Retro Dance #03 | O intimismo derradeiro de Amy Winehouse e do clássico ‘Back to Black’

Na terceira edição do especial Retro Dance, voltamos uma década e meia no passado para analisar o classicismo instantâneo de ‘Back to Black’, a magnum opus da saudosa Amy Winehouse.

Amy Winehouse deixou e continua a deixar saudades desde seu trágico falecimento em 2011. Dona de uma voz única, Winehouse apostou fichas em estilos que não estavam em voga à época de sua ascensão no cenário fonográfico – trazendo de volta o soul e o jazz ao escopo mainstream com longevidade notável e que, até hoje, continua a influenciar a nova geração de artistas. E é quase óbvio dizer que sua magnum opus se deu em 2006, com o lançamento do aclamado ‘Back to Black’ (considerado por diversos especialistas musicais como um dos melhores álbuns não só do século, mas também da história da música).

Aliando-se aos produtores Mark Ronson e Salaam Remi, Amy foi influenciada diretamente pelas incursões artísticas dos grupos femininos dos anos 1960 – como Gladys Knight & The Pips, The Marvelettes e The Sisters Lovers (todas curadas sob o emblema da Motown). A ideia de construir o álbum veio logo depois da estreia de seu début, ‘Frank’, em 2002. Um ano mais tarde, redescobriu o estilo musical supracitado para começar a delinear uma série de sucessos comerciais e críticos que teria, como pontapé inicial, a premiada “Rehab”: a divertida e nostálgica faixa, infundida em soul e R&B, se tornou uma das assinaturas da cantora e compositora, levando, inclusive, os prêmios de Gravação do Ano e Música do Ano na 50ª cerimônia do Grammy Awards. E é evidente que ninguém poderia entregar a canção senão Amy, fosse por sua íntima conexão com a letra, fosse por uma rendição memorável que a colocaria no centro dos holofotes.

Mas não foi apenas essa faixa que conquistou os fãs e os críticos. Ao perceber que tinha uma mina de ouro nas mãos, a Island Records (produtora responsável pelo disco) investiu esforços em outros quatro singles oficiais – entretanto, Winehouse não tinha interesse em se tornar mundialmente conhecida ou se deleitar na fama; tudo o que sempre quis fazer era cantar e poder compartilhar de sua arte com os outros. Não é surpresa, pois, que as incursões fonográficas de ‘Back to Black’ atravessam a barreira do espaço-tempo e emergem em um cosmos único, movido a uma idiossincrasia invejável que envelhece da melhor maneira possível – consagrando-se como pérolas atemporais que apenas melhoram com o pássaro do tempo.

Temos, por exemplo, a subestimada “You Know I’m No Good” (faixa favorita deste que voz escreve), arquitetada sob uma estrutura que mistura blues e hip hop em uma envolvente narrativa de autoconhecimento e pincelada com alguns dos versos mais bem escritos do século; a track titular, reconhecida de longe até pelos ouvidos menos treinados, abre espaço para o funk em uma ecoante e sinestésica balada que fala sobre um relacionamento falido e que faz a performer “voltar para o escuro”, confinada em seus próprios pensamentos e sentindo que é incapaz de escapar deles; “Tears Dry on Their Own” já se volta para incursões mais pop, fundindo-se a interpolações de Marvin Gaye e Tammi Terrell e narrando sobre um amor que foi embora; e “Love Is a Losing Game”, servindo como single de encerramento dessa exuberante era, é uma tocante balada que explora os altos e os baixos do amor.

‘Back to Black’ é uma produção movida à melancolia, porém, não através de fórmulas cansativas; aqui, Amy demonstra uma habilidade lírica que rompe as barreiras entre a música e a literatura, conseguindo expressar sentimentos universais através de experiências pessoais e despindo-se de quaisquer armaduras para transformar a obra em uma carta declamatória e essencial. Há um estado de prostração proposital e bem-vindo que acompanha cada uma das faixas, permitindo que a música sirva como palanque para que ela consiga colocar afora o que engolia há muito tempo – sem deixar que as burocracias da indústria a tirassem de si mesma. Ora, é notável como ela detém todo o aparato criativo para fazer o que bem entender (e o que nos faz amar tanto o álbum quanto a artista mais ainda, se é que isso é possível).

A concepção da obra é narcótica, saudosista e, ao mesmo tempo, demonstra uma urgência de originalidade que permitiu que o cenário da música tomasse outro rumo: em outras palavras, Adele, Duffy e Estelle conseguiram se estabelecer dentro da ressurgência do soul, boa parte de suas conquistas se deve ao pioneirismo de Amy – que é citada constantemente como uma grande influência. Em 2006, o disco permitiu que resquícios de um experimentalismo sonoro voltassem a cair no gosto do público, permitindo que um gênero outrora usurpado pela elite conseguisse voltar para as massas e garantir sua sobrevivência do modo mais orgânico possível. Para além das tracks promocionais supracitadas, iterações como “Me & Mr. Jones”, “Some Unholy War” e “He Can Only Hold Her” permitiram que o mid-tempo entrasse em conflito com o dance-pop e o EDM, que dominavam as paradas e as playlists.

Falar do espetacular anacronismo de ‘Back to Black’ é cair na redundância; afinal, Amy Winehouse fez história ao comandar o álbum, permitindo que a arte se desdobrasse e se remodelasse a seu bel-prazer. O resultado já conhecemos: a performer e a obra, inalienáveis entre si, continuam a conquistar os fãs e a angariar novos seguidores – um feito que não é comum e que reafirma a potência e a majestosidade de uma das maiores vozes de todos os tempos.

Notícias

‘Sleepover’: Parker Posey vai estrelar novo terror da Blumhouse

Parker Posey foi escolhida para estrelar 'Sleepover', novo filme...
Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.