Desde a pandemia, o mundo se viu de frente com a oportunidade cada vez mais presente no seu cotidiano de assistir a filmes de todos os lugares do mundo ao alcance de um clique, no sofá de casa, por conta dos streamings que desembarcaram no Brasil com toda a força de um conteúdo diverso. Essas plataformas já existiam, mas, durante o período de reclusão social, esse mercado explodiu. Esse fato mudou completamente a relação do público com a experiência de assistir a um filme.
Não veio o Oscar, mas o cinema brasileiro continua com o molho
As salas de cinema em todo Brasil ainda sofrem com semanas de baixo público e aguardam ansiosamente o próximo grande blockbuster para vender pipocas – onde realmente está a maior parte do lucro – e conseguir uma semana rentável. Quando chegam filmes como Michael ou O Diabo Veste Prada 2, que por acaso entraram ao mesmo tempo no circuito, tudo parece estar bem. A questão é: quando não tem um filme com força de marketing, logo surge a pergunta: o que fazer para poder continuar mantendo cheias as salas de cinema?
Antes de reacender uma ideia que gostaria de explorar neste artigo, é importante mencionar uma questão: não sei se falta algum tipo de coragem para criar inovações nas programações – o circuito exibidor parece engessado –, mas um fato é certo: a probabilidade de você chegar a uma sala de cinema durante a semana, por exemplo, e se deparar com poucos lugares ocupados é bastante grande.
Somente exibir um filme parece uma ideia obsoleta. Por incrível que pareça, hoje é preciso oferecer complementos como debates, pré-estreias envolventes ou algum tipo de frescor capaz de convencer o público a sair de sua casa, gastar dinheiro com ingresso – que anda caríssimos -, estacionamento, alimentação e viver a experiência dentro de uma sala de cinema.

Em meados da década de 1970, existia a Lei do Curta, uma iniciativa que aproximava os curtas-metragens do circuito exibidor brasileiro. Com o tempo, essa Lei caiu em desuso e virou uma política cultural completamente abandonada, que até hoje é pauta para argumentações e opiniões bem diferentes. Há quem é a favor e há quem é contra.
Independente disso, pensem no seguinte: não seria legal exibir curtas-metragens brasileiros antes dos longas-metragens em sessões regulares do circuito exibidor nacional? O universo dos curta-metragistas, a cada ano que passa, revela obras cada vez mais relevantes que conseguem, em pouco tempo, reunir um leque importante de reflexões e retratar as muitas realidades de nosso país.
Crítica | ‘Arame Farpado’ – Um discurso afiado sobre questões sociais e relações humanas
Atualmente, os curtas acabam sobrevivendo por meio dos ótimos festivais brasileiros que temos em nosso país ou de alguma sessão especial. Geralmente, são o primeiro projeto de todo novo cineasta, algo fundamental para a renovação da nossa cadeia audiovisual. Tenho certeza de que muitas dessas obras teriam espaço – e fariam sucesso – em uma espécie de ‘sessão dobradinha’, uma ação na programação reunindo o combo: um curta e um longa.
Eu sei que isso está bem distante. O mercado exibidor, com seu engessamento criativo, muito provavelmente jamais caminhará por essa ideia novamente. Falta curadoria, principalmente. Grande parte das programações desse mercado parece tomar ações no modo robótico, confirmando com meses de antecedência os mais badalados blockbusters e deixando grandes obras independentes fora de qualquer possibilidade de exibição, torcendo para algum ‘encaixe’. Basta reparar que vários filmes trocam de data porque acabam ficando reféns do desempenho de um blockbuster nas bilheterias.
Mas o sonho de quem ama curtas-metragens continua vivo. Quem sabe, algum dia, alguém pense fora da caixa e consiga trazer essa – e outras inovações – para um mercado exibidor ainda carente de ideias brilhantes.


