Pode parecer brincadeira, mas foi confirmado que Os Cavaleiros do Zodíaco vai mesmo ganhar um filme live action e com um elenco de peso. O longa vai ser dirigido por Tomasz Baginski, produtor-executivo de The Witcher, e se chamará Saint Seiya. J.J. Jr. Mackenyu, filho do saudoso Sonny Chiba, será o Seiya de Pégaso. Madison Iseman será a coprotagonista, interpretando a Athena. Mas o que chama a atenção são os nomes de Sean Bean, Famke Janssen, Nick Stahl, Diego Tinoco e Mark Dacascos no elenco. E pegando a onda de empolgação da galera, vamos relembrar aqui o clássico anime dos Cavaleiros que era exibido na Manchete e falar sobre como foi aquele fenômeno. Até porque, sempre exibiram animações japonesas no Brasil, desde a década de 60, Oitavo Homem já passava na extinta TV Tupi. Só que não havia e nem se sabia dessa distinção. Eram desenhos animados iguais a qualquer outro.

Tudo mudou a partir de setembro de 1994 com a chegada dos Cavaleiros do Zodíaco. Aliás, não foi só isso que mudou por aqui depois dos Defensores de Athena, grupos de fãs começaram a organizar encontros, um acontecimento único aconteceu e com o tempo as convenções de cultura japonesa foram criadas. Com isso uma nova e gigantesca perspectiva de mercado se abriu, e até hoje a fonte parece ser inesgotável, mesmo com a TV aberta não dando mais tanta bola para isso, os serviços de streaming supriram essa lacuna. Sem falar nos portais e blogs que disponibilizam diversos animes e mangás diariamente. Mas antes da gente chegar nesse ponto, muito aconteceu, principalmente no que envolve Os Cavaleiros do Zodíaco – até porque tudo meio que convergiu para que a coisa funcionasse.

A Santoy, que era a licenciadora do anime nas américas, já havia oferecido o material para canais como Globo, SBT e Band, que recusaram de imediato. E não porque o pacote era caro ou algo do tipo, muito pelo contrário, Os Cavaleiros do Zodíaco seria disponibilizado na verdade sem nenhum custo, o que a Santoy e a Bandai pediam era que apenas exibissem a propaganda dos seus produtos. Como os bonecos dos Cavaleiros, por exemplo.



Porém depois das principais emissoras recusarem, restou apenas a Rede Manchete, que incialmente não tinha interesse em exibir o material. Na época, o chefe do departamento de audiovisual do canal, Eduardo Miranda, que também era responsável por analisar a grade de programação desse tipo de, diz que foi chamado junto aos demais executivos da Manchete e o licenciador da Santoy para assistir algumas cenas desse tal anime. Só que todos ali ficaram chocados pelo alto nível de violência aparentemente gratuita. O estúdio reuniu algumas cenas de lutas, muitas delas cheias de sangue e com bastante impacto gráfico. Miranda fala que a gota d´água foi o momento em que Shiryu corta os pulsos e banha as armaduras com sangue. Ainda atordoados, ele e os demais representantes da Manchete falaram que não tinham interesse, pois estavam exibindo uma programação mais leve, com base nos desenhos da Hanna Barbera, além dos tokusatsus que era algo habitual desde a geração anterior.

O licenciador achou um absurdo, disse que o anime estava fazendo sucesso no mundo todo e que era loucura ele recusar a proposta. Eduardo então pediu para que eles disponibilizassem o desenho, pois assim podia avaliar melhor. E mesmo com muito má vontade, a Santoy mandou o vídeo e o próprio Eduardo Miranda, que hoje é conhecido como o pai dos animes no Brasil, fala que finalmente percebeu a tamanha qualidade e inovação que aquilo tinha na época. Pouco tempo depois de estrear, Os Cavaleiros do Zodíaco basicamente triplicou a audiência da Manchete. Em tempos áureos, conseguiam bater 16 pontos no IBOPE, ultrapassando o SBT e rivalizando com a Globo. A própria Globo não dava nenhuma bola para nada que não fosse da casa, mas a presença de Saint Seiya foi tão forte que conseguiu romper essa barreira e no programa da Xuxa a gente via a dupla Larissa e William, os garotos que cantavam a abertura do desenho, se apresentando acompanhados por uns sujeitos vestidos como os Cavaleiros.

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Obviamente a ideia da Santoy de difundir seus produtos aqui também deu certo. Quer dizer, deu muito certo. O orçamento que eles planejavam inicialmente na verdade quadruplicou. Falam que no Natal de 1995, a Santoy fretou um avião Hercules para trazer mais mercadorias, já que as remeças que fizeram para o Brasil haviam acabado em uma semana e várias pessoas estavam encomendado outras centenas de bonecos. Sim, os bonecos eram o carro chefe, mas mochilas, lancheiras, revistas, álbuns de figurinhas, jogos e artigos musicais eram vendidos a rodo.



Os Cavaleiros do Zodíaco foi uma produção também preponderante para os animes adentrarem de vez no Brasil. Depois deles a Manchete investiu nos clássicos Yu Yu Hakusho, Sailor Moon, Shurato. O SBT passou a exibir Dragon Ball, Guerreias Mágicas e Street Fighter Victory. A Globo mais tarde pegou Sakura Card Captors, Dragon Ball Z e Digimon. A Record ficou com Pokémon. A Band também com Dragon Ball Z e Bucky. Aliás, a Band protagonizou mais tarde o segundo estouro dos Cavaleiros, quando, em 2004, redublaram o antigo desenho e pegaram os episódios remasterizados. Todo mundo voltou a falar do anime e novos produtos voltaram a circular nas lojas.

Falando nisso, Saint Seiya não trouxe consigo só mais materiais, os executivos da tv perceberam que era preciso respeitar aquele tipo de mídia e muitas vezes dedicavam horários especiais para eles. As revistas de cultura pop cresceram no Brasil como nunca havia acontecido antes. A extinta revista Herói, por exemplo, é um veículo que deve muito aos Seiya e seus amigos. Vários outros mangás também passaram a ser publicados por aqui. Os fãs cresciam cada vez mais e queriam conferir novas obras. Aliás, outra categoria que passou a ser reconhecida e ter mais relevância na mídia após esse fenômeno dos Cavaleiros foram os dubladores. Figuras geralmente relegadas ao anonimato, mas que a partir daí começaram a ter fãs e serem chamados aos eventos. E tanto a dublagem de São Paulo, que eram geralmente responsáveis por esse tipo de produto, quanto a do Rio de Janeiro, que recebia mais filmes, reverenciam até hoje a importância dos Cavaleiros.

Antigamente as crianças e adolescentes do Brasil só falavam e respiravam esse desenho. Há histórias inacreditáveis contadas por produtores e editores das mais variadas empresas que trabalhavam com a marca. Existe um caso bizarro que ocorreu na época, inclusive o próprio Eduardo Miranda já falou a respeito dessa história – e quem viveu isso sabe que era comum cada moleque se auto intitular tal personagem. Com a chega dos signos então dos Cavaleiros de Ouro é que viviam dizendo que eram da casa de Leão, de Câncer, de Aquarius, só que todos na verdade eram de Virgem, se é que vocês me entendem…. Voltando à história maluca, um grupo de cinco garotos fugiram de um bairro daqui dizendo que iam encontrar Athena e chegaram a para em outro estado. É, os anos 90 foram bem doidos.

Mas qual era então o segredo para esse sucesso, será que o anime era mesmo isso tudo a nível de qualidade? O que podemos dizer hoje é que sim e não. Pois é, já peço desculpas aos fãs, eu também sou, mas não há como negar que CDZ impressionou como uma produção da época e que hoje muita coisa parece brega e melodramática. As tramas são muito repetitivas e os diálogos de uma grandiloquência demasiada. Ainda que para muita gente, tudo isso seja um charme. Por outro lado, é claro que há diversas qualidades, e muitas delas já são suficientes para justificar tal impacto por aqui. Foi a primeira experiência que a gente teve em relação a continuidade narrativa em desenhos animados.

Assim como nossos pais acompanhavam as novelas, a gente aguardava ansiosamente o desfecho dos próximos capítulos. Foi ali também que vimos personagens humanos, com várias emoções, chorando, sorrindo e lutando por um ideal. Aliás, as lutas por si só já eram suficientes boas para manter qualquer moleque preso na frente da tv. Jamais tinha se visto tanto sangue numa animação para a tv aberta. Mas sem duvidas o grande segredo dos Cavaleiros conquistar a gurizada era a ideia de usar amizade para vencer qualquer obstáculo. Nesse sentido, não há como criticar Os Cavaleiros do Zodíaco. É de longe o aspecto mais bacana da série e que acabou sendo algo recorrente em diversas outras produções do estilo.



Felizmente, além das já conhecidas sagas clássicas tiradas do mangá de Masami Kurumada, existem coisas fantásticas e totalmente novas como The Lost Canvas. Da mesma maneira, é preciso destacar aqui o mérito do saudoso Shingo Araki, por dar outra vida a produção. O traço original de Kurumada nos mangás era muito inferior ao que as pessoas conheceram no anime, esse sim assinado por Araki. Ele não precisou mudar o conceito do original, como fizeram em Lost Canvas, só remodelou e deu um acabamento. É outro nível. A trama do anime, apesar de se delongar, é muito mais plausível que a ideia do mangá, que trazia Mitsu Masakido como pai de 100 crianças que iriam treinar em várias partes do mundo e só alguns sobreviveriam. A inserção da fase de Asgard, completamente inédita em relação ao material original, foi um acerto e tanto também. Outro ponto em que o anime leva vantagem sobre o mangá é no início da saga de Hades, especificamente nos 13 primeiros episódios. O ápice em qualidade de trama e estética que Os Cavaleiros do Zodíaco já chegaram. Infelizmente as partes do Inferno e principalmente dos Elísios foram sabotadas pelo próprio Kurumada. Mas isso é uma outra história.

Foram muitos os spin-offs criados ao longo do tempo. Tivemos também Os Cavaleiros do Zodíaco Ômega, que trouxe de volta a Toei como o estúdio encarregado da série. Assim como os mangás da Saga G que trazia Aioria como personagem principal. A continuação oficial Saint Seiya: Next Dimension, escrita pelo próprio Kurumada, que mescla o futuro pós Hades com o que aconteceu nas Guerras Santas. Já Soul of Gold tem uma história totalmente focada nos Cavaleiros de Ouro e passada em Asgard. Não é lá grande coisa, mas vale conferir. O mesmo acontece com o anime de Saint Sho, que traz as aventuras de algumas guerreiras chamadas de Saintias, se passando também em paralelo a saga clássica. Uma adaptação livre focada em personagens femininas. O desenho em CG da Netflix foi rechaçado, mas apesar do visual risível, a história é legal. E o filme A Lenda do Santuário conseguiu levar uns marmanjos para o cinema. Muita gente ainda acompanha essas produções por aqui, não à toa teremos agora esse novo filme de maiores proporções. O bom é que se não der certo, daremos boas risadas.

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