Halloween Kills – O Terror Continua estreou hoje nos cinemas nacionais, bem a tempo para o dia das bruxas. O filme faz parte de uma nova trilogia e continua o sucesso Halloween (2018), terminando a nova saga no ano que vem com Halloween Ends. Mas quem conhece mais a fundo a série de filmes de terror do maníaco de máscara branca Michael Myers no cinema sabe o quanto acompanhar esses filmes pode ser confuso. Afinal, a franquia Halloween possui nada menos que onze longas e com a estreia de Halloween Kills serão doze. Isso mesmo!

Manter uma franquia ativa por tanto tempo é uma tarefa muito ingrata e conforme a mudança de décadas e gerações, novos elementos precisam ser adicionados à mistura para capturar novos fãs. Mesmo as franquias de muito sucesso e de grande produção sofrem deste mal, que o dia 007, Velozes e Furiosos e X-Men. Assim, sem ter um Kevin Feige para costurar tudo de forma “legível”, a maioria das séries no cinema exibe certa incoerência narrativa ao pular de um filme para o outro. Quando falamos em Halloween, tudo fica ainda mais complicado. Tais filmes de terror já tiveram tantos desvios, reboots e até remake que transformam a cronologia num verdadeiro enigma para os fãs. Visando ajudar a entender um pouco mais como funcionam as linhas narrativas de todos os Halloween, resolvemos tentar explicar tudinho para você nesta matéria. Confira abaixo.

Primeira Linha Narrativa: Noite Sem Fim / Antologia



A franquia Halloween começou em 1978, com A Noite do Terror, escrito e dirigido pelo mestre do gênero John Carpenter. Considerado uma obra-prima pelos críticos e fãs, o longa foi um sucesso de bilheteria tão grande que se tornou o filme independente mais lucrativo da história por muitos anos. Tamanha popularidade gerou imitadores, como Sexta-Feira 13 (1980) – que fez mais sucesso ainda. Assim, os produtores de Halloween queriam mais e pagaram muito dinheiro para Carpenter escrever a segunda história. O diretor achava que o filme não precisava de uma continuação, mas sem querer dizer não para uma boa grana, ele encheu a cara de cerveja e escreveu uma trama que se passaria na mesma noite, imediatamente após os eventos do primeiro filme. Michael Myers havia sido baleado, mas conseguiu fugir e Laurie Strode (Jamie Lee Curtis) era levada a um hospital para tratar de seus ferimentos.

A história se desenrola desta vez dentro de um hospital, com Myers a seguindo até o local e fazendo todos os funcionários do plantão noturno como suas novas vítimas. Carpenter precisava de uma desculpa para o maníaco ter cismado com a babá e para trazer Curtis de volta, assim bolou a subtrama onde é revelado que Michael e Laurie são de fato irmãos. No final, Carpenter dava cabo de vez de Michael (que morria queimado) e do incansável Dr. Loomis (Donald Pleasence), o psiquiatra que o caça. Carpenter assim botava um ponto final nesta história, mas o título Halloween ainda o interessava. Halloween II – O Pesadelo Continua (1981) fez um baita sucesso, rendeu mais bilheteria que o rival Sexta-Feira 13 – Parte 2, lançado no mesmo ano. Assim, aproveitando o título da franquia, Carpenter tirava da cartola uma proposta de antologia.

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A ideia de Carpenter para a franquia Halloween era a partir do terceiro Halloween III – A Noite das Bruxas (1982) criar a cada ano um filme com uma proposta e histórias diferente, sem qualquer ligação entre si a não ser a data em que os filmes se passam: o dia das bruxas. A ideia era muito boa e abriria espaço para tramas criativas de terror. Neste primeiro (e único) exemplar dentro desta repaginada a história falava sobre uma empresa poderosa misturando tecnologia e magia sombria para amaldiçoar o dia das bruxas. A companhia Silver Shamrock desenvolve máscaras para crianças e através delas irá orquestrar o juízo final na Terra. A ideia pra lá de insana e alucinógena não vingou na época e os fãs ficaram sem entender onde estava Michael Myers, o psicopata que todos haviam aprendido a temer. Halloween III fracassou nas bilheterias, colocou um fim na proposta de antologia de Carpenter e por um tempo foi o fim da franquia nas telonas. Apesar disso, o terceiro filme ressurgiu como cult, gerando uma legião de adeptos e foi inclusive homenageado, com suas máscaras de bruxa, abóbora e caveira, nos novos Halloween da Blumhouse.



Segunda Linha Narrativa: A volta de Michael / a trilogia Thorn

Após não ter obtivo êxito com sua proposta de uma antologia de filmes Halloween, o criador de tudo John Carpenter se afastou por completo da franquia e seguiu com sua carreira por outros projetos. E assim a série ficaria engavetada por nada menos que seis anos. Até o produtor Moustapha Akkad resolver dar mais uma chance ao maníaco Michael Myers, tendo percebido que era ele quem os fãs queriam ver nas telonas, impulsionado, é claro, pela onda dos filmes slasher que dominavam os cinemas, em especial Sexta-Feira 13 e A Hora do Pesadelo, que lançavam seus novos exemplares a cada ano da década de 80. Assim, em 1988, saía do forno Halloween 4 – O Retorno de Michael Myers. Lembra que Carpenter havia dado um fim em ambos Myers e Dr. Loomis? Pois bem, isso ficou para trás e aqui é dito que os dois sobreviveram às queimaduras e a explosão do hospital. Loomis (novamente Pleasence) só exibe uma leve queimadura nas mãos e no rosto e Myers ficou em coma, mas acorda como que de uma ressaca após o churrascão de domingo.

Um problema que precisava ser contornado aqui era a ausência da musa Jamie Lee Curtis, que com a saída de Carpenter também resolvia “picar a sua mula”. Assim ficou decidido para a história que Laurie estava morta! A protagonista, segundo afirmava o roteiro, havia morrido num acidente de carro! Mas não sem antes deixar uma herdeira: sua pequena filha Jamie (olha aí a homenagem), interpretada pela menina Danielle Harris, que viria a se tornar a nova heroína da série. A garota, é claro, agora era criada pelos outros membros da família, como tios, tias e primas (a família é grande). No final do filme, após toda a nova matança do assassino, a população local, armada até os dentes no melhor estilo Trump de ser, “fuzila” o maníaco o derrubando num poço natural e o explodindo com dinamite. O choque mesmo ocorre com a menina Jamie, que após ter passado o “pão que o diabo amassou” com o tio, surta e repete em sua mãe adotiva o mesmo ataque em que Michael matou à facadas sua irmã mais velha na abertura do filme original. Uma boa homenagem desconcertante e um jeito criativo de encerrar o quarto filme.

Com o sucesso moderado de Halloween 4 – que conseguiu render três vezes o seu orçamento – logo no ano seguinte era preparado Halloween 5 – A Vingança de Michael Myers (1989). E aqui era introduzido a ideia do culto Thorn. Essa proposta, embora rejeitada por muitos fãs da série, possui seus adeptos e cria uma trilogia entre os capítulos quatro, cinco e seis. De fato, recentemente (no início de outubro de 2021), um clássico cinema dos EUA, o Colonial Theatre em Phoenixville, na Pennsylvania, exibiu pela primeira vez a trilogia Thorn numa maratona com esses capítulos, digamos, menos conhecidos da franquia de Michael Myers. A ideia era dar uma “explicação” para a força sobrenatural e imortalidade do psicopata. Nessa “trilogia” é dito que os poderes sobre-humanos de Myers surgiram de um culto chamado Thorn, que sequestra crianças para usá-las como emissárias do fim do mundo. Novamente, misturando ciência e magia.

Esse conceito só pega mesmo a partir do quinto filme, quando essas ideias são introduzidas de forma pincelada com a presença de um homem misterioso todo vestido de sobretudo e chapéu preto, que vira e mexe é vislumbrado durante a projeção. Fora isso, em certos closes no punho de Michael notamos um símbolo na forma de uma tatuagem (que nunca esteve lá, mas aqui é dito que sim). Embora tenha sido provocado também que a menina Jamie ao final do quarto filme possivelmente iria herdar a conduta matadora de seu tio, ela acaba é sendo levada a um hospital psiquiátrico para ser tratada pelo mesmo Dr. Loomis, após ter perdido a fala. Jamie agora é muda e possui um elo psíquico com seu tio “bicho papão”. No desfecho do quinto, Michael é preso (?!) e levado para a cadeia… de máscara!! Piada pronta é bobagem. O vilão mudo não permanece por muito tempo lá, já que o misterioso homem de preto invade o local, mata todos os policiais e solta Michael de trás das grades. Assim acaba o quinto.



Seriam longos seis anos até termos revelado os destinos de Michael, Loomis e Jamie, e ter ciência de quem diabos era o tal homem de preto. Isso porque a problemática produção de Halloween 6 – A Última Vingança enfrentou diversos problemas até ver a luz do dia em 1995. Esse é considerado o filme mais controverso da franquia e inclusive existem duas cópias do filme, a versão do diretor e a dos produtores. Nenhuma é muito coesa. Para começar, matam Jamie logo de cara – aqui interpretada por J.C. Brandy, e não mais por Danielle Harris. No fim das contas, o tal homem de preto era o líder do tal culto Thorn, e além de soltar Michael, sequestrou Jamie. Agora a jovem mulher está grávida e dá à luz a um bebê logo nos primeiros minutos. Detalhe, Michael Myers é o pai!! Do filho de sua própria sobrinha. Irgh. Ah sim, esse é o primeiro filme da carreira de Paul Rudd, o Homem-Formiga da Marvel, que vive Tommy Doyle, o menino de quem Jamie Lee Curtis foi babá no filme de 1978. Tommy Doyle volta em Halloween Kills, agora vivido por Anthony Michael Hall em outra linha narrativa. Eu sei, é confuso.

Infelizmente, esse foi o último filme do veterano Donald Pleasence que, muito debilitado, não conseguiu completar as filmagens. Ou seja, o desfecho de seu personagem, e o do filme, nas duas versões (diretor e produtores), são incoerentes. Mas em resumo mostram que Myers ficou vivo – numa das versões chega até a sangrar verde (?!).

Terceira Linha Narrativa: Reboot de 20 Anos

O aniversário de vinte anos de Halloween estava se aproximando no fim dos anos 1990. Assim, Jamie Lee Curtis foi convencida a voltar para uma comemoração. De início todos os três filmes da trilogia Thorn seriam levados em conta. Mas no fim, o fato de Laurie ter abandonado a filha pequena para forjar a própria morte e começar vida nova em outro lugar não conseguiu ser contornado pelo roteiro, o que faria dela uma protagonista odiosa demais. Assim, foram varridos para debaixo dos panos os filmes quatro, cinco e seis – que continham a personagem Jamie, e Halloween H20 (1998) chegava para se tornar uma continuação direta do segundo filme, com Michael indo atrás de sua irmã novamente. O filme foi sucesso e no fim Laurie corta a cabeça do psicopata com um machado. Ponto final.

Só que não. Tudo já estava estabelecido desde o início, embora a explicação dada em Halloween – Ressurreição (2002) para Michael não estar morto seja estapafúrdia, ela não foi tirada da cartola na sequência e já havia sido pensada desde H20! No início de Ressurreição Laurie, novamente Jamie Lee Curtis numa pontinha, morre de vez pelas mãos do irmão. A trama se desenrola pegando carona na onda da época: os filmes found footage e os reality shows na TV. Assim, um programa de câmeras escondidas é filmado dentro da casa de Myers, e o dono do lugar aparece, é claro, para estragar a festa. Neste filme, o psicopata é eletrocutado, mas no fim dá um susto ao abrir os olhos mais uma vez.


Quarta Linha Narrativa: Refilmagem de Zombie

Em resumo, após o sucesso de H20 (1998), Halloween – Ressurreição (2002) havia se tornado uma piada para os fãs e os críticos. Assim, embora tenha sugerido espaço para mais um filme – que faria uma nova trilogia com H20 e Ressurreição – os produtores decidiram abandonar então mais uma nova linha narrativa e começar de outro ponto. Já era o quarto desvio. A opção dos produtores, já que esses eram os meados dos anos 2000 onde a tendência eram os inúmeros remakes, foi pela refilmagem do Halloween original. Rob Zombie, músico transformado em cineasta (que fazia certo sucesso underground com filmes violentos), foi o escolhido para comandar a reimaginação do clássico de Carpenter numa nova produção de 2007. O filme fez sucesso suficiente para gerar uma continuação dois anos depois, intitulada Halloween II (2009) – por aqui H2. Neste novo filme, no entanto, Zombie se excedia em sua excentricidade. Entre devaneios de fantasmas e cavalos brancos, Zombie fez de Myers basicamente um sem teto assassino, sem sua máscara o filme todo, o assassino grandalhão exibe uma barba digna de lenhadores de desenho e uma cabeleira de bicho grilo.

Quinta Linha Narrativa: Reboot de 40 Anos

Assim como Halloween – Ressurreição, H2 – Halloween II (2009) havia deixado espaço para continuação e por um tempo foi cogitado um terceiro filme de Zombie. Mas no fim das contas, a propriedade terminou indo parar nas mãos de Jason Blum, proeminente produtor de diversos sucessos e franquias da atualidade. E aqui, finalmente Halloween voltaria a fazer as pazes com o sucesso. Mas para isso precisou seguir uma nova linha narrativa. Esqueça os remakes de Zombie, esqueça a trilogia Thorn e até mesmo o que foi criado nos reboots do final dos anos 90 / início de 2000. Halloween (2018) – sem muita criatividade no título – é continuação direta do primeirão lá de 1978, ignorando até mesmo a sequência direta dele de 1981 (aquela do hospital). Ao menos Halloween Kills continua essa linha nova e ainda teremos Halloween Ends. A partir daí, só Deus sabe para que novos caminhos a franquia do imortal Michael Myers irá nos levar. Eu voto pela ideia da antologia. Quem mais?

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