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Crítica | O Lar das Crianças Peculiares

Os X-Men de Tim Burton

Sejamos sinceros, há certo tempo o diretor Tim Burton vem errando a mão em suas superproduções. Marte Ataca (1996), Planeta dos Macacos (2001) e mais recentemente Alice no País das Maravilhas (2010) e Sombras da Noite (2012) são exemplos claros disso. Grandes Olhos (2014) prometia ser o novo filme sério do cineasta, um Ed Wood (1994) ou Peixe Grande (2003), dois favoritos em sua filmografia, mas o resultado ficou bem abaixo.

Nada disso, no entanto, desmerece um dos diretores mais criativos visualmente da história do cinema. O fato apenas deixa os especialistas levemente ressabiados no que diz respeito a um novo projeto envolvendo o nome de Burton. Bem, não precisam mais. O Lar das Crianças Peculiares pode não ser algo novo ou sequer especial, mas é o melhor trabalho do cineasta nesta nova década (sem levar em conta a animação Frankenweenie).

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Baseado no livro de Ransom Riggs (que ainda guarda mais três exemplares literários nesta série), O Lar das Crianças Peculiares é uma fantasia infanto-juvenil que mistura desde Harry Potter até X-Men nos elementos de sua história. Além disso, o núcleo da obra é a conhecida jornada do cidadão ordinário, aqui o menino Jake (o ótimo Asa Butterfield), que descobre um novo mundo mágico, cheio de possibilidades, no qual, não por menos, será “o escolhido”, a figura libertadora que fará toda a diferença.

Jake é um menino comum, que trabalha numa grande loja de departamentos, até que em uma fatídica noite sua vida muda para sempre. Tal noite, infelizmente, vem junto com a morte de seu avô (Terence Stamp), figura que sempre teve como sinônimo de histórias fantásticas, todas desacreditadas por seus pais (Chris O´Dowd e Kim Dickens). Este trecho do filme é o que mais se assemelha a um filme de Tim Burton, com momentos sombrios o suficiente para assustar os pequeninos. Logo, o menino, ao lado do pai, parte para o local onde seu avô afirmava ter passado a infância: o citado lar para crianças do título.

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O Lar das Crianças Peculiares tem muitas pitadas de elementos que constroem a fantasia, como um local onde ninguém envelhece (inspirado pela Terra do Nunca de Peter Pan), viagem no tempo, fendas escondidas para outras dimensões, monstros, criaturas, além de personagens, quase todos eles inspirados por outros ícones clássicos, como Frankenstein, por exemplo. Felizmente, tantos itens mesclados não causam confusão e o filme faz um trabalho bem satisfatório ao explorar cada detalhe deste universo, colocando o público (e não apenas os fãs do livro) a par das regras estabelecidas e do que está ocorrendo.

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A belíssima Eva Green vive a personagem título, Alma Peregrine, a tutora das crianças e figura materna. A francesa a interpreta com certo vigor, mas comprometimento maior vem de Samuel L. Jackson, no papel do vilão Barron, que rouba todas as cenas, entregando as melhores tiradas e sendo responsável pelos momentos de humor no longa. As crianças em si, e seus dons peculiares, também são um chamariz à parte. Uma menina superforte (que lembra a Maísa do SBT), outra que tem presas na nuca, uma que controla o fogo, outra o vento, um menino que cospe abelhas, um que projeta seus sonhos e um que dá vida a seres inanimados, todos possuem seu espaço de destaque no roteiro. Ah, sem esquecer os gêmeos creepy, que mais parecem saídos de um típico filme de terror.

O Lar das Crianças Peculiares acerta em cheio o alvo para os fãs de fantasia e este tipo de material. É engraçado, mantém um ritmo bom de aventura e não destoa no tom. A maior acusação que poderá receber é justamente não ter a cara de um filme de Tim Burton. Bem, em partes não, apesar dos personagens bizarros, estranhos e melancólicos estarem todos a postos. Não está perto das melhores produções assinadas pelo diretor, mas em um ano de blockbusters bem insatisfatórios, o novo trabalho do cineasta chega peculiarmente de forma sorrateira, se mostrando um espécime interessante.

Crítica | Chevalier: A Verdadeira História Nunca Contada – FASCINANTE jornada sobre um genial músico pouco lembrado dos tempos de Mozart e Maria Antonieta

Quando a maior maldade é nos convencer que não temos escolha. Nos tempos de Mozart e Maria Antonieta, nos prelúdios da revolução Revolução Francesa, um espetacular músico franco-caribenho luta contra o preconceito e consegue seu lugar na alta sociedade francesa se posicionando de forma impactante nas mudanças sociais de uma França à beira de mudanças. Exibido no Festival Internacional de Cinema de Toronto do ano passado, Chevalier: A Verdadeira História Nunca Contada mostra com maestria a história nunca contada desse exímio músico negro que escreveu sinfonias, concertos, óperas e marcou para sempre seu nome no cenário cultural europeu. A direção é assinada pelo ótimo Stephen Williams.

Na trama, conhecemos Joseph Bologne (Kelvin Harrison Jr.), nascido em Guadalupe, lugar que fica nas ilhas ao sul do mar do Caribe que pertence à França, filho de uma escrava e um senhor de terras que desde pequeno mostra sua vocação para música. Ele, sempre muito confiante e driblando o preconceito de muitos ao seu redor, consegue entrar na prestigiada Academia La Boessière onde desenvolve inúmeras habilidades virando um genial esgrimista, um gênio do violino. Os anos se passam e Joseph consegue grande destaque na alta sociedade francesa e em um determinado ponto, com um olhar crítico para tudo que acontece em uma Paris empolvorosa, escolhe seu lado na luta pelos direitos humanos.

A direção de Stephen Williams é primorosa. O cineasta com longa passagem no mundo dos seriados, dirigindo episódios de renomadas seriados como: Lost, Watchmen, Westworld, Bloodline apresenta sua contagiante narrativa através de detalhadas passagens de tempo na vida de Bologne. Suas dores, seus dilemas, suas angústias, seu grande amor, sua relação com a mãe, correm em paralelo com todo o contexto político dessa turbulenta época da história francesa que desagua em um clímax profundo, cheio de reflexões, um concerto em prol dos direitos humanos que ficou marcado na sua trajetória.

O contexto por aqui é fundamental para imersão do espectador, uma grande aula de história ao longo das pouco menos de duas horas de projeção é vista. Em 1789, o povo se revoltou contra a monarquia e principalmente contra a figura sempre controversa de sua rainha (no filme interpretada por Samara Weaving). A construção do protagonista nos mostra o todo de desse período, entre duelo de violinos, e pontos marcantes na vida do coroado Chevalier de Saint Georges. Sua relação com a mãe também é um dos pontos altos do filme. Ela que era propriedade de seu pai, com a morte desse, alforriada, é entregue a Joseph. Um diálogo emocionante entre mãe e filho, já no arco final diz muito sobre o que se escorre nas entrelinhas em uma época de muito preconceito.

Há uma importância gigante, cultural e social, dessa história ser contada. Quando Bonaparte apareceu no cenário político, anos após Antonieta, reestabeleceu a escravidão nas colônias francesas e por consequência proibiu Bolagne de se manifestar pelo seu ofício, fato que deixou grande parte da obra do artista cair aos poucos em esquecimento sendo somente redescoberta anos mais tarde. Que bom que existe o cinema, entre outras artes, que resgatam histórias que servem de inspiração e não deixam cair no esquecimento fatos importantes de outrora.

Crítica | Personal Shopper

A Insustentável Leveza do Ser

A última parceria entre o cineasta Olivier Assayas e a renovada Kristen Stewart (ainda alvo de certa hostilidade cinéfila, como DiCaprio no pós-Titanic) rendeu para a moça o prêmio César, o Oscar da França. Trata-se de Acima das Nuvens (2014), símbolo da mudança de direção na carreira da atriz, no qual Stewart interpretava a assistente de uma famosa estrela de cinema. No novo trabalho, Stewart mantém o emprego, no papel de um secretária de luxo (cujo cargo é o título do longa), e o endereço – o cenário é Paris.

Personal Shopper, no entanto, apesar das coincidências iniciais, guarda poucas semelhanças com a última colaboração da dupla. Este é declaradamente um filme de gênero, no caso um thriller / terror, mais refletido no cinema de gente como Brian De Palma e Dario Argento, por exemplo. A sinopse e prévias ludibriam os cinéfilos, fazendo-os esperar por um drama espiritual. E daí a confusão, seguida de falta de interesse. Personal Shopper é em seu núcleo uma história de fantasmas arrepiante, digna dos clássicos do subgênero, levemente vestido de cinema de arte – o que torna o sabor mais especial.

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Stewart interpreta Maureen, a “compradora pessoal” do título, cujo trabalho detesta. Ela cita que o emprego toma todo seu tempo, não deixando espaço para buscar algo realmente desejado. O namorado pede para que ela abandone tudo e vá viver com ele em outro país, mas ela ainda aguarda contato com o espírito do irmão gêmeo, falecido na cidade francesa. O espiritismo é um dos tópicos abordados aqui por Assayas desde o início e faz parte da ideologia de sua protagonista. Na primeira metade o diretor inclusive leva o tema com bastante seriedade, abordando cenários reais, entrevistas e pesquisas sobre o assunto.

Na segunda metade, Personal Shopper assume de vez as tintas do terror, banhando-se totalmente com elementos sobrenaturais. A imprevisibilidade do roteiro assinado pelo próprio diretor é um dos grandes chamarizes da obra. Assayas nos faz seguir sua protagonista de perto, sem saber para onde tamanho investimento irá nos levar. Apesar de não ser uma personagem propriamente interessante, Stewart está empenhada e a cria justamente com contornos de uma jovem meio perdida, com a qual fica fácil criar identificação. A entrega da atriz é tamanha que Stewart desempenha alguns momentos de nudez, demonstrando plena confiança em seu comandante.

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O novo filme de Assayas e Stewart pode ser tudo, menos desinteressante. A câmera do cineasta nos enfeitiça, fazendo-nos não desgrudar os olhos da tela. O conjunto entre fotografia, direção de arte, roteiro, direção e atuações é uníssono, nos emergindo completamente nesta trama. Algo parecido costuma acontecer nos filmes de Nicolas Winding-Refn, mesmo que após os créditos desmereçamos totalmente o assistido. O teor enigmático, de constante pesadelo, se faz muito presente em Personal Shopper, criando níveis de tensão absoluta e um suspense altíssimo, apesar da coerência abandonar o longa em variados momentos. Este é um exercício em estilo, técnica e domínio de gênero.

Assayas também brinca com os clichês de tais filmes, acrescentando muito em troca. De casas vazias e escuras, barulhos durante a noite, aparições fantasmagóricas, mensagens de fontes anônimas e até mesmo um terrível assassinato, o diretor cria no lugar comum de obras do tipo um encantamento único, provido de um cinema só seu. Sem entregar muito, a obra ainda guarda o momento mais gelado que presenciei recentemente, passado numa das últimas cenas. É engraçado dizer, mas Personal Shopper é um dos filmes de terror mais diferentes e inusitados, o que nem de perto traduz-se em acessível ou recomendado para todos os gostos.