THE WOLF OF WALL STREET

A experiência de assistir a O Lobo de Wall Street, que estreia na sexta (24/1), é bastante marcante para quem acompanhou o trabalho do diretor Martin Scorsese ao longo dos anos. Sua mais nova obra o encontra muito próximo das agruras de seu início de carreira, dos excessos que o tornaram uma voz estridente no cinema norte-americano, de tal modo que parece até que o diretor se embriagou com a obscenidade do material e se perdeu do requinte que exibiu nos filmes que lançou nos últimos anos. No entanto, não há extravagância, exagero ou troça que oculte o domínio que o cineasta continua tendo sobre a narrativa cinematográfica.

THE WOLF OF WALL STREET

O centro da trama é Jordan Belfort, indivíduo real interpretado por um destemido Leonardo DiCaprio. Como um jovem ambicioso, Jordan começou na profissão de corretor de ações de forma acidentada, mas não demorou para que seu inalcançável anseio o fizesse se destacar na área. Não exatamente por suas inegáveis competência ou dedicação, mas sim por sua falta de escrúpulos. Operando à sombra da toda poderosa máquina do mercado de ações que é Wall Street, ele não tardou para se tornar uma figura tão infame quanto magnética para aspirantes a corretores. Com sua firma Stratton Oakmont e um time de funcionários igualmente ferinos, ele advoga uma vida dominada pela ostentação.

Entre sua riqueza desavergonhada e uma completa esbórnia de drogas e sexo, Jordan encontra tempo para cultivar uma amizade com seu sócio Donnie (Jonah Hill), arranjar uma bela esposa, Naomi (Margot Robbie), e lidar com o agente do FBI Patrick Denham (Kyle Chandler), que fareja de perto suas ações ilegais. Tudo isso com uma narração propagandística e nem um pouco apologética do próprio protagonista. Ele inicia a história com aproximadamente 20 anos de idade, mas suas ações e posturas mostram que ele se mantém um adolescente em diversos aspectos. O primeiro passo para apreciar a habilidade de Scorsese é notar como essa disparidade de comportamento e idade é transportada do roteiro de Terence Winter (adaptado do livro do próprio Belfort) para a tela.

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O Lobo de Wall Street foto 2

Não se trata de um coming-of-age ou uma história de formação de maneira alguma; a faceta juvenil do personagem é muito mais básica. Se há um momento “formativo” na trama, é um encontro que ocorre logo no início da projeção, com Mark Hanna (Matthew McConaughey), seu primeiro chefe. E não se trata sequer de um diálogo inspirador tradicional, pois Mark usa um viés fortemente profissional para apresentar a Jordan o caráter que ele acabará adotando. Em suma, o homem ensina o protagonista a abandonar qualquer escrúpulo para galgar sua ascensão como corretor de ações e decolar a caminho da fortuna. E todo o roteiro acompanhará os desdobramentos desse conselho, que, não por acaso, inclui regras bastante claras sobre sexo e drogas: abusar de ambos.

Não há uma cena particular que exprima melhor que outra essa visão escrachada da adolescência extemporânea. Exemplos abundam. Alguns são puramente gracejos, como a brincadeira vingativa de Jordan quando a esposa cogita uma greve sexual; outros, como a transa de 11 segundos, são referências bem diretas à inexperiência da juventude; mas as que representam momentos de virada da narrativa talvez sejam as mais fantásticas. Um momento em especial se destaca não apenas por ser hilário, mas por lembrar o tipo de premissa que Se Beber, Não Case! popularizou há uns poucos anos. Estão lá as crianças adultas, perdidas nos excessos de uma farra épica, e um objetivo, aparentemente impossível de alcançar, que carrega preocupações típicas da maturidade. Esse tipo de conflito é um grande símbolo do curto-circuito entre a inconsequência de um jovem e a responsabilidade da qual depende toda a vida de um adulto e dos à sua volta.

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Igualmente significativa para explorar a imatura soberba de Jordan é a narração sobre sua própria vida, um recurso multifacetado que enriquece o filme em várias frentes. A pedância escrachada com a qual DiCaprio exibe sua fortuna, seus bens e seus luxos quebra a todo momento o possível glamour de suas conquistas. Em um mísero gesto – Jordan apresenta a casa com um copo de suco de laranja na mão, sai pela porta e o atira para trás –, fica manifesto o maior orgulho do personagem: a liberdade para abraçar a desordem. Em suma, sua atitude, perfeitamente explorada pelos solilóquios de ostentação, é a indulgência suprema de se permitir ser um jovem irresponsável – conquistada pelo dinheiro.

A moralidade de Jordan nunca é questionada, pois não existe. O roteiro faz manobras brilhantes pelos labirínticos detalhes das falcatruas do protagonista: quando começa a citar tecnicalidades, ele simplesmente se detém para destacar que, sim, todo aquele enriquecimento e crescimento foi ilegal. Por isso é impossível concordar com quem vê uma glorificação daquelas atitudes criminosas. Winter, DiCaprio e Scorsese têm a sagacidade de evitar as águas turvas das operações e tecnicalidades da firma de Belfort, buscando, ao invés disso, expor sem rodeios as pérolas da imoralidade.

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E uma parte curiosa é como os diálogos e discursos (incluindo a narração) evocam aqui e ali imagens gloriosas para abordar as fraudes e os ganhos ilícitos. Em certo momento, Jordan fala com seus funcionários como um general a seu pelotão. Em outro, menciona as percepções de visionários quando tais ideias são fruto de intoxicação ferrada. Mais excepcional é como o monólogo dá uma reviravolta quando o protagonista aparece em uma propaganda de sua própria palestra motivacional, reforçando a artificialidade ensaiada, incômoda de todo aquele exibicionismo. A cena que conclui o filme é um final perfeito porque vira do avesso toda a jornada de imoralidade e charlatanismo retratada ao longo da história, e reforça exatamente qual foi a fonte de riqueza e ruína do protagonista, sua característica distintiva perante a população em geral: uma absoluta e monstruosa falta de caráter.

Talvez a maior prova do domínio de Scorsese sejam os momentos em que o filme se mostra esteticamente instável. Muitas dessas cenas irregulares são diálogos prolongados de forma naturalista e muito distinta da narrativa histriônica que domina o filme. Os papos furados e os conflitos estendidos, embora sobressalentes, são encenados com tal precisão que não resta dúvida que o diretor tem uma visão cristalina da obra. O melhor exemplo é o longo diálogo de Jordan com o agente Denham, retratado com precisa neutralidade para, só no fim, expor as intenções ardilosas do vigarista. No entanto, é difícil encontrar um momento sequer em que o diretor não acerta na mosca o tom da cena.

Não é surpresa ver a perícia com que Martin Scorsese dirige um filme tão estilizado e escandaloso, nem que seu foco seja basicamente um homem viciado no caos. Desde seus trabalhos mais crus e brutos, o diretor já tinha controle notável sobre a história que estava contando através dos mais conflituosos sons e imagens. É sempre um prazer ver como essa capacidade, tão afiada quanto nunca, evolui e se transforma em novas, grandiosas obras.

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