A Lenda de Candyman era um dos projetos mais aguardados pelos fãs de terror para o ano de 2021 e não desapontou. Sucesso de crítica, garantindo o tomate fresco no agregador Rotten Tomatoes com 84% de aprovação da imprensa (contando cerca de 330 resenhas), a nova versão de Candyman abriu em primeiro lugar nas bilheterias norte-americanas, arrecadando um pouco mais de US$22 milhões em seu fim de semana de estreia, desbancando blockbusters como Free Guy – Assumindo o Controle e Jungle Cruise (em tempos ainda pandêmicos em agosto de 2021). Com um orçamento de US$22 milhões, A Lenda de Candyman se pagou no primeiro fim de semana, mas a longo prazo terminou sua carreira nas telonas de forma satisfatória com US$77 milhões em caixa para a Universal Pictures e a MGM – não tão arrebatador quanto sucessos com Invocação do Mal 3, Halloween Kills e Tempo, mas também longe de fracassos como Noite Passada em Soho, Maligno e O Homem nas Trevas 2.

A Lenda de Candyman estreou recentemente na Amazon Prime Video, pronto para fazer carreira junto a outro tipo de público: a geração dos streamings. Ou seja, parte do público que ainda não se sente confortável a retornar a eventos coletivos de aglomerações, ou que simplesmente optaram por ver filmes no conforto de casa – deixando para os cinemas só o que considerem imprescindível. É um fato que hoje, assim como foi nas décadas de 1980 e 1990 com as vídeo locadoras, os filmes recebem sobrevida no mercado de streaming, podendo estar de fácil acesso a qualquer um. O fato também faz com que filmes que não conseguiram atingir o esperado por seus respectivos estúdios descubram uma nova audiência vindo a se tornar um sucesso de visualizações. O mundo não está mudando, ele já mudou.

Problemas à frente. Anthony (Yahya Abdul-Mateen II) é o novo protagonista atormentado de ‘A Lenda de Candyman’.

Desta forma, agora todos terão acesso a um dos filmes mais interessantes e criativos de 2021 – e não apenas dentro do gênero terror. É claro que para apreciar melhor A Lenda de Candyman é necessário um conhecimento prévio de quem é o personagem e a mitologia em torno dele, criado pelo romancista Clive Barker e adaptado originalmente ao cinema em 1992, com o filme cult O Mistério de Candyman. Eu escrevi sobre o filme original – que completa 30 anos em 2022 – e sobre a história por trás do longa, assim como suas duas continuações ainda na década de 1990, texto que você pode conferir abaixo no link. Ao contrário dos filmes de terror slasher que renderam franquias de sucesso, O Mistério de Candyman se comporta como uma obra mais sofisticada, de ritmo deliberadamente lento, a fim de uma construção mais aprofundada do clima e dos personagens (o vilão só dá as caras de verdade com quase 1 hora de projeção, por exemplo). No entanto, o motivo real do hype pelo anúncio de um novo Candyman veio da presença do cineasta Jordan Peele à frente do projeto.

Leia também: O Mistério de Candyman (1992) Completa 30 Anos | Conheça a franquia de terror slasher poética e representativa


Não faça isso! Brianna (Teyonah Parris) encara o espelho e se vê tentada a repetir cinco vezes o nome de Candyman.

O diretor, é claro, se tornou um dos novos Midas de Hollywood, fazendo virar ouro tudo o que toca. Com longas no currículo como Corra! (2017) e Nós (2019), Peele era realmente o realizador ideal para trazer o mito de Candyman aos novos tempos; afinal estamos falando de um produto de teor racial altamente representativo. O Candyman é uma figura folclórica saída dos guetos de um conjunto habitacional de Chicago. No segundo filme, de 1995, recebemos a adição da história de origem do personagem, um escravo artista que se apaixona por uma mulher branca, e ela por ele, e é punido com a tortura e a morte pelo romance. Nas mãos de Peele, sabíamos que o tema seria trazido aos tempos atuais de forma precisa e exímia.

Aproveite para assistir:



A história por trás do mito de Candyman é contada aqui através de luz, sombras e bonecos de papel.

Jordan Peele produz e roteriza A Lenda de Candyman, para a direção igualmente bastante capaz de Nia DaCosta (que já garantiu seu lugar na Marvel com o próximo filme da Capitã Marvel). Agora, Cabrini-Green, o conjunto habitacional onde se passa o primeiro filme, foi revitalizado com a chamada gentrificação, trazer inovações a uma área precária da cidade. O local em 2021 é habitado por artistas em novos e grandes prédios. Nesse cenário é que somos apresentados ao casal protagonista, Anthony e Brianna, interpretado pelos ótimos e promissores Yahya Abdul-Mateen II (Aquaman, Watchmen, Os 7 de Chicago, Matrix Resurrections e Ambulância – Um Dia de Crime) e Teyonah Parris (WandaVision), respectivamente. Anthony é um pintor e artista plástico tentando emplacar na carreira, e Brianna é uma organizadora de exposições em galeria de artes. É apenas quando entra em contato com a lenda de Candyman, que o trabalho de Anthony começa a se tornar mais significativo.

O ótimo Colman Domingo vive William Burke, um dos personagens centrais de ‘A Lenda de Candyman’.

Acontece que o protagonista se vê obcecado pela trágica história do vilão e seu trabalho artístico começa a refletir este terror e grafismo. A trama do novo Candyman começa mesmo no fim da década de 1970, quando um menino morando no conjunto habitacional citado se depara com a figura de Sherman Fields (Michael Hargrove), um homem meio desequilibrado da vizinhança que vivia oferecendo doces para as crianças. Quando as mães começaram a encontrar lâminas de barbear nos doces, alertaram a polícia e o sujeito se torna foragido. Na verdade, ele ainda estava escondido no local, e o pequeno William o encontra. A polícia, de sua maneira “sutil”, desce o cacete no sujeito, um homem negro, num bairro negro, espancado até a morte por policiais brancos. Deu para sentir o teor político carregado do filme. Porém, essa não é uma tentativa de lacração, afinal situações assim, infelizmente, ainda ocorrem todos os dias e desde a década de 90 faz parte do universo de Candyman, se encaixando como uma luva.

O trágico Sherman Fields (Michael Hargrove) assume o manto do bicho-papão em ‘A Lenda de Candyman’.

O que mais chama atenção em A Lenda de Candyman é como tais temas são trazidos com perfeição para os dias de hoje pelo roteiro de Jordan Peele e a direção mais do que estilosa de Nia DaCosta. A dupla mistura de forma precisa a fantasia sobrenatural da figura do bicho-papão, centrando tudo num contexto bem real, e incrivelmente assustador. Fora isso, outro ponto a se destacar é a baita homenagem que Peele e DaCosta fazem ao filme original, ligando tudo com muito primor. O novo filme é definitivamente uma continuação, embora muitos queiram chamar de reboot.


Voltando ao elenco, o nome de Abdul-Mateen II está em plena ascensão em Hollywood, e o ator realiza um tremendo trabalho como o atormentado Anthony, que possui uma trajetória similar a da heroína Helen Lyle (Virginia Madsen) no filme original, ou seja, um investigador que se torna tão obcecado pela figura mitológica que termina consumido por ela. Mas Mateen II não era a primeira opção para Anthony, e outro ator quase deu vida ao personagem. Trata-se do igualmente talentoso LaKeith Stanfield, mais conhecido por trabalhos em Corra!, Desculpe te Incomodar e Entre Facas e Segredos. Stanfield eventualmente terminou recusando o papel em prol de Judas e o Messias Negro, também lançado em 2021, que rendeu a primeira indicação ao Oscar para sua carreira – ou seja, foi uma troca justa.

O espelho começa a refletir coisas para lá de bizarras em ‘A Lenda de Candyman’.

Por falar em trocas justas, o cineasta Jordan Peele inicialmente seria o diretor de A Lenda de Candyman, embora muitos ainda considerem o projeto como um filme seu. Em um último momento, Peele optou por apenas escrever e produzir o longa, e assim a jovem Nia DaCosta, de 32 anos, foi contratada para a cadeira de diretora. Pelo trabalho, DaCosta se tornou a primeira diretora mulher negra da história a ter um filme estreando em primeiro lugar nas bilheterias norte-americanas. Um recorde que deve ser louvado e celebrado. Fora isso, temos também algumas quebras de barreira dentro do próprio universo da franquia Candyman no cinema, que embora se trate de um terror representativo, ainda precisava romper alguns estigmas. Como por exemplo, ser o primeiro filme da franquia a possuir protagonistas negros, fora o vilão. Nos filmes anteriores, as três protagonistas eram mulheres loiras de olhos azuis. Nesse aspecto, A Lenda de Candyman é ainda mais representativo. Outra representatividade muito bem-vinda é a adição dos personagens Troy (Nathan Stewart-Jarett) e Grady (Kyle Kaminsky), o primeiro casal gay interracial da franquia – que são alguns dos poucos personagens que não encontram um destino fatal com o Candyman e sobrevivem.

Peele e DaCosta são duas mentes extremamente criativas e criam uma obra que adiciona muito ao universo existente, abordando sua história com muita coragem e ousadia. Sem adentrar muito no território de spoilers, um dos artifícios mais interessantes adicionados ao novo filme é a noção de uma “colmeia” de CandymEn, onde #somostodoscandyman. A entidade deixa de ter uma única forma, o que é inteiramente cabível e abraça o coletivo. Além disso, em A Lenda de Candyman temos o bad ending necessário, contido nos exemplares de terror que nos deixam verdadeiramente com a pulga atrás da orelha. Ou seja, A Lenda de Candyman teve a coragem de não derrotar um vilão que ainda não foi verdadeiramente derrotado em nosso mundo real, e parece estar longe disso. Enquanto este fantasma não deixar de assombrar o mundo, o Candyman igualmente estará à espreita.

Não deixe de assistir: