Longa teve papel fundamental na consolidação do gênero em solo nipônico

Apesar de remontar ao século XIX, o cinema japonês viu seu início de fato a partir do fim da Segunda Guerra Mundial. Antes disso, muitas das obras produzidas no país eram majoritariamente peças de propaganda (principalmente quando a guerra começou), adulando o imperador ou os projetos expansionistas do país. Mesmo assim, alguns dos primeiros estúdios começavam a surgir.

Em concomitante, os primeiros expoentes do cinema japonês também iniciavam um processo de adaptação à nova arte. Nos anos 20, por exemplo, Masahiro Makino lançou sua série de filmes Roningai sobre um samurai ronin. Já nos anos 30 Yasujiro Ozu, um dos grandes cineastas do Japão de todos os tempos, apresentava suas primeiras narrativas sobre o estilo de vida cotidiano na modernidade.

Passada a guerra, o país viu florescer uma nova era do audiovisual conduzida por nomes como Akira Kurosawa, o já mencionado Yasujiro Ozu e Kaneto Shindô. Tendo começado sua carreira na década de 50, muitas das primeiras produções assinadas por Shindô eram dramas ambientados no Japão moderno tais como Lucky Dragon No. 5 (que aborda os efeitos nocivos da contaminação nuclear) e The Naked Island.



Desde “The Naked Island” que Shindo demonstra domínio sobre o uso do preto e branco

A produção de Onibaba: A Mulher Demônio (1964) começou baseada em uma antiga lenda budista no qual uma mãe se utilizava de uma máscara para assustar a própria filha de modo que ela fosse ao templo rezar. Suas ações, no entanto, não saem sem punição e a referida máscara fica presa ao seu rosto causando uma dor insuportável sempre que alguém tentava tirar.

A trama do filme não segue um caminho muito diferente; ambientada no Japão do século XIV (em meio a uma guerra civil) logo de cara é apresentada a dupla de protagonistas vividas por Nobuko Otowa (um dos grandes nomes do cinema japonês e antiga colaboradora de Shindô) e Jitsuko Yoshimura.

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Juntas, elas sobrevivem atacando samurais que adentram a vegetação de juncos em que elas vivem e, após roubarem dos cadáveres suas armas e vestimentas para trocar por comida, um velho conhecido do filho da personagem de Otawa volta para suas vidas.

 



É a percepção de Otowa (à direita) acerca de sua dependência da nora que a força a usar a máscara

Seu retorno inesperado, então, acaba despertando o interesse da personagem de Yoshimura, cujo marido (filho de sua parceira de crime) teria morrido na guerra. Com a possibilidade de que a jovem a abandone para ficar com o homem, sua sogra começa a ficar aterrorizada com a solidão.

Tanto pela ambientação quanto pelo número limitado de nomes no elenco, Onibaba: A Mulher Demônio constantemente é considerado muito mais um drama de época do que qualquer outra coisa, o que de fato o é por boa parte do tempo de duração. Entretanto, a partir do terceiro ato o filme concede boa atenção à paranoia da personagem de Otawa.

Inicialmente se projetando como um senso de proteção, o sentimento acaba evoluindo para uma tentativa de coerção psicológica, não muito diferente do que obras do horror sobre isolamento tratariam décadas depois. Outro elemento a se tornar recorrente do gênero tempos depois, o fator sobrenatural, também é apresentado aqui como ferramenta para a construção do terror.

Otowa aterroriza Yoshimura.

A máscara utilizada por uma das personagens para aterrorizar a nora não demora a revelar certas qualidades mágicas que são utilizadas para o suspense, principalmente quando ela fica presa ao rosto do usuário. O uso de assombrações e magia é elemento corriqueiro no cinema de terror japonês até os dias atuais, mas aqui ele encontrou um dos seus primeiros usos.

É uma peça importante dessa indústria que funciona tanto como objeto de estudo sobre o gênero durante o período do renascimento do cinema no Japão (anos 50 e 60) como uma peça de entretenimento, visto que mesmo sendo preto e branco muitas cenas lá utilizam de maneira inteligente e bela o contraste de escuridão com luz.

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