A pandemia fez de 2020 um ano profundamente difícil, seja pelas perdas humanas, seja pelas restrições e mudanças que impôs a todos. Projetar os impactos desse ano é um exercício árduo, ainda mais quando nos lembramos que, no começo da pandemia, muitos falaram que as pessoas se tornariam mais solidárias. Bem, nem precisou acabar o primeiro semestre para vermos o quanto é difícil as pessoas mudarem.

No campo cultural, o vírus liquidou as atividades culturais coletivas e todos buscaram se reinventar – o teatro on-line é o exemplo mais explícito. E na sétima arte? O que mudou e, principalmente, o que mudará nos próximos anos? Lá vou eu querer praticar a perigosa futurologia!

Estou com os que acreditam que o fechamento forçado das salas de cinema precipitou fenômenos que iriam acontecer ao longo dos próximos anos. 2020 foi (assim como 2021 continuará a ser) um grande laboratório para a indústria do cinema testar até que ponto a distribuição de filmes via internet é viável, seja por serviços de assinatura, como a NETFLIX, seja pelo aluguel on-line, o conhecido VOD – video on demand.



No começo da pandemia, a primeira reação foi adiar os lançamentos. Quando os estúdios tomaram dimensão do problema, os testes começaram.

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Trolls 2, da Universal, e Scooby! O Filme, da Warner, foram os primeiros filmes de grandes estúdios a serem lançados diretamente no streaming. Momento chave foi a alteração das regras do Oscar 2021. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas autorizou que filmes lançados apenas em streaming concorram ao Oscar 2021. Esta mudança teve especial impacto nas produtoras independentes, que passaram a distribuir seus filmes online, seja para aluguel, seja vendendo os direitos para incluir seus títulos nos catálogos de grandes streamings. A partir daí vimos um crescimento nos lançamentos de filmes via internet. Os outros dois movimentos chaves foram protagonizados pela Disney e pela Warner.

A Disney manteve o calendário de lançamento do seu streaming. Até o final do ano, a Disney+ beirou os 90 milhões de assinantes. Para além dessa demonstração de força, a casa do Mickey colocou a superprodução live action Mulan no Disney+ na modalidade “Premier Access”: além da assinatura, era necessário pagar mais US$ 29,99 para assistir ao filme. Apesar das polêmicas, a empresa anunciou que irá repetir a jogada com Raya e o Último Dragão. Já no final do ano passado, Soul, nova obra-prima da Pixar, pulou os cinemas e foi direto para o catálogo do Disney+.



Mesmo com tais movimentos, a Disney confirmou lançamentos importantes para os cinemas em 2021, respeitando a janela e exibição. Já a Warner prometeu lançar todos os seus filmes no ano de 2021 simultaneamente nos cinemas e no seu streaming HBO Max. Os filmes ficarão 1 mês no serviço, sem custos adicionais. A decisão gerou revoltar entre exibidores e diretores, como Christopher Nolan e Denis Villeneuve.

O movimento da Warner foi mais agressivo porque desconsiderou a janela de exibição – período no qual um filme é exclusivo de determinada mídia; a primeira janela é aquela dedicada às salas de cinema. Ao possibilitar que seus filmes estejam disponíveis simultaneamente no streaming e nas salas de exibição, o futuro destas é colocado em dúvida.

Acho improvável que as salas de exibição deixem de existir, ao menos no médio prazo. Os anos de 2020 e 2021 vão forçar a reimaginação do papel dos exibidores. E o aumento da concorrência irá forçar, também, a revisão do modelo de negócios dos serviços de streaming.

No pós-pandemia, quando se aglomerar já não for perigoso, as salas de exibição voltarão a ter público. As que sobreviverem à crise voltarão a ver um público tão grande quanto antes da pandemia. Contudo, logo vamos notar diferenças.



A tendência será a janela de exibição ser flexível, especialmente se instituições como o Oscar mantiverem a regra do streaming: a janela de exibição se tornará uma regra pontual, celebrada entre redes de cinema e produtoras quando conveniente. Aposto que a janela de exibição permanecerá apenas para grandes filmes, como forma dos estúdios ganharem em cima da bilheteria. As produções menores e o cinema independente (os filmes do chamado circuito alternativo) provavelmente entrarão simultaneamente em salas de cinema e na internet – ou apenas neste último.

A sala de exibição deve continuar a existir para dois extremos: para as superproduções, cuja grandiosidade das imagens se valoriza na tela grande, e para os “filmes de arte”, que hoje já está no circuito alternativo e são consumidos por um público que enxerga o cinema como expressão artística e não apenas entretenimento.

As produtoras voltadas ao chamado circuito alternativo ou independente, certamente, farão lançamentos simultâneos em salas de exibição e em serviços de streaming ou lançamentos diretos no on demand. O lançamento simultâneo desses filmes só traz benefícios: para o público, que terá acesso mais cedo a essas produções, e às produtoras e realizadores que poderão aproveitar o hype do lançamento e alcançar um público maior, tendo maior retorno. E quem acha que a extinção da janela de exibição nesses casos prejudica a obra, basta lembrar que as sessões de O Irlandês, de Martin Scorsese, tiveram seus ingressos esgotados, mesmo com o filme disponível na NETFLIX.



O tipo de filme que sofrerá a maior crise de identidade será aquele que nem tem pretensões de ser grande cinema, nem tem como ser blockbuster. São os filmes de médio porte, que podem até ser grandes obras-primas, mas não são assim percebidos, seja por ser de um diretor estreante, seja porque é uma obra menos pretensiosa. Falo de filmes bons e ruins. Eles vão perder o pouco espaço que ainda tinham nas salas de exibição. Seu destino é o streaming. As comédias românticas já seguem esse caminho: hoje, esse gênero praticamente sumiu das salas de exibição, mas reinam no streaming.

Quanto aos blockbusters, seu destino está ligado ao futuro dos serviços de streaming, que devem passar por mudanças profundas nos próximos anos. O crescimento de oferta dos serviços, até o momento, ainda está sendo absorvido pelo público. Mas, chegará um ponto no qual nem todos terão tempo nem dinheiro para assinar tantos serviços. Hoje, vemos uma infinidade de modelos de negócio. No futuro, alguns irão se estabelecer.

Com o crescimento exponencial desses serviços, um modelo híbrido no qual o espectador opte por assinar o pacote ou alugar um filme ou série deve ser mais comum do que a simples assinatura. Também deverá crescer a venda de espaço publicitário. Embora hoje seja tabu, a receita de propaganda será inevitável até para viabilizar as produções.



Atualmente, vivemos uma era de ouro do streaming, com os serviços investindo milhões em produção. Mas, chegará um momento em que só assinatura não irá bancar os custos. E mesmo com a entrada do dinheiro da propaganda, o ritmo de produção deve diminuir (em comparação com o atual). Tais serviços devem seguir o modelo atual dos grandes estúdios, investindo em algumas poucas produções próprias e comprando uma penca de filmes produzidos por produtores independentes que colocaram uma grana no projeto.

Os serviços de streaming serão os grandes estúdios do futuro – assim como os grandes estúdios de hoje se tornarão os grandes serviços de streaming do futuro. A produção independente continuará bancando suas produções e vendendo seus filmes – mas um mercado consumidor maior. Aqueles filmes medianos tendem a ficar limitados aos streamings. Já os blockbusters…

Os blockbusters como conhecemos hoje só terão condições de sobreviver se ainda existir a janela de exibição. Tais filmes ganham muito nas salas de cinema. Os grandes estúdios até que tentaram na pandemia vender o aluguel premium, mas sentiram resistência. O ponto: serviços de streaming que vivam só de assinatura e propaganda não terão condições de produzir a quantidade de blockbusters que vemos hoje – mesmo que surjam a assinatura premium para fugir da propaganda. Pensem na quantidade de superproduções feitas exclusivamente para televisão por assinatura? A lógica é a mesma: se depender apenas de assinatura e propaganda, as superproduções irão se tornar mais raros. Por isto, é pouco provável que uma estratégia como a da Warner se mantenha.


Mega produções só se manterão de três formas: se ainda existir a janela de exibição, fazendo o público ir ao cinema, se convencerem as pessoas a alugarem pelo on demand, ou se tornando um artigo de luxo, que os serviços de streaming lançam de vez em quando – basta fazer um levantamento do orçamento dos filmes lançados pela NETFLIX para entender o modelo.

O ano de 2021 continuará a ser de testes para a indústria. Como disse no começo, coisas que levariam anos foram precipitadas. Tudo que falei aqui poder ser completamente diferente, a depender a resposta financeira. Mesmo assim, aposto que o futuro do mundo do cinema será de afrouxamento da janela de exibição, de modelos híbridos no streaming e venda de espaço publicitário e de unificação da produção de conteúdo e da sua distribuição via internet.

Será como um retornar ao sistema de estúdio da Era de Ouro de Hollywood. Nela, os estúdios eram donos das principais redes exibidoras e vendiam pacotes de filmes para as redes independentes. Em 1947, 95% da renda dos seis principais estúdios vinha da bilheteria – o merchandising ainda não havia sido descoberto. Em 1948, a Suprema Corte dos Estados Unidos proibiu que os estúdios fossem donos das redes exibidoras e vendessem os pacotes de filmes. Ou seja, existe precedente… Não se assustem se, no futuro, depois de todos os grandes estúdios terem estabelecidos seus serviços de streaming, a Suprema Corte mande as NETFLIXs do amanhã separarem produção e distribuição de conteúdo.

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