Hugo Bonèmer aposta em versão própria e mergulha no suspense de ‘O Talentoso Ripley’ nos palcos

DestaqueHugo Bonèmer aposta em versão própria e mergulha no suspense de 'O Talentoso Ripley' nos palcos

Levar para o teatro uma obra tão associada ao cinema quanto The Talented Mr. Ripley foi justamente o que despertou o interesse de Hugo Bonèmer pela adaptação deO Talentoso Ripley’, em sua segunda temporada no Rio de Janeiro. Conhecido pelas versões estreladas por Matt Damon e, mais recentemente, por Andrew Scott, o personagem criado por Patricia Highsmith ganha agora uma leitura teatral que preserva referências importantes do universo cinematográfico, mas encontra uma linguagem própria nos palcos. Além de protagonizar o espetáculo, Hugo também assina a direção e a produção da montagem ao lado de Kamilla Rufino.

Apesar da força que o filme ocupa no imaginário popular, o ator explica que preferiu não transformar sua interpretação em uma reprodução direta das versões já conhecidas pelo público. “As montagens cinematográficas são inspiração e proporcionamos esse fan service pros amantes da história. Mas é natural que com a investigação eu acabe me descolando e inventando meu próprio caminho”, afirma. “Na peça posso ser um para o público e outro pros personagens, o que torna essa versão já naturalmente diferente”,

Segundo Hugo, a principal mudança acontece justamente na linguagem. Enquanto o audiovisual trabalha a tensão através da câmera e do silêncio, o teatro permite uma abordagem mais simbólica e menos naturalista. “A linguagem teatral nos possibilita ir muito além do realismo ou do naturalismo do audiovisual”, explica. “É nessa que abusamos dos símbolos, transformando texto em imagem, e ao quebrar a interpretação naturalista livramos o público de comparar diretamente com o que já conhece.” Ele destaca ainda que a adaptação assinada por Phyllis Nagy amplia o espaço das personagens femininas e propõe novas camadas para a narrativa original.

A construção do suspense foi um dos processos mais desafiadores da montagem. Hugo conta que o espetáculo buscou referências pouco exploradas dentro do teatro para criar uma atmosfera de terror psicológico gradual, sem recorrer aos recursos tradicionais do cinema. “Foi tudo novo. Não temos muita referência de terror no teatro, e neste sentido foi uma questão de experimento mesmo”, revela. Um dos elementos centrais dessa construção surgiu através da canção infantil “A Canoa Virou”, que inspirou toda a trilha sonora original criada por Tauã de Lorena e Laura Gabriela. “Queria uma canção infantil para trazer o elemento de terror inocente com a tia espancando o Tom, e vibrei quando descobri que ‘A Canoa Virou’ era de direitos liberados e a letra se encaixava perfeitamente com um psicopata que tem medo de água”, conta.

Além da trilha, a cenografia também ajuda a construir a sensação de desconforto e sofisticação da peça. Hugo revela que, ao pesquisar montagens internacionais, percebeu que muitas adaptações deixavam de lado justamente a atmosfera elegante tão associada ao filme. A partir disso nasceram imagens centrais da encenação, como a banheira vermelha e o lustre formado por sacos de água, símbolo do maior medo do personagem. “A rubrica da Phyllis sugere um cenário vazio, mas algo na minha intuição apontava para aquela banheira vermelha, que é barco, boca e banheira”, explica. “E para o lustre, que é o medo do personagem, arma do crime e traz a sofisticação necessária para nos transportar visualmente a uma outra época.”

Ao falar sobre Tom Ripley, Hugo acredita que a força do personagem está justamente na ambiguidade. “Essa é, no fim das contas, uma decisão do público”, afirma. “Pra mim, enquanto personagem, quero que o público ache que ele teve razão em matar aquelas pessoas.” Já como diretor, ele admite enxergar outras camadas dentro da obra. “Gostaria que as pessoas não normalizassem a misoginia, mesmo que camuflada de humor”, completa.

Além do trabalho nos palcos, Hugo também acumula experiências na televisão, no cinema e na dublagem, onde deu voz a personagens como Freddie Mercury em Bohemian Rhapsody e Tronco na animação Trolls. Segundo ele, a dublagem ajudou a ampliar sua percepção sobre ritmo e interpretação. “O trabalho de dublagem ensina muito para o ator sobre variações melódicas do texto, pausas, generosidade à construção do outro, respeito ao ritmo da cena e sobre a escolha das palavras”, afirma. Em O Talentoso Ripley, essa bagagem aparece incorporada a uma encenação construída entre símbolos, tensão psicológica e múltiplas identidades, em uma versão que dialoga com o imaginário criado pelo cinema, mas encontra no palco espaço para desenvolver uma assinatura própria. 

Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.

Inscrever-se

Notícias

Madonna anuncia remix de “I Feel So Free” para esta SEXTA!

A rainha do pop Madonna está pronta para voltar às suas...

Sydney Agudong, de ‘Lilo & Stitch’, irá estrelar a nova animação musical ‘Brave Knight’

Segundo o Deadline, Sydney Agudong ('Lilo & Stitch'), Skylar Astin ('A Escolha...

‘Wahala’: Cush Jumbo e Deborah Ayorinde irão estrelar o novo DRAMA da BBC

A BBC anunciou o elenco completo de 'Wahala', novo drama inspirada...