É impossível não se deixar levar pelo canto da sereia de Paul W. Downs, Lucia Aniello e Jen Statsky, que fizeram de uma detestável mulher um dos maiores deleites da televisão recente. Não dá para evitar se encantar pela dinâmica enérgica e latente entre Jean Smart e Hannah Einbinder, que aqui uma vez mais trazem à vida a relação maternal mais pitoresca e deliciosa de se assistir. E Hacks é o que é exatamente pela polvorosa dupla Deborah e Ava – mentora e mentorada. Aqui, aquela mesma intensa e constante atmosfera de tensão e amor materno represados toma conta de cada cena, nos entregando muito mais que um espetáculo de atuações excelentes, bem como uma intimista reflexão sobre a necessidade de vínculo existente no ser humano e o que ele é capaz de fazer para encontrar isso em suas relações.


O que torna Hacks ainda melhor em sua segunda temporada é justamente a profundidade em suas narrativas particulares. Assim como acompanhamos a dinâmica entre uma veterana e arrogante comediante stand-up e uma bocuda e impulsiva roteirista de comédia, também vemos de perto como cada qual lida com seus traumas familiares e lacunas emocionais geradas a partir de suas famílias desestruturadas. E quanto mais conhecemos essas duas mulheres – e todo o brilhante corpo de personagens coadjuvantes -, mais compreendemos o quanto todos somos frágeis sem um seio familiar saudável. Hacks é uma das raras séries que nos fazem aprender mais sobre nós mesmos enquanto entendemos cada um de seus protagonistas.

E com um humor inteligente que vai além do riso frouxo, a série de comédia dramática se torna uma mistura agridoce de anedotas cômicas e circunstâncias realmente dolorosas que cruzam as nossas vidas. Como um genuíno retrato da vida como ela é – entre os seus altos e baixos em um mesmo dia -, Hacks é honesta, crua e ainda assim não tem medo de brincar com certos estereótipos da comédia, entregando ainda pequenas caricaturas de figuras do cenário hollywoodiano. Entre a filha descabida e insuportavelmente extravagante do chefe de uma das maiores agências de talentos de Hollywood e os amigos gays ultra flamboyants de um CEO (vivido por Carl Clemons-Hopkins), a produção crítica a própria indústria de maneira metalinguística sem sequer parecer. Tudo é sempre feito organicamente.


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E a segunda temporada da premiada série logo em seus primeiros episódios mostra estar ainda mais voraz em seu sarcasmo e delicada em suas reflexões. E esse é um dos aspectos mais apaixonantes da obra de Downs, Aniello e Statsky. Em uma única cena é possível partir do humor mais sagaz para a dor mais profunda, como vemos no final de um dos episódios, em que Ava (Einbinder) se desfaz de parte das cinzas de seu falecido pai. E entre o humor, o abuso de uma relação toda codependente e a tristeza de um passado mais sofrido, reside também a profunda e poderosa essência de Hacks: Uma sensível análise de como a vida só verdadeiramente existe quando compartilhada, seja na dor, na alegria ou seja no jeito torto e ignorante de uma comediante que – aos 70 anos – está finalmente aprendendo a se conectar às pessoas que sempre estiveram ali, ao seu lado.

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