Indiscutivelmente os anos 80 foram uma época inesquecível. Tanto que nas mais variadas formas, o audiovisual constantemente presta homenagem a ela desde que dela saímos, e as referências não tem data para terminar. Pelo contrário, cada vez mais novas idealizações do que foram os 80’s surgem em voga na cultura pop atual: seja na forma de filmes, séries música, estilo, moda ou vídeos no Youtube especializados em reviver o passado. Não é à toa que recorrentes sucessos pop atuais escolhem por centrar suas tramas no período, vide Stranger Things e Mulher-Maravilha 1984, por exemplo.

Muitas vezes, no entanto, sentimos uma caracterização forçada e um sentimento falso da recriação do período. Como se ao invés de nos transportar para o que foi realmente os 80’s, as obras apenas imitassem uma caricatura da década. No meio de uma verdadeira enxurrada de revivals dos anos 80, uma que consegue destaque pela fidelidade é a produção pouco conhecida e subestimada Uma Noite Mais que Louca (Take me Home Tonight). O filme foi exibido na madrugada do último domingo, dia 4 de julho, na Globo após o Altas Horas, onde pude dar mais uma chance a este longa que passou totalmente em branco em sua estreia nos cinemas. Uma Noite Mais que Louca completa 10 anos de lançamento em 2021, e é o momento certo para os aficionados pelos anos 80 o encontrarem e quem sabe igualmente darem um voto de confiança.

Topher Grace, o eterno Eric Forman, vai para os anos 80 em “Uma Noite Mais que Louca”.

Uma Noite Mais que Louca fez sua estreia nas telonas nos EUA em março de 2011, e no Brasil aportou direto no mercado de vídeo (numa época antes do domínio dos streamings) em outubro do mesmo ano. Curiosamente, o personagem protagonista trabalha numa locadora de vídeo na era dos VHS, e o filme em si se veria como parte dos últimos lotes de lançamentos a realmente pertencerem a uma locadora em mídia física, antes do citado reino das plataformas de streamings. O fato não deixa de ser quase premonitório e metalinguístico na convergência de épocas.

Projeto pessoal do ator Topher Grace, um aficionado pela década tendo nascido em 1978 e crescido no período. Grace é dono da ideia do filme e escreveu o primeiro tratamento do roteiro ao lado do colega Gordon Kaywin. Depois, o texto foi desenvolvido para o roteiro final pela dupla Jackie e Jeff Filgo, produtores e roteiristas por trás do programa de sucesso That 70’s Show (1998-2005) – que não por acaso era estrelado por Topher Grace no papel do boa-praça Eric Forman. O ator pula dos anos 70 para os 80 e protagoniza uma espécie de vertente de Forman na pele de Matt Franklin, um jovem vivendo no passado sem conseguir superar sua paixão de infância, ao mesmo tempo em que teme o próximo passo em sua vida profissional. Ele contenta-se em trabalhar numa locadora quatro anos após a formatura colegial por não conseguir decidir que carreira escolher – para o desespero de seus pais.



Anna Faris e Chris Pratt se conheceram durante as gravações, se casaram, tiveram filho e se separaram depois de 7 anos.

O protagonista é na realidade um menino prodígio da época colegial, que até atendeu ao prestigiado MIT, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, mas terminou desistindo dos estudos por achar que não se enquadrava. Ainda perdido em seu destino no mundo, ele ganha alguns trocados em um subemprego enquanto sua vida passa sem que ele a guie. Cercando Matt estão sua irmã gêmea, papel de Anna Faris (da franquia Todo Mundo em Pânico), igualmente brilhante, mas disposta a deixar seu futuro numa prestigiada universidade de Londres para casar-se com o namorado do colégio de poucas aspirações, vivido por um Chris Pratt (Guardiões da Galáxia e Jurassic World) muito, muito antes da fama; e o melhor amigo Barry (Dan Fogler, o Jacob de Animais Fantásticos), o indispensável alívio cômico amalucado.

Anna Faris e Chris Pratt se conheceram nos bastidores deste filme, se casaram logo depois, tiveram um filho e viveram um relacionamento de 6 anos, chegando ao fim com o anúncio do divórcio em 2017. Já Fogler, que nesta época era estereotipado nestes tipos de personagens, quase sempre exagerando na dose em sua pretensa comédia, vive um sujeito demitido de seu emprego numa agência de automóveis, que servirá bastante para a estratégia do melhor amigo, além de acrescentar a censura alta do filme devido ao uso intenso de cocaína durante a exibição. Ah sim, uma das personagens principais é Tori Frederking, a paixão platônica de Matt que é a motivação de toda a trama. E pode ser até problemática a idealização da mulher perfeita da mente do protagonista, mas tudo é criado nos moldes da mentalidade da época, e este artifício se encaixa perfeitamente. Aqui, ela ganha as formas da loirinha Teresa Palmer.

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Teresa Palmer é Tori, a mulher dos sonhos do protagonista. Típico de filmes dos anos 80.

Fechando o elenco principal, Michael Biehn vive o pai policial do protagonista (a quem Topher Grace, por ser fã de O Exterminador do Futuro e Aliens – O Resgate, telefonou pessoalmente para que aceitasse o personagem), Lucy Punch, Michelle Trachtenberg, Demetri Martin, Bob Odenkirk e Angie Everhart aparecem em participações com resultados cômicos diversos. A direção ficou a cargo de Michael Dowse, especialista em comédias do tipo, tendo no currículo obras como Os Brutamontes (2011), Será Que? (2013), Stubber: A Corrida Maluca (2019) e Coffee & Kareem (2020).

Ao saber que a mulher de seus sonhos está de volta na área, Matt dá um jeito de, não apenas encontra-la numa festa de reunião de ex-estudantes após ter esbarrado com ela acidentalmente em sua locadora, como também a faz pensar que atualmente tem um ótimo emprego em uma empresa bem conhecida de investimentos. Essa era a época do surgimento dos Yuppies, dos jovens profissionais ambiciosos, e também do auge do movimento de investimentos financeiros – que de forma cíclica vem ressurgindo inclusive no Brasil, onde vemos cada vez mais jovens interessados em aumentar seu patrimônio.



Jovens ambiciosos. Quem dá mais na cartada do status profissional?

Essa tendência atingia seu ápice nos EUA durante a década de 80 e era retratada, por exemplo, em filmes como Wall Street – Poder e Cobiça (1987). Uma Noite Mais que Louca centra sua ação em 1988, e faz companhia de certa forma a estas produções, descrevendo em suas entrelinhas o desejo de ser bem sucedido financeiramente nos mais variados personagens que cercam o protagonista. Tori, seu objeto de desejo, por exemplo, é uma jovem executiva de uma grande empresa, que segue de perto todos os itens da cartilha para crescer dentro de uma companhia do tipo, como atender à festas de seu chefe e lutar contra o possível assédio dele (do qual todas as suas amigas terminaram cedendo). É para se manter à altura que o “homem comum” Matt precisa mentir, se fazendo passar por mais que é.

Existem espaço para discussões sobre assédio sexual no ambiente de trabalho, sobre feminismo, ambições profissionais e predeterminações de felicidade através do status profissional para quem souber procurar minuciosamente. Mas no centro, é claro, essa para todos os efeitos é uma história de amor, sobre conquistar a pessoa que achamos que é a certa para nós e nos fará feliz.

Do lado errado da lei. Constantes referências ao uso de cocaína engavetaram o filme por 4 anos.

O tiro certeiro foi fazer de Uma Noite Mais que Louca um filme de censura alta, com nudez e drogas, bem como se realmente saída da década sem noção e politicamente incorreta que foram os anos 80. Para tal, Topher Grace e o diretor Michael Dowse bateram o pé para o uso de drogas, afinal não seria um filme dos anos 80 sem cocaína, buscando o sentimento mais realístico em sua retratação da época. O efeito, porém, terminou assustando os executivos do estúdio que além de aumentarem a censura, engavetaram o lançamento do filme em 4 anos. O longa precisou ser resgatado do limbo pelos produtores Ron Howard e Brian Grazer, através de sua Imagine Entertainment. Grace também produz o longa. inicialmente, o projeto se chamaria “Young Americans” ou “Kids in America”, enfatizando seu subtexto de jovens americanos bem sucedidos financeiramente como meta.

Além das inúmeras referências e homenagens aos anos 80 que vemos em tela, Uma Noite Mais que Louca possui semelhanças em sua trama com O Segredo do Meu Sucesso (1987), onde Michael J. Fox também forjava um trabalho falso melhor para si, e usa o nome do colégio Shermer High School, o mesmo de clássicos de John Hughes, como Mulher Nota Mil, Clube dos Cinco, Gatinhas e Gatões, A Garota de Rosa-Shocking e Curtindo a Vida Adoidado para enfeitar sua trama. Fora isso, o elenco principal participou do videoclipe da banda Atomic Tom para a trilha sonora do filme, uma regravação do “hino” oitentista Don’t You Want Me, do Human League (1981), fazendo referência a diversos ícones do cinema da época.

Apesar do grande esforço, com um orçamento de US$23 milhões (mediano para os padrões de Hollywood), Uma Noite Mais que Louca falhou em despertar o interesse do público, rendendo mundialmente menos de US$8 milhões e garantindo assim um fracasso de bilheteria. Com os críticos igualmente não foi favorecido. Com o passar do tempo se tornando esquecido. Apesar de não se encontrar na grade atual de nenhum dos principais streamings, Uma Noite Mais que Louca facilmente seria favorecido pela descoberta de novos públicos e gerações mais novas que consomem este tipo de produção nestas plataformas. Seria o caso de um ressurgimento como comédia cult, não muito estranho à produções anos depois de seu lançamento.

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