Sam Levinson alcançou notoriedade nos últimos anos por trazer uma das melhores séries da década passada à vida – o remake estadunidense de ‘Euphoria’. Trazendo temas necessários à discussão, incluindo drogas, vida adolescente e identidade de gênero, a nova versão foi estrelada por Zendaya como Rue Bennett, arrancando a melhor performance de sua carreira e lhe garantindo uma estatueta do Emmy. E, depois de co-produzir o impactante ‘Pieces of a Woman’, Levinson retornou para os holofotes com mais uma promissora e intimista montanha-russa intitulada ‘Malcolm & Marie’ – cujo resultado é bem aquém do esperado ao se valer muito da química do elenco protagonista em vez de aparar as múltiplas pontas soltas.

Levinson retoma parceria com Zendaya para uma narrativa metalinguística e extremamente novelesca, trazendo-a no papel de Marie. A ovacionada atriz divide os holofotes com John David Washington no outro papel titular, e ambos desfrutam de um tóxico relacionamento que atinge seu ponto mais baixo após a bem-sucedida estreia de Malcolm nos cinemas – o qual se vale da contínua aclamação para se colocar no topo da “cadeia alimentar”. O problema principal se desenrola quando o cineasta se esquece de agradecer à namorada em seu discurso de abertura; engatilhada por uma invisibilidade que já vem ganhando forma há algum tempo, Marie explode em uma série de constatações que demonstram de que modo Malcolm vinha se aproveitando de um analítico romance para conquistar o mundo.



O filme é arquitetado, propositalmente ou não, como uma peça de teatro. Assim como outras adaptações dramáticas, como ‘The Boys in the Band’, ‘Deus da Carnificina’ ou ‘A Voz Suprema do Blues’, o público lida com uma verborrágica apresentação cujo enfoque é canalizado às atuações e ao próprio roteiro em detrimento de ousadias técnicas. O metamorfo e unilateral cenário parece se desdobrar ao bel-prazer dos protagonistas, como um labirinto infinito que os prende em uma claustrofóbica e intransponível bolha – ao menos até os dois enfrentarem os demônios que os perseguem. É claro que a trama envolve uma madrugada, mas realiza um movimento introspectivo de expansão que transforma a suntuosa casa em um purgatório, onde segredos e ressentimentos guardados há muito tempo se materializam em constantes ataques.

Conforme o realizador comentou em uma das diversas entrevistas promocionais, a obra tangencia alguns elementos do thriller, contribuindo para um interessante suspense que nunca atinge completude. A animação exacerbada de Malcolm entra em conflito com a apatia de Marie e seu robótico papel como namorada perfeita que está lá para apoiar o homem que ama – isso é, até trazer suas angústias à tona e ser taxada de histérica. A partir daí, o desequilibrado companheirismo do casal é jogado em um forçado arco de confissões e desabafos, de conciliações e agressões verbais (uma escolha exaustiva e maçante que chega a lugar nenhum).

MALCOLM & MARIE (L-R): ZENDAYA as MARIE, JOHN DAVID WASHINGTON as MALCOLM. DOMINIC MILLER/NETFLIX © 2021

Todas as reviravoltas são previsíveis; aliás, a própria iteração luta para manter o agourento ritmo do ato de abertura, cedendo às mais diversas fórmulas que são, ironicamente, criticados pelo enredo e pelos estereótipos condenados por Malcolm. A assertiva atmosfera transmuta-se em uma densa bola de neve que luta para se desviar de metáforas vencidas e de diálogos irreais – nesse quesito, Zendaya e Washington fazem o possível para imprimir uma estética crível e naturalista a intermináveis solilóquios sem sentido. Seja em crises de ciúme, seja em infelizes declarações um sobre o outro, a jornada dos personagens se vê em um beco sem saída e em personalidades altercadas que são podadas tanto pela condução do longa quanto pela pedante trilha sonora que não tem qualquer espaço aqui.

A produção de ‘Malcolm & Marie’ não foi uma das mais convencionais, visto que se estendeu por menos de um mês durante o ápice da pandemia do COVID-19 no ano passado, isolando-se sob os protocolos de segurança na idílica Carmel-by-the-Sea. Dessa forma, o escopo imagético é erguido em uma apaixonante assimetria que dialoga com as tensões exploradas – até mesmo os enquadramentos centralizados não são óbvios. Afora a escolha coerente do filtro preto-e-branco, é notável como Levinson, aliando-se com conhecidos colaboradores (como o diretor de fotografia Marcell Rév e o designer de produção Michael Grasley) arquitetam algo diferente do que vimos em ‘Euphoria’, indicando uma versatilidade bem-vinda. De qualquer forma, as fortes amarras narrativas e as constantes repetições sequenciais impedem que o filme atinja todo seu potencial.

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Há algo de estranho no “paraíso” conjugal que Zendaya e Washington estrelam – e não digo apenas sobre as mentiras que esconderam, mas nos claros equívocos que se espalham profusamente em quase duas horas de exposição. Concórdias e pedidos de desculpa não são o bastante para desviar nossa atenção de que, eventualmente, rendições incríveis e um apreço pelo drama tour-de-force não mudam o fato da história tentar ser mais do que consegue.



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