O Diabo Veste Prada | Revisitando um dos filmes mais ADORADOS do século

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Em 2003, Lauren Weisberger lançava um dos romances mais populares da década e que imediatamente figurou na lista de best-sellers da New York Times: O Diabo Veste Prada. Funcionando como um roman à clef, ou seja, um romance ficcional com elementos reais, Weisberger narrou seu breve tempo como assistente de Anna Wintour na prestigiada revista de moda Vogue – construindo um universo próprio que não apenas se beneficiou de uma recontagem espirituosa sobre uma das mulheres mais poderosas da indústria do entretenimento e a politicagem de uma das engrenagens mais competitivas da sociedade.

Encontrando sucesso crítico e comercial, o romance de Weisberger caiu no gosto dos leitores por fornecer um vislumbre da indústria da moda a partir de uma experiência pessoal. Não é surpresa que, pouco tempo depois, a agora extinta 20th Century Fox adquiriu os direitos de adaptação do livro e escalou a produtora Wendy Fineman, o diretor David Frankel e a roteirista Aline Brosh-McKenna para transcreverem as páginas da autora para as telonas. Em 2006, o projeto ganhou vida e, em pouco tempo, fez um barulho considerável que lhe garantiu um legado contínuo e que, nesse momento, está em vias de se expandir com uma ambiciosa sequência.

É difícil encontrar alguém que nunca tenha assistido ao filme, ainda mais por, em vários momentos, ter superado a qualidade dos escritos de Weisberger. A trama é centrada em Andy Sachs (Anne Hathaway), um jovem recém-formada em jornalismo que consegue um emprego na renomada e venerada revista de moda Runway, um arauto artístico que reúne e influencia diversos artistas, redatores e nomes da área. Andy trabalhará para a editora-chefe Miranda Priestly (Meryl Streep) como uma de suas assistentes pessoais, dividindo o cargo com a elegante e esnobe Emily Charlton (Emily Blunt), que logo de cara já a introduz nesse mundo frenético e exaustivo.

Não demora muito até que a protagonista perceba que Miranda comanda a Runway a mãos de ferro e, da mesma maneira que é respeitada, é temida. Postando-se como uma destemida e calculista empresária e amante da moda, ela pede tanto a Andy quanto a Emily as tarefas mais absurdas possíveis, como se estivesse testando sua lealdade de maneiras quase cruéis. A jovem, então, percebe que as coisas são muito mais complicadas do que parecem e, pouco a pouco, desponta como uma espécie de extensão de Miranda em seus próprios moldes – movida pela necessidade de se provar em um escopo comandado por homens e navegando entre os dilemas do âmbito profissional e do pessoal.

Contando ainda com Stanley Tucci como o icônico Nigel, braço-direito de Miranda que logo se torna um grande amigo de Andy, e Adrian Grenier como Nate, namorado de Andy, o longa fez um estrondo de bilheteria ao arrecadar US$326,7 milhões ao redor do mundo, além de conquistar duas indicações ao Oscar – incluindo Melhor Atriz para Streep, que eternizou Miranda como uma das melhores e mais “amadas” antagonistas da cultura pop. O que ninguém imaginava, porém, é que a forte recepção lhe garantia um apreço crescente e beirando uma relação parassocial, em que as explorações políticas são suavizadas com o convidativo e ambíguo ambiente empresarial – nesse caso, regado a Chanel, Jimmy Choo e Valentino.

Tanto o filme quanto o livro ajudaram a popularizar um movimento de denúncia e de discussão sobre a toxicidade no ambiente do trabalho, mas utilizando a personalidade firme e indelével de Miranda como um complexo objeto de estudo. Sim, a poderosa editora-chefe praticamente tortura suas assistentes ao encurralá-las em um labirinto de ansiedade e aflição; por outro lado, o aparente desprezo que sente pelos outros serviu de combustível para que ela escalasse a desigual pirâmide social da indústria, em meio a inescrupulosas e sensacionalistas manchetes que insistiam em analisar sua vida microscopicamente – incluindo o fato de que, enquanto seu império crescia, suas relações pessoais se desmantelavam.

Miranda é uma personagem intrincada e cheia de sutilezas que vão aparecendo à medida que Andy se torna uma improvável aliada da Runway – e tanto a protagonista quanto Emily são ramificações da editora-chefe. Emily deseja mais que tudo beber da fonte de inspiração que Miranda é, endeusando-a o tempo todo e recusando-se a falhar em seu trabalho, mas vendo-se sem chão quando o sonho de acompanhá-la na Fashion Week de Paris vai pelos ares. Andy, querendo apenas reiterar sua ética profissional e fazer o que gosta (escrever), se aproxima cada vez mais da personalidade de Miranda, compreendendo as minúcias da área cinzenta da moral e dos valores que sempre defendeu quando lida com uma realidade totalmente diferente.

O Diabo Veste Prada também ajudou a reestruturar a visão do público geral sobre a indústria da moda – e fez questão de alcançar esse objetivo de maneira clara e contundente, seja nas cenas em que Nigel explica a Andy que a Runway não é apenas uma revista, e sim um estilo de vida que materializa as abstrações oníricas dos leitores; ou quando Miranda, reclamando o trono do império que construiu do zero ao se ver na iminência de ser substituída.

o diabo veste prada 2

O segundo capítulo dessa mini-franquia cinematográfica, dessa maneira, é um lembrete do inescapável legado deixado não só pelo romance de Weisberger, mas de como o filme alcançou um status inegável como uma das grandes comédias dramáticas do século, angariando uma legião de fãs que mal podem esperar para retornar aos movimentados corredores da Runway.

Lembrando que ‘O Diabo Veste Prada 2’ chega aos cinemas nacionais em 30 de abril.

Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.

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