Clássico absoluto dos anos 1980 e um dos maiores sucessos da história da sétima arte, E.T. – O Extraterrestre completa 40 anos de lançamento em 2022. O filme criado e dirigido pelo Midas Steven Spielberg ajudou a criar o cinema entretenimento como o conhecemos hoje: os chamados blockbusters. Antes de E.T. apenas outros quatro filmes haviam entrado para a história como fenômenos culturais: Tubarão (1975), Star Wars (1977), O Império Contra-Ataca (1980) e Indiana Jones (1981) – todos com as mãos de Spielberg, George Lucas ou de ambos. E.T. chegaria para ser o quinto a ingressar nesta seleta lista (de mais de US$200 milhões arrecadados em bilheteria somente nos EUA). Mas não apenas isso, E.T. viria a superar todos eles, e por um período (até 1993, com Jurassic Park – outro filme de Spielberg), onze anos para ser mais exato, seria a maior produção de todos os tempos.

E.T. é indiscutivelmente uma das obras cinematográficas mais queridas da história, que segue extremamente popular até hoje. Recentemente, a TV Globo – em uma proposta muita bem vinda de revitalizar sucessos dos anos 80 e 90 -, o exibiu numa sessão de sábado. Ter um clássico como E.T. apresentado a toda uma nova geração na TV aberta é muito significativo. Assim como um esforço bem nostálgico, apreciado pelos saudosistas que revisitem o longa. A trama simples, mas emotiva e de fácil identificação, fala sobre uma criatura alienígena bondosa esquecida na Terra por seus colegas de outro planeta, criando fortes laços de afeto com uma família, em especial o menino Elliott, cujos pais acabaram de se separar.



Uma das maiores virtudes de E.T. é seu teor afetuoso, recomendado para toda a família – capaz de cativar a imaginação dos mais novos até os mais velhos. Mas você sabia que por um tempo o próprio Spielberg cogitou criar uma sequência para este que é um de seus maiores sucessos? Não apenas isso, mas o diretor chegou a entrar em fase de pré-produção – ou ao menos escrever um esboço de roteiro com a mesma criadora do original (Melissa Mathison) – com o projeto da ideia, até pensar melhor e resolver desistir da continuação.  O mais curioso nisso tudo é que a história de “E.T. 2” seria bem mais sombria e assustadora.

A ideia para E.T. – O Extraterrestre surgiu da mente de Steven Spielberg enquanto o diretor filmava Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977), o primeiro filme do cineasta envolvendo a visita de seres de outros planetas na Terra. O tema “estamos sozinhos no universo?”, “existe vida fora da Terra” sempre foi muito intrigante para o sonhador visionário Spielberg. Assim, ele pôde finalmente concretizá-lo com sua segunda grande produção. Contatos Imediatos até apresenta alienígenas bonzinhos, mas tais figuras são reveladas apenas no desfecho do longa, cuja proposta é muito mais de suspense e tensão sobre, primeiro, o que de fato está acontecendo ao redor, e segundo, as reais intenções dos visitantes. O desconhecido é assustador até se revelar mágico e encantador no filme de 1977.

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O momento em que os extraterrestres de Contatos Imediatos são revelados no desfecho é que teria inspirado Spielberg para montar seu próximo filme sobre o tema. Segundo o diretor, lhe ocorreu como seria se um daqueles seres visitantes ficasse para trás, deixado na Terra. Proposta esta que o diretor narrava para a roteirista Melissa Mathison – que colocava tudo no papel – nos bastidores de Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida (1981), filme que o cineasta gravava na época. Outra inspiração para E.T. veio de um roteiro escrito por John Sayles, que trabalhava com Spielberg para uma continuação de Contatos Imediatos – outro projeto que nunca chegou a sair do papel. Nesta espécie de sequência, que teria como título ‘Night Skies’ (ou ‘Céus Noturnos’), uma nova visita alienígena na Terra seria apresentada – desta vez, uma mais intensa e assustadora. Extraterrestres hostis cercariam uma família em sua fazenda, que assustados se defenderiam trancados dentro do local.



Spielberg eventualmente desistiria de Night Skies por achar um projeto muito sombrio e pesado – para sua vibe família da época. Muitos acreditam inclusive que essa ideia se tornou o filme Sinais (2002), de M. Night Shyamalan – produzido pelos usuais colaboradores de Spielberg (Kathleen Kennedy e Frank Marshall – esse segundo, produtor de E.T.). O que interessou Spielberg em Night Skies foi mesmo uma subtrama envolvendo um dos alienígenas (o mais bonzinho deles) e um menino autista – que desenvolvem uma amizade. O cineasta pegaria essa linha narrativa e a desenvolveria para virar E.T. (1982).

Na década de 1980, as continuações estavam a toda e eram a palavra de ordem. Muitos estúdios começavam a estabelecer suas franquias na década – e certas séries cinematográficas geravam um filme por ano – como são os casos com Sexta-Feira 13 e Loucademia de Polícia. O sucesso de E.T. fez despertar em Spielberg o desejo por uma continuação, embora o cineasta nunca tivesse feito uma e fosse então contra a ideia. E.T. foi o primeiro caso de uma obra que faria o diretor cogitar dar continuidade a um de seus filmes. Assim, o roteiro já começava a ser escrito logo após o lançamento de E.T. no cinema, quando este ainda estava no início de sua trajetória nas telonas. Um dos tratamentos do roteiro centrava a trama no planeta do alienígena engraçadinho. Até mesmo imagens ditas serem da pré-produção deste filme eram publicados em tabloides da época.



Um dos tratamentos que foi mais longe, escrito por Spielberg e Melissa Mathison, se chamava Nocturnal Fears (ou ‘Medos Noturnos’) – e daí já podemos sentir o clima planejado. Neste enredo, Elliott e sua turminha acreditam que o E.T. voltou para visitar ao repararem uma nave descendo novamente nos arredores. Os pequenos correm para saudá-lo, somente para descobrir se tratar de uma nova espécie de alienígenas, similar fisicamente em certas partes, porém, donos de olhos vermelhos e dentes afiados. Ao contrário da espécie de E.T., esses seriam hostis. As criaturas chegam à Terra após o sinal enviado por E.T. no primeiro filme – cujo nome seria revelado como Zreck na continuação. Já pensou chamar E.T. de Zreck? Assim, essa espécie malvada de alienígena sequestraria as crianças – que precisariam da ajuda de seu velho amigo para resgatá-las. É dito também que as duas espécies de aliens (os bonzinhos e os malvados) estariam em guerra.

Eventualmente, Spielberg desistiu da continuação por completo. Segundo o próprio: “uma continuação roubaria o original de sua virgindade”. Assim, E.T. – O Extraterrestre, 40 anos após seu lançamento, segue como um dos poucos exemplares de filme blockbuster de sucesso que nunca ganhou uma continuação – unicamente pelo desejo de seu criador de mantê-lo como filme único.

E.T., no entanto, se manteria na cultura popular por todo esse tempo. Em 1999, o colega George Lucas incluiu a espécie do alienígena em Star Wars: A Ameaça Fantasma – com direito a sua própria bancada no senado intergaláctico. Três anos depois, E.T. voltaria aos cinemas numa edição especial planejada por Spielberg, com novos efeitos e algumas modificações (armas substituídas por walkie-talkies). Mas o que pode de fato ser considerado o mais próximo de uma continuação de E.T. é um comercial de TV lançado em 2019, 37 anos após a estreia do filme. Exibido durante feriado de Ação de Graças nos EUA, o comercial da Xfinity – uma provedora de TV a cabo e internet – traz de volta o alienígena baixinho mais querido do cinema para uma nova visita na Terra. Mas não apenas isso, o menino Elliott, agora um adulto ainda nas formas de Henry Thomas, também retorna para o curta de um pouco mais de 4 minutos. No comercial, o E.T. retorna no fim do ano, desta vez, e para um clima mais frio, de neve. Ele reencontra Elliott agora crescido e com sua própria família – esposa e dois filhos pequenos, um menino e uma menina. Muitas das experiências do original são repetidas no comercial, com a grande diferença sendo o avanço da tecnologia e da internet.



Spielberg, obviamente foi consultado para o projeto, que foi dirigido pelo fotógrafo Lance Acord. O cineasta criador do personagem ficou muito feliz e surpreso com o resultado, em como conseguiram capturar de forma certeira o espírito do filme original. A receptividade foi tamanha por parte de Spielberg, que o diretor declarou o comercial como “a continuação oficial do filme”. Outro que foi só elogios para a proposta foi o protagonista Henry Thomas – que afirmou que esta é a maneira ideal de “continuar a história” sem o risco de estraga-la. Para completar a viagem nostálgica só faltaram mesmo as participações de Drew Barrymore, Dee Wallace e do resto do elenco humano. Quem sabe em algum outro comercial em breve.

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