Destino do sidekick é lembrado ao final de Liga da Justiça de Zack Snyder bem como em Batman vs Superman

Um dos elementos mais famosos da mitologia do Homem Morcego sem dúvida é seu ajudante Robin. Estreando em abril de 1940 nas páginas da Detective Comics #38 sua criação se deu pela necessidade da DC Comics amenizar o tom pulp (tipo de literatura que costumava ser publicada em folhetins e trazia tramas recheadas de violência e mistérios) que as primeiras histórias do Batman carregavam, visto que o criador Bill Finger se inspirou em muitos elementos desse estilo para formular as primeiras aventuras.

Inevitavelmente a persona de Dick Grayson fez muito sucesso entre os leitores do personagem (no caso as crianças da época) por ser alguém com quem eles não só poderiam se identificar como também se divertir com as tiradas cômicas que ainda não eram naturais ao vigilante mas começaram a ser introduzidas com o Menino Prodígio. 

A questão é que conforme as décadas foram passando e as histórias do Batman foram se tornando mais cronológicas, consequentemente Dick Grayson acabou crescendo ao longo dos anos, além de que suas aventuras foram se separando gradualmente das de seu mestre conforme ele foi se consolidando como o líder dos Jovens Titãs,  até o ponto em que ele não teria mais condições para continuar sendo o Robin.



Dick Grayson, o Robin, não poderia permanecer para sempre na sombra do Batman

A partir de 1984 ele abandona o manto de Robin para se tornar o Asa Noturna em Tales of the Teen Titans #44 (que também é o terceiro capítulo da clássica saga do Contrato de Judas). Dessa maneira era necessário encontrar um substituto, visto que a persona do Robin já era um dos elementos centrais da mitologia do Batman. Por volta de março de 1983 o escritor Gerry Conway apresenta o jovem Jason Todd em Batman #357 como um personagem idêntico à Dick Grayson, incluindo a história de origem no qual ele também veio de uma família circense.

Foi somente após o reboot geral da DC Comics pós Crise das Infinitas Terras (nos anos 80) que o personagem foi retrabalhado não só em sua origem como na personalidade. Isso levou a Batman #408, história que reintroduz Jason Todd como um jovem que vive sozinho em um cortiço e que, ao ser flagrado pelo Batman enquanto roubava as rodas do Batmóvel, foi recrutado por ele para ser o segundo Robin.

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Essa nova versão não só apresentava uma outra origem para o personagem como também é perceptível um esforço do autor Max Allan Collins em tornar Jason Todd o mais diferente possível do predecessor. Desde cedo em sua apresentação ele demonstra um comportamento agressivo, fazendo um contraponto evidente com a personalidade de Dick Grayson construída ao longo das décadas.

A nova origem de Jason Todd deixava escancarado que ele não era um cópia de Dick Grayson

A altura que sua nova origem foi proposta a indústria de quadrinhos não era a mesma dos anos 40, quando o Robin foi criado. O estilo de narrativa vigente incentivava um reflexo do mundo cada vez mais perigoso (tanto nas relações entre países quanto no aumento da violência nas cidades), abandonando a ideia de que as histórias em quadrinho deveriam ser manter como uma intocável terra de aventuras para super-heróis perfeitos.



O segundo Robin, portanto, foi nada mais do que a versão do Menino Prodígio que melhor se encaixava nessa nova tendência editorial do mercado nos anos 80; o de um jovem vigilante que não hesitava em extrapolar as regras de conduta criadas pelo Batman, que tinha um estilo pessoal independente de seu professor e um temperamento muito explosivo. Entretanto, isso contribuiu para a péssima relação entre Jason e os leitores.

Desde sua primeira aparição, Jason foi tratado com grande resistência pelo público; estes consideravam o personagem como uma simples cópia de Dick Grayson e vê-lo assumir o posto do Robin original foi problemático. Já com o Jason pós crise o caminho foi totalmente inverso e a melhor análise é conferida pelo próprio Max Allan Collins no artigo The Lives and Death of Jason Todd: An Oral History of the Second Robin and A DEATH IN THE FAMILY de autoria de Joe Grunenwald.

“Eu acredito que a ideia de criança de rua foi minha, a noção de que Bruce Wayne\Batman não queria a responsabilidade de colocar Dick Grayson em perigo nunca mais, mas esse garoto de rua já estava em um caminho perigoso e seguindo pela estrada errada. Logo, adotá-lo (e essa foi uma decisão gradual) fez sentido”.

O estranhamento inicial do público com o novo e violento Robin foi amplificado principalmente após o autor Jim Starlin (criador da saga Desafio Infinito na Marvel) assumir as histórias do Homem Morcego a partir de Batman #414, iniciando sua fase com o herói pelas próximas dezessete edições. O fator problemático nesse período foi que Starlin nunca foi um fã do Robin, independente de ser Dick ou Jason.

No mesmo artigo mencionado anteriormente, Starlin indica que nunca viu muito sentido em Robin como um ajudante para o Batman pois a ideia de um adulto colocando uma criança para combater o crime soava para ele como abuso infantil, dessa maneira suas histórias sempre priorizaram em manter Jason Todd na Batcaverna. Isso até a edição #424 quando Starlin pôs Jason para matar um criminoso que havia sido inocentado devido a uma brecha do sistema, fazendo o jovem cruzar uma linha que o próprio Batman luta para não ultrapassar.

Um Robin violento para tempos violentos

Como apontado pelo editor das histórias do Batman na época, Denny O’Neil, Robin era até então o personagem mais odiado pelos leitores; com cartas que chegavam diariamente reclamando sobre Jason Todd. Foi quando, durante uma reunião editorial, O’Neil decidiu que o começo do fim para o Menino Prodígio havia começado e pediu a Jim Starlin que elaborasse um roteiro no qual a vida do jovem estaria verdadeiramente ameaçada.

O autor aceitou e começou a elaborar a trama de Morte em Família no qual teria em Jason o protagonista que parte em uma busca para encontrar a sua mãe biológica, levando-o até o Oriente Médio. Ao mesmo tempo, o Coringa foge do Asilo Arkham e se vendo sem recursos, parte também para o oriente em busca de compradores para o que restou de suas armas. Segundo Starlin a ideia de usar o Palhaço Príncipe do Crime como antagonista partiu da morte do Robin brevemente mencionada em O Retorno do Cavaleiro das Trevas alguns anos antes.



Eventualmente a busca de Jason cruza com o caminho do Coringa, o que leva a uma das cenas mais simbólicas dos quadrinhos: Jason Todd, indefeso, sendo espancado pelo Coringa com um pé de cabra enquanto o vilão ri de seu sofrimento. O final dessa sequência vem com o palhaço abandonando o galpão aonde o ferido Robin está enquanto uma bomba está para explodir e Batman está a caminho. Nesse ponto a DC tomou uma decisão diferente; eles colocaram o destino de Jason nas mãos dos fãs.

Um dos momentos mais impactantes nas histórias das revistas em quadrinho

Em setembro de 1988 duas linhas de telefone foram criadas, uma voltada para contabilizar votos pela sobrevivência de Jason e outra onde os fãs decidiam pela sua morte. Consequentemente dois desfechos foram planejados dependendo do resultado. Quando chegou dezembro daquele mesmo ano o mundo conferiu o desfecho escolhido pelos leitores traduzido em uma icônica imagem: Batman desconsolado segurando nos braços o corpo ensanguentado e inconsciente de Jason Todd.

A morte do Robin se tornou um dos momentos chave do Cavaleiro das Trevas em toda sua história, sendo considerado como um episódio obrigatoriamente canônico (igual a morte dos pais de Bruce ou o ataque sofrido por Bárbara Gordon) independente de quantos reboots o herói tenha passado. Após essa história, Bruce Wayne levou um longo tempo para confiar qualquer missão a algum aliado, temendo que eles pudessem ter o mesmo fim de Jason, até que eventualmente ele consegue superar o trauma e recruta o terceiro Robin (Tim Drake).

Pelo peso da história ao longo dos anos, a morte de Jason Todd já foi adaptada para animação (Batman Contra o Capuz Vermelho), games (Batman: Arkham Knight), séries (Titãs) e mais recentemente para o cinema, já que tanto Batman vs Superman quanto Liga da Justiça de Zack Snyder e Esquadrão Suicida abordam a morte de um Robin como uma mancha no passado do Batman de Ben Affleck, ainda que nunca fique claro qual dos Meninos Prodígios foi a vítima.

Mesmo assim Morte em Família permanece como um capítulo vital na trajetória do vigilante e que, mesmo após mais de trinta anos do seu lançamento e anos depois de Jason já ter voltado a vida como o vigilante Capuz Vermelho, ainda é uma ferida mau cicatrizada em Bruce e um dos seus maiores fracassos.


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