Halloween Kills – O Terror Continua ultrapassou a marca de US$100 milhões em tempos pandêmicos, se tornando assim mais um sucesso para a franquia do assassino de máscara branca Michael Myers, agora regido pela Universal Pictures e pela produtora Blumhouse. O longa é o segundo dentro de uma trilogia planejada, continuando os eventos de Halloween (2018) e concluindo seu novo arco no vindouro Halloween Ends, a ser lançado em 2022. Para comemorar o sucesso deste novo capítulo protagonizado pela veterana Jamie Lee Curtis e com envolvimento do criador John Carpenter, já trouxemos uma matéria esmiuçando Halloween II – O Pesadelo Continua, que em 2021 completou 40 anos de lançamento, e agora resolvemos olhar para o “filho bastardo” da franquia, o terceiro longa a estrear nos cinemas em 1982, intitulado Halloween III – Season of the Witch (no Brasil, A Noite das Bruxas).

Dia das Bruxas. Magia e Feitiçaria. Robôs e seres artificiais. Tecnologia. Máscaras amaldiçoadas. Uma companhia diabólica. Capitalismo desenfreado. E nada de adolescentes. Mas cadê Michael Myers, Laurie Strode e o Dr. Loomis, você pergunta? Bem, desculpe te desapontar, mas você está no filme errado. O terceiro Halloween não possui nada disso e agora talvez você entenda um pouco a relação de amor e ódio que todos tem com esta “ovelha negra” da franquia.

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A companhia Silver Shamrock cria suas máscaras amaldiçoadas com um misto de tecnologia oitentista e feitiçaria.

Voltando um pouco no tempo para 1978 com o lançamento do primeiro Halloween. O sucesso foi tanto que mesmo a contragosto, o criador John Carpenter foi coagido (leia-se recebeu uma bolada para o trabalho) a tirar da manga uma continuação para a sua história. Ele o fez, mas se certificou que desta vez esta história não pudesse continuar – e para isso eliminava ambos o vilão (Myers) e o herói (Loomis) no desfecho. Novamente, Halloween era um sucesso, com o segundo longa desbancando rivais como Sexta-Feira 13 – Parte 2, lançado no mesmo ano. Assim, os produtores davam novo sinal verde para Carpenter e sua produtora (e companheira na vida real) Debra Hill. A ideia dos realizadores desta vez, no entanto, era promover uma antologia nas telonas, a cada novo exemplar contando uma trama totalmente nova iniciada do zero, tendo em comum apenas a data do dia das bruxas onde seria centrada a narrativa.



Assim era dada a largada para Season of the Witch, algo como “A temporada da Bruxa”, o subtítulo do terceiro Halloween. Uma coisa que precisa ser dita é a coragem de todos os envolvidos em entregar o que queriam e não o que o público esperava – algo inconcebível nos dias de hoje, nos quais é o espectador quem basicamente diz o que quer ver nas telas. Com ideia de Carpenter (assinando o roteiro de forma não credita), o cineasta passava o bastão para o colega Tommy Lee Wallace, que dirige e roteiriza. O terceiro Halloween mudava inclusive de gênero, deixando o slasher adolescente de lado para se tornar um terror sobrenatural, mais nos moldes do que Carpenter havia criado com The Fog – A Bruma Assassina (1980); aqui ao invés de uma história de fantasmas tínhamos um misto de feitiçaria e tecnologia.

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Nada de Michael Myers, apenas crianças derretidas no terceiro Halloween (1982).

Inicialmente, porém, o diretor original seria Joe Dante, que havia chamado atenção no ano anterior (1981) com seu filme de lobisomem, Grito de Horror, e claro, iria escrever seu nome para sempre em Hollywood ao assinar o icônico Gremlins (1984), produzido por Steven Spielberg. Segundo uma versão da história de bastidores, foi nesta época que a trama para Halloween III surgiu, com Dante a bordo. Ele teria contatado o renomado Nigel Kneale para escrever o roteiro do longa, aproveitando que o britânico estava vivendo em Hollywood e havia sido contratado para escrever um remake de O Monstro da Lagoa Negra (clássico de 1954), que seria dirigido por John Landis (Um Lobisomem Americano em Londres). O tal projeto não foi para frente, mas Kneale embarcava em Halloween. Teria sido de Dante a vontade por uma nova guinada na franquia, encomendando um roteiro centrado nas raízes da data do dia das bruxas e de seu nome, ou seja, uma história que tinha como pano de fundo a cultura celta.

Um tempo depois, Joe Dante deixava o projeto, e era substituído pelo citado Tommy Lee Wallace. E foi aí que vieram as drásticas mudanças no texto de Nigel Kneale. Segundo o roteirista, o produtor Dino De Laurentiis não entendeu o tipo de humor que ele queria imprimir ao longa e exigiu mudanças que o tornasse mais violento e sombrio. Assim Kneale também deixava o projeto e processava os produtores para que tirassem o seu nome dos créditos.



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O sinal para o terror. Um comercial de TV e uma máscara na cabeça de criança se mostrarão uma combinação letal para o dia das bruxas.

Desde a abertura, Halloween III se mostra uma ideia diferente e inusitada para os rumos da franquia. Nos dois primeiros longas, os créditos iniciais rodavam enquanto a câmera se aproximava da figura conhecida como Jack O’Lantern, o rosto cravado na abóbora que é o maior símbolo da data – como seu mascote. No segundo filme, de dentro da abóbora brota uma caveira. Neste terceiro, são gráficos de computadores – bem típicos da década de 80 que se revelam ao final uma abóbora virtual. A trilha sonora pulsante foi igualmente criada pelo produtor John Carpenter, se mostrando tão icônica quanto as anteriores.

Como citado por Kneale e mantido de seu roteiro, a trama funciona na base do mistério. Essa é uma história enigmática, onde aos poucos recolhemos as pistas e informações até juntar o todo no desfecho. Tudo o que sabemos de início é que um sujeito desesperado está sendo perseguido. Quem espreita não é Michael Myers, mas alguns homens usando terno, donos de comportamentos e movimentos tão frios e calculistas que muito bem poderiam ser Myers sem máscara. Essas figuras assustadoras igualmente são donos de força física descomunal. A vítima é levada ao hospital, onde seu perseguidor o segue e o mata, somente para depois atear fogo no próprio corpo, sentado dentro do carro e se explodir no estacionamento. Quem presencia tudo e estava cuidando do sujeito é o médico Dr. Daniel Challis, papel do veterano Tom Atkins, que havia trabalhado com Carpenter em The Fog e Fuga de Nova York.

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O desespero palpável do protagonista Tom Atkins no final sombrio de Halloween 3.

Halloween III não é um terror adolescente, assim os personagens do filme não são jovens babás, por exemplo. Nosso protagonista é o Dr. Challis, a quem iremos acompanhar nessa espiral de loucura rumo ao seu inferno pessoal. De fato, este longa lembra bastante um outro da carreira de Carpenter: À Beira da Loucura (1994). Em ambos temos um sujeito comum, atravessando sua realidade rotineira rumo a um lugar fantástico e sobrenatural. O protagonista então conhece Ellie (Stacey Nelkin), a filha da vítima inicial, e juntos partem para desvendar o enigma por trás do assassinato de seu pai. As migalhas no chão os levam direto a uma companhia chamada Silver Shamrock, fabricante de máscara para crianças no dia das bruxas, cujos comerciais de TV são exibidos constantemente e possuem um jingle para lá de “chiclete”.

A sede da companhia fica localizada numa pequena cidade norte-americana e no local eles recebem as boas vindas do aparentemente cordial dono da empresa, Conal Cochran, papel de Dan O’Herlihy – mais conhecido pelo papel do “Velho”, o dono de outra companhia dúbia do cinema, a OCP, que os fãs devem conhecer dos primeiros filmes de Robocop (1987 e 1990). Aqui, o personagem de O’Herlihy é ainda mais diabólico e quando deixa cair sua máscara e revela seu plano de vilão de James Bond, podemos sentir toda a insanidade cruel do sujeito. Acontece que as três máscaras vendidas pela empresa (a cabeça de abóbora, uma caveira e uma bruxa), conhecidas como “The Big Halloween Three” (uma alusão nada sutil ao título) são na verdade uma armadilha criada para matar todas as crianças que a usarem no dia das bruxas, sendo ativadas em determinado horário através do insistente jingle do comercial. E como isso funciona, você pergunta? Tudo é ativado por uma rocha roubada do Stonehange, aquele monumento de pedras empilhadas na Inglaterra, que teria um poder místico por trás. Isso é o que vemos nas telas, mas nos bastidores só podemos imaginar que os realizadores fumaram um do bom para tirar algo assim do papel.

Os bonequinhos muito legais do trio de crianças infelizes, com as máscaras da Silver Shamrock.

Fragmentos da rocha são utilizados nas máscaras e unidos a uma tecnologia de chips de computadores. Como dito, o grande mote aqui é a mistura do antigo com o novo, da tecnologia de computadores com a magia e feitiçaria. E o que acontece com as crianças quando o plano nefasto entra em ação? Bem temos uma amostra que o vilão exibe orgulhoso para o protagonista, fazendo a família de um de seus funcionários de cobaia. O pobre menino desfalece no chão e tem sua pequena “cachola” derretida, de onde saem insetos e cobras. Antes, uma infeliz tem o rosto desfigurado e derretido quando acidentalmente em seu quarto de hotel aciona o chip contido na máscara. Halloween III é bem gráfico e por mais que não seja um slasher, exibe muito gore em suas mortes. Além disso, assume o risco pagando para ver no que muitos filmes do gênero se recusam a fazer até hoje: colocar crianças em risco ou fazer delas seu principal alvo, realmente as matando.



Em 2013, o cineasta Tommy Lee Wallace (que em 1990 criaria a minissérie It – Uma Obra-Prima do Medo, baseado em Stephen King) deu uma das melhores respostas acerca desta produção para lá de alucinada. Num evento comemorando a franquia, o moderador o perguntou, já que é também o roteirista, qual a ligação entre Stonehange, a Irlanda, robôs (a explicação dos capangas da empresa Silver Shamrock – todos seres artificiais) e raios laser que derretem a pele e produzem cobras e insetos do corpo humano; a resposta do diretor foi: “é magia, cara”. Perfeito.

Halloween III foi fracasso de crítica, com jornalista Roger Ebert o colocando em sua lista dos “mais odiados”, por exemplo. Os fãs por outro lado ficaram confusos ao perceberem que os personagens que haviam aprendido a adorar não se encontravam em tela. O filme, porém, não foi um fracasso de bilheteria, rendendo US$14.4 milhões num orçamento de US$2.5 milhões. As críticas negativas, no entanto, seriam o suficiente para encerrar a proposta de antologia e fazer Carpenter vender os direitos da franquia, não querendo nada mais com essas histórias. Assim, seis anos depois, os novos produtores tirariam Michael Myers da aposentadoria para Halloween 4 (1988).

Halloween III ressurgiu anos depois como item cult dentro da franquia, angariando cada vez mais adeptos e fãs com o passar dos anos. De fato, muitos o tem como um dos favoritos na franquia. O que podemos dizer é que sem dúvidas é o mais ousado e criativo (depois do original, é claro). Até mesmo dentro da própria mitologia Season of the Witch é homenageado, e em 2018 apareceu como referência no reboot quando crianças usavam as três máscaras famosas do longa. Na sequência Halloween Kills (como podemos conferir no trailer), Michael arruma três de suas vítimas, usando as tais máscaras, num brinquedo de parquinho. O que falta mesmo é a audácia dos produtores em continuarem essa linha narrativa, ou ao menos darem continuidade à proposta abandonada da antologia.

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