Andando pela internet, deparo-me com a pergunta, será que precisamos de Caco Antibes hoje? Para quem não viveu a década de 1990, ou não acompanha as reprises do Canal Viva e da Globo, possivelmente não sabe de quem falo. Caco Antibes era o personagem interpretado por Miguel Falabella no seriado cômico Sai de Baixo. Caco era uma sátira de uma certa classe média que se considera superior aos demais brasileiro e que tem “horror à pobre”.

Quando vi essa pergunta, pensei ser uma figura de linguagem, e que se estava usando nome do personagem para se referir ao seriado. Eu comecei a me perguntar: qual é a necessidade de se fazer um filme de um seriado cômico tão antigo?!

Sai de Baixo foi um dos programas humorísticos de maior sucesso na segunda metade da década 1990. Começou em 1996 e terminou em 2002. Numa época pré-internet, quando rede social era só a lista de telefones fixos na agenda eletrônica, e a TV por assinatura ainda engatinhava no Brasil, o sucesso do seriado era tamanho que se tornou o principal humorístico da emissora e, por muito tempo, o grande momento das noites de domingo – recordo-me das pessoas comentarem na segunda-feira o episódio de domingo – sim, antes do WhatsApp, esperávamos o outro dia para comentar de um episódio. A partir de 2010, o seriado foi reexibido pelo canal pago Viva com imenso sucesso, tendo sido produzidos 4 novos episódios em 2013. Recentemente, o programa voltou a ser exibido pela Rede Globo nos finais de semana.



 

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Em tempos de live action e de reciclar tudo que fez sucesso no passado, nada mais natural do que um live action de Sai de Baixo. Aliás, hoje, qualquer coisa antiga que pareça fazer sucesso pode virar filme.

Depois que eu já tinha pensado em tudo isso, o site do texto terminou de carregar e pude lê-lo.

O que estava sendo problematizado era o destaque a um personagem como Caco. Sai de Baixo – O Filme daria cartaz para um personagem preconceituoso, racista, que tem “horror à pobre” e isso, certamente, irá ferir a sensibilidade contemporânea. Dar cartaz ao Caco seria como dar voz à elite classista e preconceituosa. Em resumo, o personagem seria uma anacrônica defesa da elite branca brasileira.



Até agora, me pergunto se isso é sensacionalismo ou dificuldade de compreender uma ironia. Criticar um personagem dessa forma é desconsidera que se trata de uma sátira, um deboche dirigido a uma classe que se achar maior que o Big Bang. Caco é um falido, procurado pela polícia, que volta e meia se dá mal. E, se restam dúvidas, o tom humorístico que Miguel Falabella deu ao personagem deixa bem claro ser um deboche.

Compreenderia o questionamento se o texto ao menos lembrasse que, na década de 1990, havia pessoas que achavam legal as falas de Caco, ou pessoas que confundiam ator e personagem e achavam que Miguel Falabella era preconceituoso. E, sim, sempre há quem não entenda uma sátira ou que confunda ator e personagem e, sempre que possível, é bom lembrar disso. Mas o texto não era sobre isso e parecia não compreender a ironia. E na era pós-internet, a dificuldade de compreender ironia alcançou níveis endêmicos.

A internet criou algo curioso: produzimos coisas para nossas bolhas, mas essas coisas podem, facilmente, atingir uma infinidade de pessoas, que certamente não terão o repertório para rir de uma ironia. Hoje, o que não é didático, direto, concebido para ser entendido pelo público geral, corre o risco de ficar restrito à sua bolha, ou de ser mal entendido. Não é culpa da internet, ela apenas acabou as fronteiras para o conteúdo, mas não para o nosso repertório. Neste contexto, sátiras e ironias, especialmente se sutis, não tem terreno fértil.

Se em 1996, já havia quem não entendesse a sátira que era Caco Antibes, hoje, o risco não é menor. Mas, como Sai de Baixo é tudo menos sutil, certamente, a maioria vai levar a coisa toda na piada – ainda que não entenda que Caco seja uma sátira, irá rir. Ou seja, não há nenhum risco de acharem que Sai De Baixo – O Filme não é uma piada.



Alias, falar que Caco Antibes é algo nocivo para os anos 2019 é demonstrar uma insensibilidade ao que seja ironia. A “polêmica” esquece que Caco é uma sátira pouquíssimo sutil. A pergunta, ao que parece, quer apenas “causar”!

A crítica dirigida ao personagem desconsidera o seu subtexto irônico. A crítica se preocupa em vestir a capa do bom mocismo e defender uma minoria abstrata. Comumente, acusa-se isso de politicamente correto – termo bastante desgastado. Independente do nome que se dê, estamos falando de uma postura que se preocupa tanto em se sentir bom e puro que acaba se desconectando da realidade.

Sério, acusar Sai de Baixo de destilar classismo, como se a finalidade do seriado fosse exaltar a classe alta e humilhar os pobres ou é querer criar polêmica vazia, ou é estar tão embebido por uma tara ideológica que não percebe que o público comum apenas ri da série. Quem achar que Caco está certo é a vítima da ironia de Miguel Falabella. Diga-se, esse grupo cresceu muito nos últimos anos. E, à semelhança dos tarados politicamente corretos, esse grupo também tem suas taras ideológicas. Curiosamente, os excessos do politicamente correto serviu de justificativa para que esse grupo transformasse seu ódio e antintelectualismo em categoria de pensamento.



Diante desses dois grupos tão embriagados por suas visões de mundo, eu faço a pergunta, precisamos de Caco Antibes hoje? Sim!, porque em tempos em que astrólogos vendem filosofia fast food, e o politicamente correto, mesmo combalido, ainda espalha a sua limitada interpretação prêt-à-porter da arte, a sátira simples e popular de Caco é a chance de retirar o véu de ignorância que muitas pessoas vestem.

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