Crítica | Canastra Suja – Drama Familiar é o grande filme nacional de 2018

Crítica | Canastra Suja – Drama Familiar é o grande filme nacional de 2018

COMPARTILHE!

A Grande Família

A Grande Família, seriado da rede Globo, em suas duas encarnações, apresentava as desventuras de uma família muito unida, mas também muito ouriçada. Se sua roupagem cômica fosse transgredida, muito bem poderia se tornar este Canastra Suja, novo trabalho excepcional do cineasta Caio Sóh (Por Trás do Céu e Minutos Atrás), responsável pelo roteiro e direção do longa.

A trama é simples e direta, mas trabalhada cuidadosamente em seus detalhes, que são o que faz a diferença no final das contas. Ao contrário da pretensão ou um texto mirabolante, Sóh se empenha em criar situações reais e extremamente identificáveis, mesmo que o espectador esteja muito longe de ter vivenciado qualquer uma delas. Isso se deve pela forma natural com que o autor cria seus personagens muito humanos e seus relacionamentos.

Somos levados em um tour imersivo por este seio familiar, no qual cada membro que constitui o todo possui suas complexidades e demônios internos a serem debatidos ao longo da projeção. A riqueza com que o cineasta explora e enfatiza cada um dos personagens, dando devida importância e equilibrando seu tempo em cena, é admirável. Canastra Suja, no entanto, não se detém ao retrato minucioso de personalidades, mas cria em sua peculiaridade situações corriqueiras, nas quais o texto acrescenta conflitos, embora realistas, recheados de suspense, que servem como somatório para carregar a narrativa adiante.




Na cena de abertura, somos jogados dentro de um encontro do AA, os alcoólicos anônimos, onde Batista, o patriarca, tenta se reabilitar a pedido dos entes queridos. Segundo o mesmo confessa com dificuldade na roda de pessoas como ele, quando bebe, se torna violento. Sua esposa, Maria, tenta desesperadamente evitar a ruína desta estrutura, segurando as peças juntas como pode, suprimindo suas próprias vontades e desejos no processo. Pedro, o filho, como todo jovem, questiona a autoridade do pai, com quem vive em conflito. E Emilia, a filha mais velha, segue os passos da mãe, sendo a figura responsável e promissora. Alheia a tudo, Rita, a caçula, é a filha autista.

Mesmo quando favorecidos pelo texto, é difícil encontrar em qualquer cinema pelo mundo um elenco tão coeso, e no quesito o filme de Sóh sobressai novamente com louvor. Para se ter uma ideia do peso destas atuações, quando uma obra apresenta um desempenho visceral de uma artista do porte de Adriana Esteves (na pele da matriarca Maria) e mesmo assim podemos considerá-lo o laço de menos ressonância, entendemos o nível da maestria de tudo. Esteves, por sinal, está uma força da natureza. Ela grita, exala a tristeza e beira a loucura de uma mulher insatisfeita. Ao lado do ex-marido da vida real, Marco Ricca, transparece a ótima química em cena.

O que acontece é que todos os outros membros do elenco demonstram trabalhos divisores de águas em suas carreiras. O veterano Ricca é o carro chefe, o ator nunca esteve melhor no cinema do que em seu retrato do sofrido e truculento pai de família, atingindo aqui o ápice de sua abrangência performática. A mescla de explosão e calmaria emociona, trazendo a performance do ator ao nível das entregas dignas de prêmios. De fato, Ricca merece todos os possíveis e imagináveis. Ao seu lado, a bela e carismática Bianca Bin entrega uma estreia de veterana, com total domínio cênico. Sóh exige cenas difíceis de seus atores, em especial do trio de jovens (os filhos), mas o resultado é uma mescla de bom gosto com intensidade. Pedro Nercessian se entrega de alma num grande momento para sua promissora carreira, e a menina Cacá Ottoni realiza uma das partes mais difíceis na pele da introspectiva filha autista.

Canastra Suja fala em sua essência sobre união, sobre como, mesmo contra todas as adversidades, um núcleo familiar pode se reestruturar e seguir. Tão próximo da tragédia, das desconfianças, da perda da inocência, da intolerância e de decisões que podem nos custar o ponto sem volta, Canastra Suja dialoga com propriedade a respeito da capacidade do ser humano de se reerguer após chegar ao fundo do poço. Caio Sóh transita harmoniosamente entre gêneros e atinge o clímax de sua curta filmografia, entregando sua obra-prima. Num ano especialmente bom para o cinema nacional, Canastra Suja surge como a cereja no bolo. E 2018 está apenas na metade...





Inscreva-se em nosso canal e receba conteúdo exclusivo » https://goo.gl/mPcJ5c