão espaço para um belíssimo e tocante drama intitulado Relatos do Mundo, uma das apostas para a temporada de premiações de 2021 estrelada por ninguém menos que Tom Hanks.

Hanks, uma das personalidades mais versáteis e mais adoradas de todos os tempos, é conhecido por diversos papéis icônicos, desde o irreverente Forrest Gump no longa homônimo, passando pelo professor Robert Langdon em ‘O Código da Vinci’, até o boneco Woody na franquia ‘Toy Story’. Em Relatos do Mundo, que chegou à Netflix recentemente e logo caiu no gosto popular, o ator vive o Capitão Jefferson Kyle Kidd, veterano de guerra que visita cidade após cidade levando as notícias locais e em âmbito nacional, permitindo que os sulistas afastados dos grandes centros e “sofrendo” com o fim da Guerra Civil e com as medidas libertárias do presidente Ulysses S. Grant. Em uma de suas incursões, ele cruza caminho com um carroção virado e uma jovem garota perdida vestida com trajes nativo-americanos.

(from left) Johanna Leonberger (Helena Zengel) and Captain Jefferson Kyle Kidd (Tom Hanks) in News of the World, co-written and directed by Paul Greengrass.

A partir daí, a narrativa começa oficialmente. Mesmo não sendo sua responsabilidade, Kidd encarna uma personalidade bastante paternal que ultrapassa as barreiras linguísticas e forja fortes laços entre dois personagens extremamente diferentes; Johanna, interpretada com maestria por Helena Zengel, parece traumatizada e, além de não ter o fenótipo dos indígenas da região, não sabe quem é por certeza. Kidd sabe que ela é versada na linguagem Kiowa e que entende as coisas que acontecem à sua volta pelo contexto ou por assimilação – como quando a dupla enfrenta um trio de bandidos ou uma cidade movida pelo ódio e pela discriminação. No final das contas, é a beleza da própria palavra, uma jogada inteligente que flerta com a metalinguagem, que os transforma em uma irreverente e inesperada família.



O longa foi comandado por Paul Greengrass, conhecido pela saga de ação ‘Jason Bourne’ e por obras similares como ‘Domingo Sangrento’ e ‘Zona Verde’. Diferente de suas produções anteriores, o cineasta resolve se render a um épico de época que foca mais no humano do que nos acontecimentos – ou em armas, tiroteios e vinganças de sangue. É claro que Greengrass já havia trabalhado ao lado de Hanks anteriormente (em ‘Capitão Phillips’, sendo mais específico), mas essa é a primeira vez que a reunião da dupla ocorre em prol de uma perspectiva intimista sobre duas almas perdidas que precisam uma da outra sem se darem conta disso.

É claro que o ritmo pode ser um empecilho para parte do público – aliás, as duas horas de exibição por vezes parecem mais longas do que o normal; mas todos os breves deslizes são ofuscados pela beleza estética e metafórica que se apodera da obra. De um lado, temos a brilhante e camaleônica performance de um veterano do cinema e de uma estreante – e o conflito de gerações, que se alastra para as próprias personas em tela, explode em uma química apaixonante e tocante; de outro, temos a fotografia de Dariusz Wolski, cujo metamórfico trabalho é bem diferente de ‘Piratas do Caribe’ ou de ‘O Corvo’, por exemplo, apostando em uma paleta de cores que reflete bem a desértica paisagem do Texas em conflito com a insalubre e claustrofóbica noite. No topo do bolo, a cereja: uma trilha exultante arquitetada com exímia cautela por James Newton Howard (e que pode lhe conceder uma indicação ao Oscar).

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As obviedades narrativas também não são um problema quando colocadas lado a lado. À medida em que as partes se juntam e os divididos blocos culminam em uma “jornada heroica” bastante simples e prática, nota-se a transição epopeica dos protagonistas de seus lugares-comuns para um território compartilhado pelas experiências que os unem e que, com a chegada do brevíssimo terceiro ato, os fundem em um mesmo núcleo. As notícias proferidas por Kidd não são meras declarações vazias, mas discursos poderosos que divertem, chocam, envolvem e levam os ouvintes a pensarem e a saírem do status quo em que se encontram – de um jeito previsível, mas contundente dentro das mensagens que quer transmitir.



Se você espera um filme western clássico como os estrelados por Eastwood ou dirigido por Sergio Leone, Relatos do Mundo definitivamente não será de seu apreço. Aqui, é a proposital verborragia e os silêncios metódicos que carregam a trama e que restringem os holofotes a Hanks e Zengel e à dinâmica que constroem no filme. E, no final das contas, emocionar-se com esse belo conto é apenas um ótimo jeito de terminar uma altiva jornada.

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