Autor de histórias de terror tem uma relação muito longa com produções fora do cinema

Em sua agenda de produções futuras, o serviço de streaming Apple Plus lançou o trailer de Lisey’s Story; suspense protagonizado por Julianne Moore baseado no livro Love: A História de Lisey lançado em 2006 e assinado pelo mestre do terror. O relacionamento entre Stephen King e adaptações de seus livros é algo bastante único quando postos ao lado de outras produções baseadas em obras preexistentes.

Desses projetos nasceram obras históricas para o cinema como O Iluminado, Carrie – A Estranha e Um Sonho de Liberdade e outras tidas como verdadeiros exemplos de como não realizar um filme; dentre eles havendo Comboio do Terror, Torre Negra e A Maldição. Fato é que o repertório de adaptações envolvendo propriedades de Stephen King é tão extenso quanto sua própria bibliografia com mais de cinquenta obras.

Sendo assim, bora lembrar três produções baseadas na escrita de King que mesmo não possuindo orçamentos tão vantajosos quanto os longas que fizeram história no cinema, de uma forma ou de outra ficaram guardados na memória do público.


3) O Iluminado (1997)

Tem muita lenda por aí mas o ódio que o autor sentia pela adaptação realizada por Stanley Kubrick em 1980 definitivamente não é uma delas. King sempre considerou que a visão dispensada pelo cineasta para esse livro em específico não só era bastante injusta com a personagem Wendy (esposa do protagonista Jack) como também, do ponto de vista dele, havia deixado de lado toda a subtrama do protagonista ser um alcoólatra em recuperação.

A versão para televisão do clássico livro tinha a promessa de ser mais fiel ao material fonte.

Esse fator era muito importante para ele pois O Iluminado foi escrito em um período muito conturbado da vida de King; quando ele atravessava uma fase de tratamento ao alcoolismo e viu na escrita uma forma de terapia. Dessa maneira, Jack se torna uma extensão de um problemático Stephen dentro daquela história. Para tentar corrigir esse “erro” (muitas aspas aqui) o autor ofereceu um roteiro para uma minissérie ao canal ABC, aonde já havia realizado parcerias bem sucedidas no passado.

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Tendo já sido concebido à sombra do filme de Kubrick, além da interpretação deixada por Jack Nicholson no papel principal, o projeto teve muita dificuldade em sair do papel; as opções sugeridas hesitavam em embarcar em uma ideia que automaticamente seria sempre comparada a um clássico do terror. Eventualmente ele encontraria na figura de Steven Webber um Jack Torrance mais próximo da visão do autor. O Iluminado de 1997 é até hoje uma experiência mista: enquanto que é fácil notar uma conexão maior com o livro, o mesmo pode ser dito da limitação financeira. Se o filme de 1980 utilizava muito mais jogo de câmera e narrativa do que efeitos especiais, a produção televisiva vai pelo caminho inverso e abandona a sutileza em prol do uso de CGI (que definitivamente não envelheceu bem).

2) Carrie – A Estranha (2002)

A versão clássica conduzida por Brian De Palma em 1976 possui uma ligação mais harmoniosa com o criador original, não existindo um histórico de declarações negativas de King sobre o filme. Por volta de 2002 o canal de televisão NBC encomendou uma adaptação do livro homônimo de 1974 sem qualquer ligação com o filme de 1976. À altura daquele ano a propriedade em torno do livro se recuperava do fracasso que fora The Rage: Carrie 2 (A Maldição de Carrie, no Brasil), uma pretensa tentativa de continuar a história do filme de De Palma.


A versão de 2002 foi o primeiro contato de muitos com a trágica história de Carrie.

Bryan Fuller (hoje conhecido por séries como Hannibal e Deuses Americanos) foi escolhido para redigir um roteiro enquanto que a direção ficou a cargo de David Carson (cujo projeto mais conhecido é o longa Star Trek Generations) gerando assim um filme que entrega exatamente o que se esperava dele; um projeto com orçamento limitado que, mesmo tendo o desejo de ser o mais fiel possível ao livro de King, também tinha que cumprir uma função de piloto para um possível novo seriado e, portanto, necessitando tomar certas decisões criativas para gerar mais história.

A adaptação também sofreu muito na hora de transpor a temática do bullying sofrido por Carrie e a eventual vingança dela, pois há apenas alguns anos antes ocorrera o massacre na escola de Columbine, o que tornava esse tipo de assunto especialmente problemático. 

1) IT – A Coisa (1990)

Certamente o mais memorável dentre todas as humildes interpretações dos livros de Stephen King para a televisão, It – A Coisa (subtitulado à época “Uma Obra-Prima do Medo”) é uma espécie de Santo Graal desse nicho; seja por motivos positivos, seja por outros nem tão positivos. Acontece que adaptar o calhamaço com mais de mil páginas é uma tarefa difícil até mesmo para uma grande produção de Hollywood (como ficou evidente anos depois) devido às diversas propostas abordadas pelo enredo; indo de drama adolescente, passando por um suspense de assassinatos em série, até chegar em terror cósmico.

Longe de ter um alto valor de produção, a versão de 1990 para “It – a coisa” ainda detém elementos memoráveis.

Seguindo a mesma receita prévia de orçamento limitado e, por consequência, um elenco bastante barato, essa despretensiosa produção alcançou um estranho status cult graças a performance de Tim Curry. O ator já possuía uma carreira consolidada previamente com The Rocky Horror Picture Show, Os Sete Suspeitos e Caçada ao Outubro Vermelho mas com o despretensioso It ele marcou a memória do público por sua versão do palhaço Pennywise graças à combinação de um ótimo trabalho de maquiagem e um tom humorístico que se revezava constantemente com a ameaça de uma cena violenta.

Com isso a noção desse Pennywise como sendo uma ameaça sobrenatural é substituída, em alguns momentos, por uma de que ele é uma ameaça mais real; alguém simplesmente vestido de palhaço, contribuindo assim para uma maior aproximação (mesmo que indesejada) entre o antagonista e o público. Mesmo que o resultado final da obra como um todo tenha entregue uma versão bem condensada, até apressada, do colosso que é o livro, é a interpretação de Curry que perdura.


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