Crítica | Vermelho Russo

Crítica | Vermelho Russo

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Por Julie Nunes

O papel nosso de cada dia

Quando Stanislavski desenvolveu seu sistema, importante aqui destacar a diferença para o conhecido método surgido posteriormente com base neste sistema, ressaltava entre muitas a cautela perante as emoções, e a imensa necessidade de contato com o real. Equilibrar uma atuação seguindo essa mínima premissa é um enorme desafio, atuar é um enorme desafio, contudo, viver é maior ainda e, no entanto, o fazemos.

Claro que com atropelos e impulsos que nem sempre parecem ser dos mais agradáveis ou ao menos dos mais esperados, mas é exatamente sobre isso que falava Stanislavski. No cinema, a arte tenta alcançar a imensidão desta batalha cotidiana, que se dá entravada ao meio de detalhes ao primeiro momento soando tão banais, como o rompante de um copo que se estilhaça no chão. De sua lupa surge o potencial para dar aos pequenos instantes o poder que lhes cabe.

     

Vermelho Russo conta a história de Martha (Martha Nowill) e Manoella (Maria Manoella), em uma viagem para estudarem interpretação na Rússia. Não é à toa que os nomes são mantidos para as personagens, pois a obra é baseada no diário de viagem das duas amigas que de fato a realizaram. A partir desse ponto, a obra se mostra infinitamente mais complexa e cheia de nuances do que uma simples sinopse é capaz de revelar.

O longa não é uma exata representação de tudo que foi vivido, mas uma releitura e, nesse processo, há o olhar de um terceiro, o seu diretor, Charly Braun. Sua participação no roteiro e a direção transformam a experiência que poderia cair no restrito âmbito da repetição de uma memória, na elaboração de um pensamento mais nítido sobre as relações que se deram, os processos ocorridos e a implementação de uma linguagem como condução.

Viajar traz para nós superlativos que se camuflam com facilidade dentro do cotidiano controlado, as ausências, sobretudo, possuem essa força de nos deslocar para sentimentos mais elevados, seja uma grandeza quantitativa ou qualitativa. Martha e Manuella não passam ilesas, instante algum parece ser inexpressivo nessa experiência e toda a intensidade é percebida por elas ou pelo espectador que consegue se identificar com facilidade. Seja em meio a uma discussão sobre o excesso de bagagem ou a bagunça no quarto, chegando até mesmo na discussão sobre os papéis exercidos, não só enquanto atrizes em uma peça, mas em suas vidas.

Nesse ponto não há volta e tudo que estava visto apenas em feixes de desentendimento fica explícito e colocado como um definitivo marco, como quem se olha no espelho e entende o que significa ser daquela forma. As amigas, a amizade e a vida como um todo é colocada de frente e o reflexo traz debates que se tornam irremediáveis.

A Rússia serve para a trama não só como uma paisagem, mas como uma catalisadora de todo o processo que está por vir. O frio e a não compreensão da língua são representações, atuações reais da vida, no que se passa entre as personagens, a partir de uma comunicação que começa a ser ruidosa e falha, o que amplia a distância e só consegue ser superada em cena. Nela, é demandado que os egos se afastem e que o que existe de verdadeiro naquelas pessoas seja evocado em nome da interpretação e somente dessa forma elas são capazes de outra vez se enxergar.

O filme que existe dentro do filme, este executado pelo personagem de Esteban Feune de Colombi, se torna mais uma ferramenta dessa metalinguagem e algumas cenas são apenas vistas através dos planos de sua câmera, que com outra estética rapidamente aciona esse olhar distinto, capaz de ressaltar todas as camadas vistas na obra.

Martha Nowill e Maria Manuella trazem o frescor da naturalidade em suas interpretações, embebidas da própria vivência e de uma delicadeza milagrosa entre o drama e o humor. Nessa combinação de expor a verdade em meio à ficção surge uma obra que responde com sinceridade tanto para a arte quanto para vida.


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