007 – Sem Tempo para Morrer, o vigésimo quinto filme oficial da franquia mais duradora do cinema, já está em exibição nos cinemas. Com o lançamento do grandioso filme, resolvemos criar uma nova série de matérias dissecando um pouco todos os filmes anteriores, trazendo para você inúmeras curiosidades e muita informação.

Seis anos separaram o décimo sexto e o décimo sétimo filmes da franquia 007 no cinema. Esse era o tempo recorde até então de intervalo entre produções da rentável série cinematográfica (tempo este igualado no intervalo entre SPECTRE e o vindouro Sem Tempo para Morrer) – que é também a mais longeva vinda de um grande estúdio. Antes, os filmes tinham um intervalo de dois anos em média, chegando a três no máximo. Mas aqui nos deparávamos com um grande problema para a EON Pictures após o lançamento de Permissão para Matar (1989). O fato causou o hiato com o maior período no qual os fãs ficavam órfãos das superproduções do espião 007 nas telonas. Mas seria por uma boa causa, que traria novos ventos para a franquia e a elevaria de nível para os novos tempos. James Bond estreava com os dois pés direitos na porta na década de 1990 em seu décimo sétimo filme. Confira abaixo os detalhes sobre Goldeneye e a estreia do quinto Bond.

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Produção



 

A verdade é a seguinte: a franquia 007 terminava os anos 1980 cambaleando. O fato não teve a ver com o intérprete em si (Timothy Dalton – embora tenha recebido parte da negatividade), mas sim com a concorrência grandiosa da época. Os anos 1980 foram onde os blockbusters atingiam níveis astronômicos, e marcariam o cinema entretenimento como o conhecemos. Filmes como De Volta para o Futuro, Rambo, Indiana Jones, Robocop, Top Gun, Batman, etc, reinavam na década. E neste período não podemos citar verdadeiramente nenhum filme de 007 como memorável. A franquia para competir precisava se reinventar. Assim era criado Permissão para Matar, o filme mais 80’s americanizado de James Bond.

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O efeito da empreitada, no entanto, saiu pela culatra e Permissão para Matar se tornava o primeiro flop da franquia na história. Ou seja, o primeiro fracasso real da série no cinema. Embora sejam produções britânicas, os filmes de 007 sempre fizeram grande sucesso em Hollywood, a vitrine para o mundo; além de emplacar forte por toda a Europa igualmente. Com Permissão para Matar, a franquia conseguia emplacar novamente pela Europa, mas o público norte-americano simplesmente não compareceu, preferindo as outras aventuras do ano nos cinemas, desfalcando assim a bilheteria do décimo sexto filme. Esse fraco resultado financeiro jamais havia sido experimentado por uma produção da EON anteriormente. Ou seja, era hora de se reinventar.



Outro problema foi uma briga judicial entre os produtores e o estúdio. A United Artists, responsável pelo lançamento dos longas de 007 nos cinemas, havia vendido os direitos de exibições das obras na TV e o valor não havia sido o acordado pelas partes. A briga nos tribunais colocou uma barreira no próximo filme – que já vinha sendo planejado com Timothy Dalton retornando – o tal Property of a Lady, mencionado na matéria anterior. O grande atraso, porém, terminou eliminando a participação de Dalton do projeto e a escolha foi por começar do zero numa nova história e um novo intérprete.

Para o comando do décimo sétimo filme foi escalado o diretor Martin Campbell, que havia chamado atenção no ano anterior com o sci-fi de ação Fuga de Absolom. É dito inclusive que grande parte do roteiro precisou ser abandonado por conter inúmeras semelhanças com True Lies (1994), o “filme de James Bond” de Arnold Schwarzenegger. Fora isso, outro espião vinha fazendo muito sucesso nas telonas no início dos anos 1990. Jack Ryan, o personagem criado por Tom Clancy nos livros, era transposto para as telas e assumia as formas de Harrison Ford. Assim, seguindo a tendência de pegar carona nos sucessos da época, Goldeneye ganhava tintas das aventuras de Jack Ryan igualmente.

James Bond

Como todos sabemos, era chegada a hora de Pierce Brosnan “assumir o manto do espião”.  Brosnan quase ficou com o papel em Marcado para a Morte (1987) antes de Timothy Dalton, porém, os produtores da série Remington Steele (Jogo Duplo) não facilitaram a contratação do ator, pelo contrário. Dalton foi escalado, fez dois filmes e iria seguir na franquia como desejavam os produtores. Na época da divulgação de Rocketeer (1991), no qual interpreta o vilão, Dalton chegou a comentar sobre o terceiro filme que faria como James Bond, já anunciado. Seis anos depois, como nada havia acontecido naquela direção, o ator simplesmente sabia que sua hora no papel havia ficado para trás e optou por se desligar do personagem.

Atores como Mel Gibson, Liam Neeson e Hugh Grant foram contatados para o personagem, mas prontamente o recusaram. Finalmente a maré parecia favorável para Pierce Brosnan assumir o papel que havia nascido para interpretar. E o ator irlandês estreava com o pé direito em Goldeneye, elevando a franquia a outro nível. Em sua trajetória, no entanto, Brosnan ficaria conhecido por uma persona mais próxima do que havíamos visto em Roger Moore, do que o mostrado por Timothy Dalton e Sean Connery. Pierce Brosnan seria James Bond para toda uma geração, a minha geração, que pôde finalmente assistir a um filme do espião nas telonas em meados da década de 1990.

Missão Secreta

O grande mote por trás de Goldeneye era a estreia de um novo intérprete para James Bond e a apresentação do agente secreto mais famoso da sétima arte para toda uma geração – especialmente após uma lacuna de quase dez anos. O foco, mais do que uma trama complexa e mirabolante, precisava ser no protagonista. Desta forma, Goldeneye possui uma história simples e direta, mostrando todos os elementos que os fãs antigos aprenderam a gostar e perfeitos para capturar novos seguidores.



Aqui, James Bond segue a trilha de terroristas que roubam uma tecnologia conhecida como Goldeneye, um satélite capaz de desativar máquinas e levar o mundo moderno de volta à idade média. Seguindo suas pistas, 007 chega a um militar russo renegado e têm a grande revelação da trama. Um dos aspectos mais legais do décimo sétimo filme é a surpresa que apresenta em relação a um dos personagens – que a esta altura todos devem saber, mas que na primeira visita ao filme causa certo choque pelo diferencial em sua narrativa.

Bondgirls e Aliados

Pierce Brosnan começou sua era como James Bond de uma forma muito favorável. Goldeneye acertou em todos os aspectos que precisava. Além de um bom protagonista, história e vilão (além de cenas de ação), outro ponto positivo foram as Bondgirls. A principal é a programadora de informática russa Natalya Simonova, que é a única sobrevivente de uma chacina de terroristas a uma base que controla o tal satélite. A bela mulher de olhos claros consegue escapar e logo se torna parceira de aventura de James Bond – que a protege como testemunha essencial. A personagem é interpretada pela polonesa Izabella Scorupco, que na época emplacou superproduções como Limite Vertical (2000), Reino de Fogo (2002) e O Exorcista: O Início (2004) – mas que atualmente anda meio sumida.

Como o público adora uma menina má, a Bondgirl vilã acaba roubando a cena aqui também. A holandesa Famke Janssen igualmente era revelada pela décima sétima aventura de James Bond, no papel da psicótica Xenia Onatopp (um nome inesquecível) e a melhor capanga da era Brosnan. Sádica e com tendências masoquistas, a exótica antagonista atinge o orgasmo sempre que mata vítimas inocentes as metralhando. Janssen, é claro, escreveria seu nome em diversas produções da época, sendo a mais famosa a franquia X-Men, onde viveu a ruiva Jean Grey.


No lado do trio de aliados corriqueiros de 007, apenas um manteve sua forma original. Desmond Llewelyn retorna pela décima quinta vez ao papel do inventor e armeiro Q, provindo James Bond com uma BMW novíssima ao invés do costumeiro Aston Martin (que igualmente dá as caras no filme). Caroline Bliss se despedia da franquia com a saída de Timothy Dalton, igualmente vivendo Moneypenny somente em dois longas. Em seu lugar entrava Samantha Bond – atriz de nome bem propício para a franquia e que permaneceria por toda a era Brosnan. A adição mais chamativa, no entanto, era a da Dama Judi Dench no papel da chefe M, como a primeira mulher a assumir tal posto desde o início da franquia nos anos 60. A manobra foi muito comentada na época por ser à frente de seu tempo – e Dench permaneceria no papel até a era de Daniel Craig.

Vilões

Aqui é onde entra a grande revelação do vilão de Goldeneye. Por mais que durante a primeira metade do filme ganhemos como antagonistas os personagens do general russo interpretado por Gottifried John e a Xenia Onatopp de Famke Janssen, no terceiro ato do filme somos revelados que quem estava por trás das maquinações envolvendo o satélite perigoso era na verdade Alec Trevelyan, papel de Sean Bean. O sujeito é um agente do MI-6 renegado, que começa o filme como parceiro de James Bond em uma missão, com o título de 006. Após ser dado como morto e culpar 007 por tê-lo abandonado, Trevelyan assume a alcunha de Janus. Agora, com metade do rosto deformado no melhor estilo Duas-Caras de Batman, o antigo melhor amigo se torna o vilão a ser combatido pelo herói.

Além dos citados acima, Goldeneye conta ainda com outro traidor, o programador Boris Grishenko, vivido por Alan Cumming, colega de trabalho de Natalya, que estava mancomunado com os terroristas. Seu bordão “eu sou invencível”, se gabando de sua genialidade com os computadores, possui um desfecho irônico e hilário, mas também cruel. Ainda temos espaço para o contrabandista Valentin Zukovsky, vivido por Robbie Coltrane, que voltaria ainda na era Brosnan num próximo filme.

Relatório

Goldeneye foi um verdadeiro estouro. O filme fez o sucesso que os produtores buscavam na era de Timothy Dalton e que jamais atingiram ali. E tudo que precisou foi um hiato de quase dez anos para se reorganizarem e adentrarem uma nova década com uma mudança propícia. A concorrência da década de 90 também era pesada, mas desta vez a franquia 007 estava pronta e criou um filme à altura. O décimo sétimo James Bond foi um verdadeiro fenômeno, gerou grande expectativa e a cumpriu. Até mesmo os que não eram necessariamente fãs ou conhecedores da franquia estavam empolgados para ver o novo 007.

A era Brosnan marcava também na parte musical da franquia, com as canções temas tocando nas rádios e ganhando vida própria para além dos filmes. Aqui, a musa Tina Turner, servida pela musicalidade de The Edge do grupo U2, interpreta a música tema Goldeneye – abrindo com chave de ouro a franquia nos anos 1990. Turner, é claro, havia marcado também com a trilha sonora de Mad Max Além da Cúpula do Trovão (1985).

Goldeneye se tornava um grande blockbuster do cinema, atingindo números de bilheteria jamais vistos anteriormente. É claro que precisamos levar em conta o reajuste da inflação, e seguindo por essa linha, o filme de 1995 não chega perto de algumas produções do passado. No entanto, James Bond voltava ao auge de sua popularidade na era de Pierce Brosnan como há muito não era visto (talvez desde a era Connery). O espião da rainha voltava a ser famoso e bem visto com todas as gerações, e seus filmes no período eram eventos inseridos na cultura popular que precisavam ser vistos por todos. Isso era o mais importante e algo que não tinha preço. Desta forma, Brosnan não perdeu tempo para assinar numa continuação, que chegaria dois anos depois. Mas isso é assunto para o próximo Dossiê.

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