Maligno está entre nós, queridos leitores! Tudo bem que o filme do “midas” James Wan foi lançado nos cinemas brasileiros recentemente pela Warner, porém, nem todos tiveram a chance de conferi-lo. Agora a missão de assistir ao terror talvez seja mais fácil para grande parte do público já que a obra acaba de estrear no acervo da plataforma HBO Max para ser conferida e apreciada no conforto de seu lar.

James Wan se tornou o cineasta preferido dentro do gênero terror para muita gente – em especial os que buscam um entretenimento mais descompromissado e buscam sua cota de sustos para levantar a adrenalina. Não que os filmes de Wan não possuam ressonância, pelo contrário, em especial os dois primeiros Invocação do Mal (2013 / 2016) são obras queridas de fãs e críticos. Tendo buscado novos ares em superproduções, vide Velozes e Furiosos 7 e Aquaman (atualmente, Wan filma a continuação deste), o cineasta demonstrou sua versatilidade e o dom de trazer uma abordagem inovadora dentro do cinemão produto Hollywoodiano. Em menor escala, Wan possui atributos de Denis Villeneuve e Christopher Nolan, que conseguem entregar “blockbusters autorais”.

O que a maioria dos especialistas parecem concordar em relação às obras de terror de Wan é que o cineasta nunca teve tanta liberdade criativa e amarras soltas quanto em Maligno. Este parece ter sido o filme que Wan queria fazer, o filme que bolou e conseguiu concretizar sem grandes interferências de executivos de estúdios – que acabam muitas vezes transformando uma produção em um verdadeiro retalho. O que podemos dizer é que Maligno é pra lá de insano e fica até difícil explicar do que o filme trata, isto é, sem revelar grandes detalhes da trama. Justamente por isso, se você ainda não conferiu, evite ao máximo ler qualquer coisa sobre, a fim de evitar os inúmeros (acredite) spoilers. O filme possui diversos segredos e reviravoltas. Aqui, iremos avisar a parte onde adereçaremos os mistérios do longa.



Vale a pena ser dito que Maligno é a grande homenagem que James Wan presta aos filmes de terror italianos que ficaram conhecidos como Giallo (Amarelo no idioma). Tais filmes são considerados os pais dos “slashers” norte-americanos, subgênero que atingiu o auge da popularidade nos anos 80 e que gerou franquias como Sexta-Feira 13 e A Hora do Pesadelo. A diferença é que os slasher se tornaram filmes jovens voltados aos adolescentes, com tramas envolvendo os próprios, longe da supervisão dos adultos. Os Giallo não necessariamente transitam por esse clima jovial de férias em acampamentos e festas; levando seu terror para o dia a dia, em ambientes de trabalho, com personagens adultos e envolvem quase sempre muita investigação por parte da polícia. São suspenses, onde a identidade do assassino é um mistério, mas com a adição da carnificina esperada nos slashers – e essa talvez seja sua principal influência. Nos Giallo, o sangue escorre aos litros, dando detalhamentos gráficos das matanças e torturas.

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Existe também neste tipo de filme a constante sensação de delírio ou pesadelo, como se os personagens passando por tais traumas estivessem em outro mundo, um do qual não possuem muito controle. Esse teor de surrealismo (com cores fortes e luzes berrantes) é um dos elementos básicos em sua composição. Tudo isso, é claro, pode ser encontrado em Maligno, em especial a cor vermelha, onde podemos notar inclusive no poster do longa.

Quando Maligno foi lançado, o mestre do terror Stephen King não se acanhou a tecer elogios ao filme de Wan em suas redes sociais. Não por menos, os fãs mais atentos podem notar uma grande semelhança na trama do filme, em especial em seu desfecho e explicação final, com uma das obras de King menos famosas; mas que já ganhou sua adaptação para as telas. Ainda não revelaremos qual para você não matar a charada sobre o segredo de Maligno – mais abaixo no texto iremos dizer qual é.



Até mesmo para quem está assistindo Maligno fica difícil entender o que está acontecendo, até que as pistas comecem a ser deixadas. Bem, e nem assim talvez. A verdade é que a trama é complexa e apenas quando Wan, que também escreveu o roteiro, quer começar a nos elucidar, é que tudo passa a fazer sentido. Maligno é daquele tipo de filme que talvez precisemos visitar novamente para ver se tudo de fato se encaixava. Os menos minuciosos, de qualquer forma, já poderão notar uma experiência imediata de satisfação por tamanha surpresa.

O que fica em nossa cabeça quando Maligno caminha para a sua metade: o que é a tal ameaça identificada como Gabriel, uma entidade sobrenatural? Um serial killer imortal? Alucinações da mente da protagonista? A trama abre com uma clínica / laboratório sendo atacado por um de seus pacientes, o tal Gabriel, que parece possuir dons extrassensoriais telecinéticos e uma sede insaciável por sangue. Teria ele sido criado em tal laboratório como um experimento? O mistério é montado logo de início. Depois acompanhamos a jornada da sofrida Madison, a protagonista, interpretada pela bela Annabelle Wallis – portando madeixas escuras ao contrário de seus cabelos loiros costumeiros. A atriz foi revelada no filme da xará Annabelle (2014), produção de Wan igualmente.

Madison está grávida e trabalha em turnos ingratos no hospital como enfermeira. Mas isso não é tudo, o maior obstáculo de sua vida é o marido abusivo que além de ficar assistindo TV o dia todo, ainda a maltrata, a agredindo física e psicologicamente. E aqui, Maligno ganha tintas de um horror real. A ligação de Madison com o mistério inicia após ser arremessada pelo marido contra a parede e bater de cabeça. Seu ferimento sangra constantemente durante a projeção. Estaria ele causando alucinações?  Só o que sabemos é que após o fato, Gabriel chega à porta da mulher, invade sua casa e mata o abusador. Madison aos poucos começa a se tornar uma das suspeitas do crime, embora tenha sido igualmente perseguida pelo psicopata.

Madison é uma heroína trágica e rapidamente começamos a sentir muita pena da protagonista, como uma das mais sofredoras dentro de um filme do gênero em anos recentes. A mulher simplesmente não tem um alívio. Para piorar, após o ataque, ela desenvolve um elo psíquico com o assassino, conseguindo “assistir de camarote” através dos olhos dele, seus ataques e assassinatos às vítimas. Esse pequeno detalhe foi inspirado por Os Olhos de Laura Mars (1978), um exemplar dos Giallo produzido em Hollywood, que esteve recentemente no acervo da Amazon – e sobre o qual eu comentei aqui no CinePOP – confira abaixo no link.

Amazon | ‘Os Olhos de Laura Mars’ (1978) – Um Giallo de Hollywood com uma constelação envolvida



Aqui chegamos ao final do texto sem spoilers e o que podemos dizer caso você ainda não tenha assistido é: corra para conferir na HBO Max pois Maligno é uma das pedidas recentes mais criativas para este dia das bruxas. Uma pedida imperdível para os fãs do terror. Mas tenha em mente as ideias absurdas, alucinógenas e insanas e deixe James Wan entrar na sua mente. O filme funciona muito melhor quando damos um grande salto de fé. E de forma alguma o longa será aceitável caso você exija o mínimo de credibilidade no real.

SPOILERS!

É quase impossível falar a fundo sobre Maligno e não entregar algum de seus inúmeros spoilers. Mas aqui iremos justamente adereça-los. Ao longo da projeção, algumas pistas começam a ser juntadas pela audiência. A primeira delas é que Madison foi adotada por sua família, e que sua mãe verdadeira ainda está viva. Através de flashbacks, vemos a mulher deixando a pequena Madison, papel da ótima Mckenna Grace, para ser criada na tal clínica do início. Outra suspeita apresentada é a de que Gabriel seria o amigo imaginário da menina, retornando de forma ameaçadora em sua vida adulta. E a revelação é tudo isso e muito mais.

A verdade é que Gabriel é o gêmeo parasita de Madison, que não se desenvolveu completamente e nasceu grudado nas costas da menina. Tratado como um “tumor maligno” e um câncer, a criatura monstruosa (por fora e por dentro) é removida de forma cirúrgica ainda na clínica e, para todos os efeitos, eliminada da vida da protagonista. Daí a citada semelhança com A Metade Negra (The Dark Half, 1993), livro de Stephen King que ganhou as telas numa produção de George Romero.


Porém, durante a operação parte do cérebro de Gabriel ainda permaneceu junto ao corpo de Madison, sendo empurrado para dentro do crânio dela, onde permaneceu dormente por todos esses anos. A violência cometida contra ela por seu marido foi o que abriu a porta para o ressurgimento do psicopata. Agora, Gabriel toma posse do corpo de Madison para cometer seus crimes. Até a forma desconjuntada que o assassino possui e se move ganha uma explicação na reviravolta de Wan – a impressão de “andar de trás pra frente” que o vilão passa durante suas cenas, é consequência dele realmente ser “as costas” de Madison, como seu inverso.

E se a verdade sobre Gabriel é revelada através de uma fita encontrada pela irmã e mãe adotivas de Madison, recurso muito adotado pelo terror, como uma fonte de exposição integrada à tecnologia; a verdade sobre como funciona a simbiose entre hospedeiro e parasita na atualidade vem de uma das melhores e mais enervantes cenas do longa: a cena da cadeia. Presa pelos assassinatos, ainda mais após encontrarem um cadáver em seu sótão, Madison é encarcerada ao lado de mulheres perigosas e quando sua vida começa a correr risco, seu corpo de forma inconsciente evoca Gabriel, ao que podemos pela primeira vez assistir a como funciona tal mutação – e o motivo porque o ferimento na cabeça da mulher jamais deixou de sangrar / por motivo das constantes intervenções do psicopata. Ver Madison agindo como Gabriel, sendo tomada por ele, é um momento para lá de catártico, mas também algo saído da mente mais desvairada. Criativo e lisérgico, o trecho sem dúvidas choca pela surpresa e pelo grafismo caricato.

Maligno é um filme violentíssimo, mas que destila uma violência exagerada e cartunesca (como os filmes de Tarantino). Aliás, o filme é levado neste tom, algo tão fora da caixinha que ao mesmo tempo em que dificultará a “compra” de uma parcela do público, se tornará instantaneamente irresistível para a outra metade. Para os que preferirem ideias inusitadas, não importando muito o quão críveis possam ser. O filme tem muito a oferecer em suas entrelinhas e possui discursos que vão desde o abuso doméstico (como um paralelo entre o mal fictício e um bem factível), distúrbios psicológicos, homenagens cinematográficas, até o mais puro significado dos males fisiológicos – e daí compreendemos de outra forma inclusive o título: Maligno (um tumor, um câncer, ou qualquer corpo estranho não benigno em nosso organismo).

A HBO Max foi certeira em disponibilizar um dos seus mais recentes atrativos nesta época especial para os aficionados pelo gênero terror. E sem dúvida, Maligno já se torna um item indispensável em qualquer cardápio para o dia das bruxas 2021, para ver e rever.

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