Personagem voltou, em tempos recentes, a flertar com uma aparição em produções da casa das ideias

Hoje dominante no cinema, bem como iniciando uma expansão no streaming, a Marvel nem sempre foi uma figura onipresente no audiovisual. A primeira produção a carregar alguma propriedade da empresa foi lançada em 1944, quando a produtora Republic (que fecharia as portas em 1967) lançou uma série de curtas envolvendo o Capitão América em aventuras isoladas. 

Nas décadas seguintes a editora foi construindo certa reputação na televisão com produções de qualidade bastante duvidosas, no entanto o cinema permanecia como um território abandonado. Por volta de 1973 um ainda iniciante George Lucas lançava seu segundo longa intitulado American Graffiti e, durante a produção do mesmo, deixava transpor sua admiração pelo personagem de quadrinhos Howard, o Pato.

O personagem apareceu pela primeira vez em 1973, nas páginas da Adventure into Fear #19 como um coadjuvante em uma história do Homem-Coisa (um equivalente da Marvel ao Monstro do Pântano da DC Comics). De caráter ácido e fumante compulsivo, Howard subverteu as expectativas da editora ao se tornar um personagem querido pelos leitores, o que obrigou a equipe criativa a mudar o planejamento inicial em que ele seria imediatamente descartado.



As aventuras de Howard eram imprevisíveis.

Howard, na concepção do seu criador Steve Gerber, era uma paródia do conceito de animais adoráveis popularizados, sobretudo, pela Disney. Conseguindo aos poucos cada vez mais evidência, o mestre do Quack-Fu obteve sua primeira linha de histórias em 1976 com Howard the Duck #1. Sua experiência solo, no entanto, duraria até maio de 1979, quando a Marvel anunciou que a edição #31 seria a última do personagem em formato serializado.

Mesmo assim, tanto o personagem como suas histórias paródias do contexto social dos anos 70 deixaram forte impressão em leitores, jovens principalmente, como George Lucas. Ele então começou a discutir a possibilidade de uma adaptação junto à roteirista Gloria Katz (que trabalhou com o diretor em American Graffiti e onze anos depois escreveria Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida) sobre transpor Howard para as telas, bem como preservando nessa adaptação o tom absurdo que foi popularizado nos quadrinhos do pato.

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Foi durante os primeiros rascunhos da dupla Gloria Katz e Willard Huyck (a mesma dupla responsável pelo texto da primeira aventura de Indiana Jones) que os primeiros sinais de mudança começaram a surgir; quando discutida a possibilidade de como Howard seria transposto para a nova mídia, rapidamente foi decidido pela dupla de roteiristas que ele precisaria de uma suavização. Sua personalidade era muito ácida para um filme baseado em histórias em quadrinhos.

A dupla Gloria Katz e William Huyck em 1974.

Isso gerou divergências criativas entre os escritores e o criador do personagem, Steve Gerber, pois Katz entendia todo o conceito de Howard, um pato espacial, como uma enorme brincadeira. Indo de contramão à esse pensamento, o quadrinista achava o contrário, defendendo que as histórias de Howard não eram piada e que as aventuras do pato tinham um senso filosófico muito forte.



O próximo ponto crítico eram os efeitos especiais e, principalmente, como produzir um filme que basicamente iria girar ao redor dessa tecnologia sem perder a qualidade. Inicialmente foi considerado o uso de um Howard feito inteiramente em animação computadorizada, essa decisão foi desconsiderada, pois na primeira metade dos anos 80 ainda não havia uma tecnologia capaz de produzir um indivíduo completamente digital.

Esse tipo de técnica só daria as caras em 1985 com o filme Enigma da Pirâmide, que apresentaria o primeiro ser feito inteiramente de computação gráfica. A nova estratégia passou a ser utilizar um trabalho conjunto de animatrônico com um ator (algo que a Lucasfilm tinha experiência desde Star Wars). O ator responsável por dar voz ao animatrônico, Chip Zien, só seria escalado após o término das filmagens.

A limitação técnica da época forçou a equipe a buscar outros meios de dar vida ao pato.

Entre o final de 1985 e início de 1986 as filmagens foram conduzidas pelo próprio Willard Huyck no posto de diretor, tendo sido lançado nos cinemas naquele mesmo ano. Muitos foram os elementos que, combinados, contribuíram para que o filme caísse em desgraça. Financeiramente ele foi catastrófico, uma vez que seu orçamento foi de US$ 37 milhões e o desempenho nas bilheterias rendeu um retorno de apenas US$ 38 milhões.

O consenso entre a crítica especializada foi de que a obra era um fracasso, em parte pela tecnologia de efeitos especiais empregada e em parte pela estrutura de roteiro em si; este apresentando uma história sem quaisquer atrativos ou um protagonista que tivesse alguma identidade. Além de tudo, foi destacado também que o filme perdeu muito ao não trazer a personalidade original de Howard para a telona.

Com o passar do tempo, Howard, O Pato desenvolveu uma aura mística de exemplo a não ser seguido a ponto de atualmente ser considerado um clássico cult. Após a participação especial do mesmo na cena pós-crédito de Guardiões da Galáxia e a tímida atenção que a Marvel Studios tem concedido a ele vale a especulação se o futuro pode reservar uma redenção ao sr. Duckson.

 

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