Estamos chegando na metade do Bonito CineSur 2026, um evento que vem nos apresentando, através da força do cinema sul-americano, diversas obras que encontram elos nas reflexões sobre pertencimento e memória.

A curadoria, de todas as mostras competitivas do evento, vem proporcionando um verdadeiro banquete de variedades, seja pela força de alguns roteiros que fogem da caixa, ou pelo desbravar da linguagem através do sensorial. Pra quem é cinéfilo, um deleite.

Assim, sabendo que assistiríamos obras audiovisuais relevantes, chegamos ansiosos ao quarto dia de exibições dos filmes que concorrem ao troféu pantanal, prêmio que será entregue no próximo sábado (01 de agosto).
Quando estivemos no Cinemato, semanas atrás, assistimos a um filme que causou impacto. E, dias depois, encontramos novamente com ele, na tarde de quarta-feira (29 de agosto), aqui no Bonito CineSur. Trazendo para o centro da tela a ancestralidade se misturando no momento presente de um povo indígena profundamente ligado às águas, Mapago, projeto do Mato Grosso do Sul, dirigido por Marcus Telles, é cheio de possibilidades em sua narrativa.
‘Mapago’: Marcus Teles leva a cultura do povo Guató ao Bonito CineSUR e revela próximo projeto
Optando por uma fluidez que envolve o concreto de realidades marcadas por injustiças ao universo sobrenatural, por meio de simbolismos que se mostram importantes para a construção de um povo e de sua luta pela identidade, Mapago nos coloca de frente com questões, entre elas as socioambientais, que revelam os tipos de silêncios enraizados em nosso país.
Mais tarde, na mostra competitiva de filmes sul-americanos, dois filmes ganharam a atenção do público, o brasileiro Vermelho de Bolinhas e o paraguaio ¿Quién Mató a Narciso?. O primeiro, nos leva a uma curiosa investigação sobre a primeira beata do Ceará. Benigna Cardoso, uma jovem de 13 anos, vítima de feminicídio na década de 1940, o epicentro do estudo de caso desse ótimo curta-metragem. A obra conduz o público para uma teia de informações, do concreto ao imaginado, percorrendo de forma envolvente a relação de fiéis em torno da devoção de uma imagem e investigando sua origem.
A narrativa é modelada de forma simples e muito eficiente, soando naturalidade, mesmo ao abordar um assunto complexo, cheio de raízes nas suposições. Com uma narração em off muito bem conduzida e um texto objetivo com gigante clareza, vamos atravessando o município de Santana do Cariri com uma lupa imaginária em busca de respostas que encontram no horizonte a memória e a identidade.
Chegando para se juntar a essa prateleira de filmes paraguaios que conseguem chegar ao nosso país, nos encontramos, no encerramento de mais um dia marcante do Bonito CineSur 2026, com ¿Quién Mató a Narciso?, filme que volta ao tema da ditadura revisitando a história marcante de um famoso radialista e amante do rock and roll, brutalmente assassinado em meio às perseguições militares, que causavam terror pelas ruas de Assunção.
Figura central da obra, Narciso personifica a resistência, com gritos transgressores de liberdade. Através de sua postura corajosa, vive a liberdade que acredita em uma época de ditadura militar no Paraguai, uma dos regimes mais violentos e longevos do nosso continente (35 anos), marcado pelas ações desumanas. Leia a crítica completa aqui: Crítica | ‘¿Quién Mató a Narciso?’ – O desespero silencioso e a personificação da resistência [Bonito CineSur 2026].
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