Recentemente foi anunciado que os jovens Jacob Tremblay, de O Quarto de Jack (2015) e Extraordinário (2017), e Taylour Paige, de A Voz Suprema do Blues (2020), entraram para o elenco do remake de O Vingador Tóxico, clássico trash independente lançado em 1984. Com os direitos da história e personagens comprados pela Legendary Pictures, mesma produtora responsável pelo sucesso Godizlla vs Kong (2021), o novo filme do Vingador Tóxico assume formas de superprodução e traz o talentoso Peter Dinklage (Game of Thrones e Eu Me Importo) encabeçando o elenco no papel do protagonista (embora ainda não tenha sido confirmado oficialmente).

À frente do projeto, no roteiro e direção, Macon Blair tem no currículo o comando do sucesso independente de Sundance Já Não Me Sinto em Casa Neste Mundo (2017), comprado pela Netflix, que possui muito do espírito vigilante, de se fazer justiça com as próprias mãos, que é a espinha dorsal em torno das origens de Vingador Tóxico.

 

O Vingador Tóxico nasceu da mente do cineasta Lloyd Kaufman enquanto trabalhava como parte da equipe de produção do sucesso vencedor do Oscar Rocky – Um Lutador (1976), com Sylvester Stallone. Durante o tempo em que passou nos bastidores da produção, Kaufman arquitetou um filme de terror que se passaria no mesmo ambiente, ou seja, numa academia. A ideia do cineasta, no entanto, era ainda mais ambiciosa do que apenas criar um filme, Kaufman planejava construir um império, seu próprio universo cinematográfico. O primeiro passo foi inaugurar sua produtora, a Troma Entertainment, que abria as portas dez anos antes, em 1974.



Kaufman já havia dirigido 14 filmes antes de criar O Vingador Tóxico, todas produções B focadas em sexo e conteúdo adulto. Assim, seu novo projeto surgia como divisor de águas em sua carreira, atraindo uma legião de fãs que continuam a chegar a cada ano que passa. De fato, O Vingador Tóxico se tornou um dos filmes que ajudou a definir as produções cult de nascença para os novos tempos – obras tão insanas e ultrajantes, mas também criativas, que se tornam um prato cheio para os aficionados pelo cinema de gênero.

 

A aposta de Kaufman no projeto foi alta, além de servir como diretor, roteirista e produtor da obra, o cineasta centrava a história em “Tromaville”, a cidade fictícia que leva o nome de sua produtora, usando metalinguagem e misturando realidade e fantasia. Propositalmente ou acidentalmente, o “herói” protagonista do filme se tornaria o símbolo da empresa, algo como o Mickey da Disney, o Homem-Aranha da Marvel ou o Superman da DC. O Vingador Tóxico serviu para colocar a Troma no mapa, que continuou a produzir filmes de terror B à toque de caixa, se tornando referência no subgênero.



O Vingador Tóxico estreou em Nova York em maio de 1984 e depois seguiu para a França, onde era lançado um ano depois. Em seu país de origem, os EUA, entrava em grande circuito no dia 11 de abril de 1986. O orçamento estimado da produção foi algo em torno de US$475 mil, rendendo em bilheteria um pouco menos de seu dobro, com US$800 mil arrecadados nos cinemas onde foi exibido. Sem nomes conhecidos à frente ou atrás das câmeras, o filme precisou ser vendido unicamente por seu valor de entretenimento pra lá de alucinado, transitando entre os gêneros do terror, exploitation e ação de super-heróis. Bem, ou quase sem rostos conhecidos, porque segundo relatos, Marisa Tomei (atriz vencedora do Oscar) teria feito seu debute nas telas numa ponta não creditada no longa – embora exista um debate sobre sua presença, já que ninguém conseguiu vislumbra-la em cena ainda.

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Na trama, o nerd boa-praça, mas abobalhado, Melvin Junko trabalha na manutenção de uma academia num clube, onde faz serviços manuais como a limpeza do local e troca de toalhas. Seu destino começa a ser traçado quando seu caminho cruza com o de alguns delinquentes. E se a personalidade do protagonista Melvin é completamente estereotipada como o nerd exageradamente introvertido e bobo, seus antagonistas são caricatos até a medula e se divertem com as crueldades mais inconcebíveis. A proposta aqui é exatamente pelo exagero, afinal o clima pensado é o de histórias em quadrinhos de heróis – o filme pretende subverter o estilo. Porém, sem esquecer o outro gênero no qual está inserido, o terror, Kaufman pega pesadíssimo nas cenas explícitas, com trechos de fazer cair o queixo, mesmo que o realismo do gore passe longe devido ao orçamento restrito.

Para termos uma ideia, o grupo de delinquentes que são os principais antagonistas do filme, se divertem atropelando adolescentes nas ruas, voltando para se certificaram que estejam mortos ao passar mais uma vez com o carro por cima deles. Não satisfeitos, as mulheres do grupo ainda saem do veículo para fotografar (em polaroid) o feito. Justamente por momentos assim que O Vingador Tóxico sofreu inúmeros cortes da censura em alguns países onde foi exibido. Ah sim, sem esquecer a nudez constante e atos libidinosos.

Com bandidos tão cruéis, Melvin não tinha a mínima chance. Logo, após uma constante de bullying e humilhações, o protagonista é despachado ao ser arremessado da janela do trabalho, caindo diretamente num tonel de resíduos tóxicos. Com a pele totalmente queimada, extremamente deformado, Melvin sofre uma metamorfose, aumenta seus músculos, sua estatura e muda suas feições para uma mistura entre Sloth de Os Goonies, uma batata e o Jason de Sexta-Feira 13. A transição ocorre também nos bastidores, com Melvin deixando de ser interpretado por sua versão “humana”, o ator Mark Torgl, para sua versão turbinada nas formas de Mitch Cohen (com sua voz provida por Kenneth Kessler).



Monstruoso, mas extremamente forte, incansável e imparável, Melvin se torna o vingador Tóxico, também conhecido como Toxie, usando seus novos talentos para combater o crime na cidade, punindo com as próprias mãos toda espécie de bandido, os matando de formas criativas e explícitas, além de buscar sua própria vingança pessoal eliminando um a um os membros da gangue responsável por seu encontro quase fatal com a morte. Curiosamente, antes do título muito popular, o filme quase se chamou “Health Club Horror”, algo como “Terror na Academia”, assim como o protagonista teria a alcunha de Monstro Herói. Esse é o motivo pelo qual em momento algum do filme o protagonista é referenciado pelo título do longa, ao qual seria depois associado.

Aproveitando o hype underground gerado pela produção, Kaufman como bom marqueteiro que é, resolveu surfar mais um pouco na popularidade de seu querido e nojento personagem, tirando do papel cinco anos depois duas continuações: O Vingador Tóxico II (1989) e O Vingador Tóxico III – A Última Tentação de Toxie (1989), este último brincando com o título do polêmico filme bíblico de Martin Scorsese, A Última Tentação de Cristo (1988), lançado no ano anterior.

Basta assistir a uma entrevista com Lloyd Kaufman para perceber o sujeito super bem humorado, criativo, inteligente e dono de sacadas rápidas que ele é. No segundo filme, Toxie viaja para o Japão e por lá combate executivos de uma corporação maligna. Ah sim, muito do mote das continuações (e também do original) consiste no herói enfrentando empresas poluentes – em parte responsáveis por sua criação, devido ao material tóxico. Ou seja, apesar de tosco, a cabeça e o coração de Kaufman e do filme estão no lugar certo. No terceiro filme, como se as coisas não pudessem ficar ainda mais ridículas, Toxie enfrenta o diabo em pessoa, enquanto cai na tentação de trabalhar para uma grande corporação.

Ao adentrar a década de 1990, o personagem já estava entranhado no subconsciente cult coletivo. Assim, seguindo exemplo de filmes violentos (Rambo e Robocop) ou sacanas (Loucademia de Polícia), materiais impróprios para os menores de idade, O Vingador Tóxico ganhava seu próprio desenho animado para as crianças. Toxic Crusaders estreou em 1991, tentando pegar carona na popularidade das Tartarugas Ninja, fenômeno da época. Para isso, Toxie agora tinha a cor verde e sua própria turma de amigos mutantes no combate a vilões poluidores do meio ambiente. Ou seja, era um misto de Capitão Planeta com mutantes modificados por resquícios tóxicos no melhor estilo das tartarugas guerreiras citadas.


Apesar de ter durado apenas uma temporada com 13 episódios, Toxic Crusaders, assim como sua contraparte em live action, viveu para se tornar cult para as crianças, derivando seu próprio vídeo game em diversas plataformas e action figures (os famosos bonecos para os meninos). Muitas crianças inclusive jogavam os games e brincavam com os brinquedos sem sequer ter ouvido falar do cartoon e muito menos os filmes ultraviolentos e repletos de nudez e sexo.

A última aparição do personagem foi no ano 2000, quando Kaufman tirava seu produto dos anos 90 para um quarto filme intitulado Citizen Toxie (aqui a brincadeira era com o atemporal Cidadão Kane). A produção é um pouquinho melhor do que a dos anos 80, mas não consegue transcender suas origens trash. É inegável que Kaufman possui a vontade e a criatividade, mas lhe faltam os recursos. Ou faltavam. Porque em breve (quem sabe ainda em 2021), O Vingador Tóxico ganhará pela primeira vez uma produção de alto nível, com bons atores e um diretor badalado – que também assina o roteiro. Esta será a primeira vez que Kaufman não estará cem por cento no comando de um filme do personagem que criou com muito carinho, se atendo à função de produtor.

Segundo Lloyd Kaufman, Macon Blair, o novo diretor, conhece a Troma melhor do que ninguém e melhor que ele mesmo. É a chance de uma visão jovem e mais dinâmica servir para remodelar o personagem aos novos tempos. Tudo o que desejamos, sempre, é que não perca sua essência, suas características marcantes e seu forte teor incorreto, violento e libertino.

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