Famoso detetive tem um longo relacionamento com o cinema

O sucesso que Enola Holmes vem obtendo relembrou o quão forte o nome do investigador britânico ainda é. No caso de Sherlock Holmes em particular é evidente que o material em si resistiu bem aos desafios do tempo, com uma adaptação volta e meia figurando em alguma mídia. O mesmo não pode ser dito de outras obras clássicas da literatura (Rei Arthur, Robin Hood) que permaneceram um longo tempo no esquecimento e quando receberam uma nova roupagem, esta foi feita de forma negativa.

O primeiro filme do personagem, acredita-se, remonta a 1900 com a obra Sherlock Holmes Baffled – mesmo que o enredo em si não tenha ligação com os livros de Arthur Conan Doyle. A obra é considerada também como a primeira película do gênero mistério na história. Com a longa tradição que Sherlock cultiva no cinema e, por consequência, as diversas obras oriundas dessas décadas, escolhemos  a seguir cinco filmes que, tomando as devidas liberdades de adaptação, melhor representam o universo do detetive.

5) O Cão dos Baskervilles

Em 1959 o estúdio Hammer, famoso por seus filmes de terror baseados no livro Drácula de Bram Stoker e por sua parceria com o ator Christopher Lee, encomendou junto ao diretor Terence Fisher uma adaptação do famoso livro O Cão dos Baskervilles como início de uma nova cinessérie do estúdio. 

Peter Cushing como Sherlock Holmes

O papel de Sherlock caberia a Peter Cushing, que anteriormente já havia trabalhado com o estúdio em A Maldição de Frankenstein e, sua obra mais famosa, também em Drácula de 1958. O filme em si se tornou um marco quando se trata das adaptações do personagem; foi sua primeira aparição em um filme a cores e a versão entregue por Cushing permanece como uma das mais elogiadas por ter trabalhado a racionalidade descrente de Holmes de forma carismática. Porém, o desejo inicial da Hammer de começar uma nova série não vingou pois a preferência do público era por mais filmes do estúdio envolvendo as aparições de monstros clássicos .

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4) Visões de Sherlock Holmes

A imagem mais tradicional quando se fala do famoso detetive é a de um homem que repousa em uma poltrona, pensativo e fumando seu cachimbo. No entanto, o que não costuma ser muito abordado em suas adaptações (por razões bastante óbvias, na verdade) é o consumo e dependência do personagem por substâncias químicas, mais especificamente cocaína e morfina. Essa ideia primeiramente foi introduzida por Arthur Conan Doyle no livro Um Estudo em Vermelho de 1887.

Foi partindo desse princípio que o diretor Herbert Ross comandou em 1976 a produção de Visões de Sherlock Holmes, uma história que segue o personagem título atingir o pico de seu vício em cocaína e, após a intervenção de seu fiel escudeiro Dr. Watson, Sherlock passa a se consultar com Sigmund Freud em ordem de compreender a origem de seu vício e assim se curar.

Auxiliado por Sigmund Freud, Holmes (à direita) deve discernir o que é real e o que não é

Enquanto que o filme não é uma história padrão de Holmes, no qual ele precisa resolver algum caso enigmático, ele consegue se destacar ao tirar o detetive de sua conhecida posição de vantagem intelectual em relação aos coadjuvantes e inimigos. Nesta adaptação Holmes está mais vulnerável do que nunca, tanto física quanto mentalmente, e esse estado frágil dá margem para destrinchar um pouco de sua personalidade enquanto pessoa e reimaginar alguns de seus coadjuvantes mais famosos, como o seu nemesis professor Moriarty.

3) O Enigma da Pirâmide

Um dos pontos mais positivos de Enola Holmes foi sem dúvida o frescor juvenil que a protagonista trouxe para aquele universo vitoriano. Assistir ao tão famoso método de dedução dos Holmes sob a ótica de uma adolescente garante à adaptação uma individualidade quando comparada com as versões passadas, mais sisudas e científicas desse universo.


Todavia, essa não foi a primeira vez que um Holmes foi apresentado em sua versão juvenil. Em 1985 Steven Spielberg, na posição de produtor executivo, abordou o diretor Barry Levinson propondo uma releitura do detetive particular ainda no seu período escolar. Aqui seria mostrado o primeiro caso solucionado por ele bem como seu primeiro encontro com o também jovem John Watson. O roteiro ficou a cargo de Chris Columbus que, àquela altura, já era conhecido por seus trabalhos anteriores em Goonies e Gremlins.

O jovem Sherlock em seu primeiro caso

O filme se tornou bastante conhecido ao longo do tempo por sua abordagem diferenciada do personagem e, justamente pelo clima mais juvenil, foi a porta de entrada de toda uma geração às histórias de Sherlock Holmes. Porém seu maior reconhecimento reside em uma conquista técnica: este foi o primeiro filme da história a apresentar um personagem feito inteiramente de computação gráfica.

2) Toda a fase de Basil Rathbone

Assim como acontece com James Bond, a atemporalidade de Sherlock Holmes lhe confere ao longo de décadas as mais diversas roupagens e, inevitavelmente, escalações de diferentes atores; cada um lhe conferindo uma nova interpretação muito particular de quem está lhe dando a vida naquele momento. Quando se trata de nomes ligados ao personagem um sempre se sobressai aos outros: Basil Rathbone.

Entre 1939 e 1946 o ator britânico interpretou Holmes em uma cinessérie produzida pela Universal Studios. O que tornou seu período tão icônico foi a abordagem noir (que estava em alta na época) que seus filmes tiveram e a caracterização desenvolvida pelo próprio ator para o personagem, sempre se mantendo como um indivíduo que espera o momento certo para falar, geralmente com um tom de voz bastante contido, e que trabalha seu método dedutivo recolhendo pistas ao longo dos filmes e não lançando mão de curiosamente acertar a solução sem material para tanto.

Basil Rathbone (à esquerda) tornou-se para muitos o Holmes definitivo

A escolha técnica da produção em não recriar o ambiente vitoriano mas sim trazer as histórias de Holmes para a atualidade (então anos 40) também foi bastante certeira. O uso costumeiro por silhuetas de sombras em paredes, algo recorrente em filmes noir, e a predileção por ambientes noturnos para a maioria das cenas apenas melhora o clima já natural das criações de Arthur Conan Doyle.

1)  Sr. Sherlock Holmes

Não importa a persona, últimas histórias sempre atraem a atenção do público. A chance de ver aquele mundo ou aquelas pessoas uma última vez, em um último grande desafio, é bastante atrativa mesmo que por diversas vezes bastante melancólica. Um exemplo bastante próximo é o clássico detetive belga Hercule Poirot, criado pela escritora Agatha Christie, que teve um caso final a resolver no livro Cai o Pano.

Ian Mckellen entrega uma visão única do personagem

Sr. Sherlock Holmes é uma obra de conclusão um tanto diferente, principalmente quando se trata de um nome relacionado a um gênero como a literatura policial. Não há um último grande enigma a se resolver ou um último terrível assassino a ser detido; a aventura final de Sherlock Holmes nada mais é do que contemplar, agora vivendo apenas com sua cuidadora e o filho da mesma em uma casa no campo, os efeitos do tempo que caem sobre ele.

O pensamento dedutivo ainda está lá, bem como alguns comentários ácidos que lhe são característicos. Ainda assim essa versão de Holmes (magistralmente interpretada por Ian McKellen) demonstra fragilidades mentais em muitos momentos, um sinal inevitável da idade, ao relembrar de maneira confusa seu último caso antes da aposentadoria e observar esse quadro em um personagem como Sherlock Holmes é uma experiência muito interessante. Se em Visões de Sherlock Holmes a instabilidade é mais explosiva decorrente da abstinência de substâncias, nesse filme ela é algo que surge e vai naturalmente seguido da aceitação, pelo próprio Sherlock, de que por mais genial que seja ele ainda é humano.


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