Não é segredo para ninguém a esta altura que a ideia para o primeiro Sexta-Feira 13 (1980) surgiu unicamente da vontade do produtor e diretor Sean S. Cunningham em criar um terror nos moldes de Halloween (1978), sucesso independente de John Carpenter. Mais marqueteiro do que cineasta de talento, Cunningham vendeu bem a ideia, que foi comprada por um grande estúdio (Paramount) e num orçamento de US$550 mil, rendeu de volta aos cofres da empresa algo em torno de US$40 milhões. Já pensou?

Sexta-Feira 13, para além do sucesso financeiro, se tornou um filme bastante influente, gerando o subgênero dos slasher de acampamento. Logo no ano seguinte de seu lançamento uma verdadeira enxurrada de produções do tipo tomava os cinemas. E o que fazer com tamanho êxito nas mãos? Continuar, é claro. Assim, como parte da onda, o filme que deu origem ao “movimento” igualmente adentrava o ano seguinte com um novo exemplar. Sexta-Feira 13 – Parte 2 completa 40 anos de seu lançamento em 2021 e abaixo falaremos um pouco sobre esta famosa produção.

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Cabeças irão rolar. Os restos mortais da Sra. Voorhees são mantidos num altar bizarro.

O primeiro empasse em tirar uma continuação para o filme original era: quem seria o antagonista? Uma vez que a vilã, a Sra. Voorhees (Betsy Palmer), havia sido decapitada no desfecho pela mocinha Alice (Adrienne King). A primeira opção era fazer de Sexta-Feira 13 uma série de filmes de antologia, na qual a cada nova produção uma história focada na data do título (associada ao azar), mas sem qualquer outra ligação, fosse contada. No entanto, a cena mais antológica do original definiria o seu destino. É claro que falamos sobre a cena “do sonho/pesadelo”, que foi incluída no filme como forma de brincadeira (para gerar um último jumpscare), na qual na manhã seguinte Alice é puxada para dentro do lago pelo menino Jason.



Os empresários Phil Scuderi (dono da rede de cinemas Esquire Theaters), Steve Minasian e Bob Barsamian (um dos produtores do filme original) insistiam para que a sequência trouxesse Jason desta vez como o vilão, ideia na qual o produtor Steve Miner logo embarcou. Miner viria a assumir a direção após a saída de Sean S. Cunningham do projeto. Embora grande parte da equipe original do primeiro filme tenha retornado para a continuação, alguns elementos-chave fizeram questão de pular fora. Ao lado de Cunningham, o técnico em efeitos especiais e maquiagem Tom Savini, a atriz Betsy Palmer (embora tenha voltado para gravar uma ponta) e o roteirista Victor Miller (substituído por Ron Kurz) achavam que a ideia de ter Jason, agora crescido nas formas de um homem, como o assassino da vez simplesmente idiota demais. Fora isso, eliminaria toda a motivação de sua mãe, que era o que movia a trama do original. Era como se todo o argumento de Sexta-Feira 13 (1980) tivesse sido em vão. Segundo Savini: “se Jason estava vivo, porque ele simplesmente não entrou em contato com sua mãe?”. Savini até chegou a ser convidado a trabalhar no segundo filme, mas optou por criar os efeitos em Chamas da Morte (The Burning), outro slasher de acampamento, lançado no mesmo ano, não tão famoso, mas que foi redescoberto como cult.

Homem de atitude. O “garotão” Jason assume a franquia. aqui com o visual “saco na cabeça”.

Um vigor a mais adicionado à equipe do filme foi a entrada de Frank Mancuso Jr., filho do presidente da Paramount, na produção, o que elevou o orçamento do longa para US$1.25 milhão. Mancuso assumiria como produtor na franquia nas vindouras continuações e inclusive na série de TV da franquia – por aqui intitulada Loja do Terror (1987 – 1990). Segundo relatos, a Warner, responsável pela distribuição do Sexta-Feira 13 original em alguns países, estava pronta para assumir a franquia caso a Paramount optasse por não seguir produzindo a sequência. Com o título inicial de ‘Jason’, o que só afirmava a direção que a série de terror queria seguir, a produção de Sexta-Feira 13 – Parte 2 já estava a toda em setembro de 1980, poucos meses após a estreia do primeiro filme.

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A trama se passaria 5 anos depois do original, e encontraria um novo grupo de monitores de acampamento de verão sendo treinados, num local próximo ao campo do primeiro filme (Crystal Lake). Ao contrário do antecessor, em que estavam reformando por conta própria as dependências, aqui tudo já está pronto para funcionar e receber as crianças e adolescentes. Se ao menos estes funcionários conseguissem passar do primeiro estágio de seu trabalho. Jason, assim como sua mãe no original, mata os jovens um a um das formas mais cruéis e inusitadas (casal empalado juntos ao fazerem sexo, arame farpado no pescoço, martelo na cabeça, degolação com facão e até mesmo um pobre sujeito numa cadeira de rodas – demonstrando o quão politicamente incorretos esses filmes sempre foram – recebe o seu com um facão na cara).

Cenário sangrento. O Campo Crystal Lake foi interditado.

Os planos iniciais eram para que a atriz Adrienne King, intérprete da final girl original Alice, retornasse para um segundo round, agora contra Jason. Porém, após o sucesso do primeiro Sexta-Feira 13, de forma trágica a arte transcendeu para a vida real, e a atriz começou a ser assediada e ameaçada por um fã obsessivo que se infiltrou em sua vida. Traumatizada, King decidiu se afastar da vida artística. Ao ser abordada pela equipe de produção do segundo longa para retornar, a atriz pediu para ter um papel bem pequeno no filme, com a possibilidade de um dia voltar em possíveis sequências mais para frente. Boatos ainda afirmam que seus representantes estavam pedindo por um cachê maior para ela, coisa que a produção não poderia oferecer. Assim, ficou acordado que King gravaria suas cenas para a Parte 2 em dois dias, sem ter um roteiro pronto para sua participação. Em diversas entrevistas, algumas até atuais, King afirma que sua cena inicial na continuação foi improvisada, sem qualquer roteiro, e ela não fazia a menor ideia que os planos dos produtores para sua personagem eram a morte – limando assim qualquer possibilidade de King e sua Alice retornarem no futuro para uma outra Sexta-Feira 13. Assim, entrava em cena uma nova protagonista: Ginny, papel mais proativo para a loirinha Amy Steel – que acabou caindo nas graças dos fãs como a melhor final girl da franquia.



Piscou, perdeu. Protagonista no primeiro, Alice (Adrienne King) é logo “descartada”.

Nesse trecho em questão, a abertura do filme, onde Alice encontra um destino terrível, temos a primeira e única vez em que Jason é “interpretado por uma mulher”. Na sequência inicial, vemos apenas as pernas e os pés de alguém se aproximando da casa de Alice, na cidade (e não no campo, algo incomum para o vilão), onde inclusive o antagonista cruza o caminho com uma menininha brincando numa poça. Neste segmento, a fim de confundir o espectador, as pernas que vemos são da figurinista do filme, Ellen Lutter. O trecho também marca como uma das mais longas sequências pré-título da história do cinema, com 15 minutos (em algumas versões) antes que possamos ver em tela o nome do filme. Aqui também vemos, de forma única na franquia, Jason usando um telefone para ligar para Alice. O que ainda ecoa seus laços com Halloween (1978).

Nova mocinha em perigo. Ginny (Amy Steel) ganhou o coração dos fãs.

Era sabido que Jason seria parte integral do novo filme, inclusive quase se tornando o título do longa também, mas com a saída de Tom Savini, que havia criado o personagem no original, alguém precisava substituí-lo para dar vida ao antagonista. O saudoso Stan Winston (que viria a receber alguns Oscar por suas criações em Aliens o Resgate, O Exterminador do Futuro 2 e Jurassic Park)  foi a opção seguinte na lista. Winston, porém, precisou se retirar do projeto devido a conflitos de agenda. Assim, entrava em cena Carl Fullerton, que igualmente ganharia prestígio mais para frente em sua carreira, cuidando da maquiagem e efeitos de O Poderoso Chefão III, O Silêncio dos Inocentes e Filadélfia, por exemplo. Fullerton criaria a deformidade facial de Jason sem a máscara, usando como base o trabalho de Savini no original. O conceito aplicado foi a síndrome de Proteus, uma doença genética rara que causa crescimento excessivo e assimétrico de ossos, pele e outros tecidos. A mesma doença é tema do indicado ao Oscar O Homem Elefante (1980), de David Lynch, uma história real onde Joseph Merrik, um homem extremamente deformado, usa um saco de pano para esconder suas feições do público. O mesmo feito por Jason aqui. Segundo o próprio Carl Fullerton, ele teria planejado e criado o visual de Jason para este filme no período de um dia.

Mamãe sabe das coisas. Betsy Palmer (a Sra. Voorhees) falava mal, mas voltou para uma ponta.

Fullerton, no entanto, foi responsável pelo visual desmascarado de Jason. Algo que vemos, ou melhor vislumbramos, em um pequeno trecho no final do filme. Na maior porcentagem de seu tempo em tela, o vilão faz uso do tal saco de pano. Algo que o assemelha muito ao serial killer visto no terror Assassino Invisível (The Town that Dreaded Sundown, 1976). Porém, não trata-se de plágio. Ao menos é o que afirmam os envolvidos, que creditam a citada figurinista Ellen Lutter como responsável pela ideia. Ela teria entendido que seria algo de fácil acesso para um “homem do mato” encontrar e usar na cabeça.

Um rostinho que só uma mãe poderia amar. Jason aparece sem máscara, na criação de Carl Fullerton.

Inspiração e inspirado tiveram seus capítulos seguintes lançados há 40 anos. Em 1981, chegava a hora do público conhecer os próximos passos de sucessos do terror slasher com Halloween II – O Pesadelo Continua e Sexta-Feira 13 – Parte 2. E embora a sequência do filme de John Carpenter tenha sido considerado de forma geral um declínio do que havia sido feito no original, a maioria dos fãs concorda que a Parte 2 de Sexta-Feira 13 é superior à sua primeira incursão: com um vilão melhor nas formas de Jason (assustador e ameaçador aqui), com uma direção nítida e eficiente de Steve Miner, e cenários e direção de arte surpreendentes. Esta continuação é considerada por muitos o melhor filme da franquia. Você concorda?

O boneco de Jason, com direito as versões saco de pano, sem máscara e até a cabeça da mamãe.

Apesar do sucesso junto aos fãs e de ser redescoberto constantemente como item cult pelos apreciadores de terror e slasher, com os críticos, para variar, o longa sofreu boicote. E não apenas isso, o órgão regulador da censura americana, o MPAA (Motion Picture Association of America), chiou e exigiu que cortes fossem feitos nas cenas mais violentas e explícitas. Isso antes tendo reclamado muito do “amontoado de mortes” que é o filme. Tais trechos completos, assim como uma cena de nudez frontal da atriz Marta Kober, que vive a personagem Sandra, retirado do corte final quando veio a público sua idade de apenas 16 anos, foram restaurados recentemente numa edição especial da obra em Blue Ray, parte de uma coleção completa da franquia, capitaneada pela empresa Scream Factory, especializada em lançamentos cult.

Cena polêmica. A morte do casal empalado durante o sexo precisou ser diluída e a nudez da atriz Marta Kober cortada.

Sexta-Feira 13 – Parte 2 estreou nos cinemas norte-americanos no dia 30 de abril de 1981, chegando ao Brasil um ano depois, em 26 de abril de 1982. Apesar do orçamento mais folgado, devido ao acúmulo de produções de terror nos cinemas ao longo dos doze meses de 1981 (conhecido como o ano do terror e do slasher), o filme arrecadou “apenas” a metade de seu antecessor, com US$21.7 milhões em bilheteria. Um resultado ainda assim impressionante e que colocou em movimento uma terceira parte. Mas isso é assunto para uma próxima história em volta da fogueira num acampamento…

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