A cultura nacional é repleta de histórias fantásticas que normalmente passam batido do conhecimento popular, ainda mais pelo constante bombardeio neoimperialista provindo dos territórios de língua inglesa. Felizmente, o folclore local vem sido recolocado ao trono que merece entre as grandes mitologias mundiais e, em 2021, ganhou uma forma bastante original e ambiciosa com a série Cidade Invisível, a mais nova incursão da Netflix. Encabeçada pelo lendário diretor Carlos Saldanha, fora de sua zona de conforto animada, e com uma narrativa arquitetada por Raphael Draccon e Carolina Munhóz (dupla de escritores que parece ter dado uma chance maior às lendas que se escondem nos quatro cantos do nosso país), a produção é interessante em seu conceito e, na maior parte das vezes, funciona com praticidade emulável a tantas outras fórmulas mainstream – mas que peca no desenvolvimento dos protagonistas e coadjuvantes.

Há uma misteriosa trama escondida no subúrbio litorâneo brasileiro que serve de força-motriz para os breves sete episódios da temporada de estreia: no centro de estranhos acontecimentos que tomam proporções drásticas, está o policial ambiental Eric (Marco Pigossi), que perdeu sua mulher num incêndio florestal e agora vive com a jovem filha Luna (Manu Dieguez) à beira de um universo às sombras do nosso cotidiano. Eric, mascarando seus verdadeiros sentimentos, lida com um crescente trauma que, aliado ao fato de não saber exatamente de que forma a esposa morreu, transforma-se em uma frustração copiosa e psicótica que não aparenta não distinguir o que é real do que é fantasia – motivo pelo qual é arrastado para uma conspiração que atua contra as forças mitológicas que protegem a nação.



À medida que cruza com pessoas estranhas e um boto cor-de-rosa que apareceu misteriosamente na orla praiana, ele percebe que as coisas são bem mais complexas do que aparentam – e, de alguma forma, se relacionam com os trágicos eventos já mencionados. Eric encontra-se no vórtice boêmio da noite carioca, controlado pela perigosa figura de Inês (Alessandra Negrini) e seus comparsas, Tutu (Jimmy London), Camila (Jessica Cores) e Isac (Wesley Guimarães). Cada um deles encarna um personagem folclórico diferente: Inês é uma poderosa entidade conhecida como Cuca, cujas habilidades incluem controle mental e hipnose, diferenciando-se da clássica vilã das histórias de Monteiro Lobato; Camila traz a sensualidade de Iara, a Mãe das Águas, para o contemporâneo; Isac é uma versão atualizada do Saci-Pererê, mais irreverente, mas sem abandonar suas características únicas.

Todo o processo de criação é demonstrado com sutileza e diversão, pegando páginas emprestadas de obras como ‘Once Upon a Time’ e ‘Grimm’ e suas distorções fabulescas. Por esse motivo, o roteiro aposta em gritantes peculiaridades que, amalgamadas em uma linha em comum, criam mágica entre o elenco e suas características. O problema é que, no final das contas, o frenético ritmo deixa de lado a credibilidade do enredo, ao menos nos quatro primeiros episódios: os flertes com os dramas estadunidenses partem das mesmas ambições vazias e equivocadas de ‘Supermax’, por exemplo, ou do desequilibrado espectro de ‘Desalma’. Os arcos principais são deteriorados em função da explosiva química dos atores e atrizes, nunca alcançando a glória que prometem.



Lutando para manter a estática e diabolicamente mórbida atmosfera do prólogo e do primeiro capítulo, os diálogos vem e voltam em um movimento circinal e cansativo, ainda mais quando restringimos o foco a Eric. Pigossi faz um trabalho fantástico do homem cético e racional, mas passa a acreditar muito rápido nas origens míticas que o cercam, engolfado em reviravoltas que se revelam rápido demais para apreciação. Até mesmo sua breve relação com Camila é descartada, pincelando-a com elementos de importância duvidosa e choque momentâneo. As expectativas de explicações concisas e explorações mirabolantes nunca alcançam ponto crítico e, eventualmente, rendem-se aos clichês televisivos dos últimos anos.

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Negrini é uma das engrenagens que mantém esse microcosmos funcionando. Sua interpretação como Cuca por vezes é repetitiva, mas não o suficiente para desconstruir sua personalidade desconfiável e calculista. Conforme os capítulos se desenrolam, os poderes da antagonista ganham dimensão assustadora e aproveitável em quase sua completude. Guimarães, subestimado em todo o carisma que traz às telas, deixa uma impressão marcante e envolvente; e até mesmo José Dumont como o velho Ciço consegue nos cativar nas certezas que esconde do restante do mundo. Em suma, as partes em si não atingem a completude que mereciam, mas se espalham profusamente em pequenos picos de ineditismo.

Enquanto as temáticas particulares são ambivalentes e controversas, as inflexões universais servem como base para compreendermos as mensagens da obra. As críticas ao capitalismo predatório são canalizadas para a relação destrutiva entre uma empreiteira de iniciativa privada e uma secular comunidade ribeirinha que se recusa a abandonar seus costumes em prol do “progresso”; a exaltação nacionalista da cultura é descrita em metáforas sutis, como a requintada alusão à ritualística dança indígena toré, ou a belíssima arte recheada de referências, que variam dos menores ornamentos às mais expressivas estéticas. Como se não bastasse, a sofisticada e a charmosa direção é outro aspecto de notável respeito.



No geral, Cidade Invisível cumpre o que promete: uma divertida aventura que explora os confins das tradições populares do nosso país; entre altos e baixos, os deslizes se amalgamam em uma bola de neve incontrolável que, ao contrário das ambições desejadas, se contenta com a segurança do óbvio.

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