Em 2009, Stuart Hazeldine encabeçou o interessante thriller dramático psicológico ‘O Exame’. A trama nos apresenta a oito candidatos por uma posição altamente cobiçada em uma companhia bastante prestigiada. O grupo é trancado em uma sala de exame onde, ao longo de oito minutos, passarão por um teste final para determinar quem será contratado para o cargo. As regras são simples: após receberem cada um uma folha de papel com seu respectivo número de candidatura, eles deverão responder a uma simples pergunta. Mas há regras a serem seguidas: eles não podem violar os papéis, deixar a sala ou falar com o guarda ou o Vigilante que os está observando.
Após lhes perguntar se eles têm alguma dúvida, o Vigilante deixa o local e o relógio começa a correr. E, no momento em que viram a folha, prontos para responder à questão, não há nada escrito com exceção da palavra “candidato”. A princípio, cada um deles fica atônito e acredita estar em uma pegadinha – mas a situação escala gradativamente em um vórtice de insanidade que coloca cada um deles em conflito com sua própria moral e com a linha que separa o que é ético e o que é repreensível. E, em meio a uma estrutura concisa e restrita, Hazeldine não apenas entrega um dos thrillers mais enervantes dos anos 2000 e um projeto que de fato merecia mais a nossa atenção.
A princípio, o realizador nos convida a um instigante suspense dramático que encontra boa parte de sua força no desenvolvimento de personagens arquetípicos e que singram pela fragilidade da mente humana. Dessa forma, o estudo psíquico promovido pelo diretor e roteirista transforma uma situação bastante particular em universal, mas da maneira mais inesperada possível e partindo de um princípio quase conspiratório que se aproveita da fraqueza dos personagens para encontrar força. Não é surpresa que Hazeldine promova um slow-burn narrativo que, ao operar em um microcosmos limitado, não deixa espaço para “barrigas” ou exageros desnecessários.
Enquanto a técnica empregada traz elementos dos filmes de suspense dos anos 1990, há uma certa modernidade industrial que se apossa da atmosfera do projeto e que reflete na conduta de cada um dos personagens. As distintas personalidades que competem pela única vaga de emprego oferecida pela empresa logo convergem para uma unidimensionalidade proposital em que, não importa como se portem, a essência é apenas uma – ainda mais quando a condição de existência está sob pressão imensa e recheada de pequenas artimanhas. Em outras palavras, o realizador promove uma sondagem quase pessimista da inerência das pessoas (ou é o que imaginamos).
Hazeldine trabalha lado a lado com o diretor de fotografia Tim Wooster, que se utiliza de uma paleta primária para dividir os três principais atos do longa-metragem – e que segue um padrão bem específico conforme o enredo caminha para seu ápice e para sua consecutiva conclusão. Ao passo que Wooster vai se aproveitando da inescapável e labiríntica tensão que se apodera dos personagens e da realização de que, um a um, todos cedem a um desejo destrutivo de uma vitória cada vez mais distante, eles são engolfados em planos claustrofóbicos e tortuosos que parecem prenunciar sua ruína – e a tétrica trilha sonora assinada por Stephen Barton e Matthew Cracknell ajuda a reiterar essa angustiante atmosfera.
O suspense logo se transforma em uma espécie de distopia político-social que serve como combustível para as últimas notas do roteiro – cujos diálogos verborrágicos e incisivos são encarnados com maestria pela cereja do bolo do projeto: o elenco. Contando com nomes como Gemma Chan, Pollyanna McIntosh, Chukwudi Iwuji, Nathalie Cox, Jimi Mistry e outros, o time de atores e atrizes parece ter sido escolhido a dedo para navegar pelas intrincadas engrenagens do longa-metragem, desfrutando de uma explosiva química que os permite explorá-los dentro dos limites autoimpostos. Felizmente, cada um tem seu momento de brilhar e nos envolve ainda mais nesse impiedoso tour-de-force.
Por mais que sua conjuntura não agrade a todos, ‘O Exame’ é um eficaz thriller psicodramático que sabe exatamente o momento e a circunstância em que as ousadias são bem-vindas, nunca querendo dar um passo maior que a perna, mas não se contentando com apenas as fórmulas do gênero. Mesmo com as limitações, Hazeldine cria mágica ao nos convidar para uma concisa e prática narrativa que esquadrinha o próprio potencial como consegue.


