Adaptação de Stanley Kubrick sobre infame livro permanece com a sensação de que poderia ter sido muito mais

Uma das obras mais polêmicas do século XX sem dúvidas é Lolita, livro de 1955 escrito pelo russo Vladimir Nabokov sobre o professor Humbert Humbert que se muda para uma pensão administrada por uma mãe solteira e sua filha adolescente. Ele então desenvolve uma obsessão pela jovem, não medindo esforços para enganar ou magoar quem quer que seja necessário para estar perto dela ou, em última instância, tê-la para si.

É um livro aterrorizante sobre o quão disposto um predador está para obter o que deseja, bem como o quão covarde é, uma vez que ele seduz a mãe de Lolita, visando ter mais acesso a jovem, enquanto que internamente ele a despreza bem como reitera mais de uma vez que a idade da adolescente é um dos elementos que o mantém atraído por ela. O cenário desesperador para Lolita só aumenta quando entra em cena outro predador, Clare Quilty.

A resposta imediata à obra foi de repulsa, com a venda de exemplares sendo banidas do Reino Unido e França; bem como críticas enfáticas de jornais como o Sunday Express na Inglaterra e o New York Times nos EUA. O título também foi amplamente taxado como pornografia e literatura de baixa qualidade. Ao final dos anos 50 parecia improvável que qualquer cineasta fosse encostar em um produto tão polêmico.



O autor causou um impacto inédito na literatura de seu tempo.

Em contrapartida havia Stanley Kubrick, à altura do período uma das estrelas mais prósperas do cinema norte-americano, tendo já assinado filmes como O Grande Golpe em 1956 e o épico Spartacus em 1960 (ainda que esse último não fosse um projeto concebido pelo cineasta mas sim uma produção que começou com Anthony Mann e que após este se envolver em brigas com o astro Kirk Douglas acabou sendo substituído por Kubrick).

Por volta de 1958 o diretor, junto com o produtor James B. Harris,  conseguiu os direitos de adaptação da obra pelo valor de US$ 150.000 com Nabokov. Foi oferecida a ele a chance de roteirizar a adaptação, o que ele recusou, tendo a função sido assumida inicialmente por Calder Willingham (antigo colaborador de Kubrick). O resultado, no entanto, não agradou o diretor que, ainda na pré-produção, já se via criticado por grupos moralistas e religiosos que eram contra a adaptação do livro.

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Ele então procurou Nabokov mais uma vez para que ele escrevesse o roteiro, argumentando que apenas o escritor conseguiria alcançar uma versão que mantivesse o espírito do livro intacto. Dessa vez o autor concordou e juntos começaram a elaborar o roteiro; ainda que a relação entre a dupla fosse pautada por divergências constantes, como exposto por correspondências e telegramas trocados por ambos.

Kubrick tinha o hábito de elaborar os roteiros de suas adaptações sempre junto ao autor original da história.

No artigo Struggle for the Narrative: Nabokov and Kubrick’s Collaboration on the “Lolita” Screenplay, assinado por Julia Trubikhina, são apresentado algumas situações que motivaram algumas das rusgas que surgiram entre os dois durante boa parte da produção da adaptação. 



“Ao final de 1961 as coisas começaram a dar errado e o relacionamento gradativamente deteriorou-se por assuntos financeiros e o desespero quieto de Nabokov sobre o que ele viu primeiro como uma falta de consideração. Nabokov começou reclamando sobre não ser informado a respeito dos distribuidores e subdistribuidores… Ele também pede a Kubrick que devolva os cortes. Kubrick se esquiva, citando ‘os aspectos notórios de perda e inadequação organizacional de qualquer projeto de filme”.

Apesar de ter sido uma obra que não sofreu quaisquer cortes dentre os países que entrou em cartaz (uma prática muito comum no período, visto que filmes mais ousados precisavam passar por novas edições e retirar os conteúdos problemáticos de modo que tivessem permissão para serem exibidos) Lolita foi considerada pelo próprio diretor como um projeto que poderia ter sido muito mais.

Apesar de ter sido uma obra muito contida pelo seu tempo, a sensação de perigo para Lolita ainda é perceptível.

Pensado desde o início para obter a aprovação dos censores, o filme representou uma auto renúncia que Kubrick jamais voltou a praticar na carreira; todas as suas obras nas décadas seguintes representaram uma transgressão, de alguma forma, às regras e convenções do cinema pré-estabelecidas. Fossem esses descumprimentos aplicados de maneira chocante como em Laranja Mecânica ou sutilmente como em Nascido para Matar.

Conforme o mesmo confessa em uma entrevista concedida à Joseph Gelmis em 1969: “…Eu me culparia em uma área do filme, porém; graças a toda pressão do Production Code e da Legião Católica pela Decência na época, eu creio que não dramatizei o suficiente os aspectos eróticos do relacionamento entre Humbert e Lolita, e porque sua obsessão sexual era meramente sugerida, muitas pessoas acharam que Humbert estava apaixonado por Lolita.”

Apesar de em nada ter atrapalhado a carreira do cineasta, a sexta obra de sua filmografia permanece com o semblante incômodo de ter sido o projeto certo em uma época errada; um filme que poderia ter estabelecido discussões importantes sobre abuso infantil (no âmbito doméstico, principalmente) em um período que nem se imaginava abordar esse tipo de temática fora dos anais de estudo propriamente do tema, mas que já nasceu autocontido pela sombra dos diferentes órgãos reguladores de cada país.

 

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