Indústria cinematográfica da China e Japão tem uma longa história de consolidação, censura e retomada; trajetória que inspirou a produção de Shang-Chi 

A mais nova aventura envolvendo um personagem da Marvel Comics já está disponível para o público, sendo ela um mergulho profundo e inédito (para a franquia) no universo das artes marciais asiáticas. Muito mais do que uma continuação do trabalho conduzido pelo estúdio desde 2008, ele também existe como uma homenagem a todo um subgênero.

Bastante popularizado nos anos 70 e 80, os filmes de artes marciais se tornaram uma febre junto ao público graças às obras protagonizadas por Bruce Lee. Mais importante ainda foi a representatividade fornecida por essas produções e pelo próprio astro mencionado. Até o momento de popularização desses filmes, porém, a imagem dos asiáticos não era positiva nos EUA.

Sendo um elemento remanescente da Segunda Guerra Mundial e da Guerra da Coreia, nos anos 50, a visão negativa que esse público possuía tanto de atores como produções asiáticas eram indícios que a rivalidade sino-americana (incendiadas após os ataques a Pearl Harbour mas com início nos embargos sofridos pelo Japão antes) ainda era um tópico bem vivo na sociedade.



Os ataques à Perl Harbor tiveram grande impacto na percepção do público acerca dos japoneses

Algumas das representações mais infames de asiáticos em Hollywood tiveram lugar em produções extremamente importantes nos anos 60, ou seja, não era algo reservado a filmes menores. Nesse sentido, Bonequinha de Luxo é um exemplo histórico pela forma como apresentou o personagem Sr. Yunioshi.

Interpretado por Mickey Rooney, o personagem hoje é lembrado como uma amostra do pensamento xenófobo da época, principalmente por envolver um ator ocidental interpretando um personagem de origem japonesa, carregado de esteriótipos e visualmente remetente às antigas propagandas de recrutamento de guerra, estas que demonizam estes grupos para assim incitar novos soldados.

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Ainda na mesma década, o primeiro filme de James Bond (007 – Contra o Satânico Dr. No) trouxe o ator canadense, Joseph Wiseman, para representar o vilão Julius No; um cientista que trabalhava para a organização terrorista S.P.E.C.T.R.E e possui traços orientais evidentes; é válido também citar uma obra ainda mais antiga, de 1956, intitulada Sangue de Bárbaros no qual o ator John Wayne interpretou o conquistador mongol Gengis Khan.

A infame atuação de Mickey Rooney em “Bonequinha de Luxo

Todas essas situações, como dito anteriormente, tinham raízes na relação tumultuosa entre EUA e Japão, porém, já no raiar do século XX a relação com a China também não era perfeita. No artigo The Evolution of Chinese and Asian Faces in Hollywood, assinado por Elizabeth Lee para o portal Voa News, é abordado que conflitos anteriores geraram indisposição também nas relações dos norte-americanos com os chineses e que por sua vez fomentaram todo tipo de narrativas ofensivas.



“ Durante esse período na história, as tensões políticas entre o ocidente e a China chegaram a um pico durante a rebelião dos Boxers em 1900, um levante contra as influências ocidentais na China. Com toda essa história veio a percepção do chinês como o ‘perigo amarelo’, o chinês sinistro, o chinês que você não podia confiar. E isso resultou no personagem chamado Fu Manchu”.

Este era o principal antagonista nas histórias assinadas pelo escritor Sax Rohmer na primeira parte do século XX, carregando diversas críticas ao longo das décadas por representar uma visão ocidental negativa incentivada contra os chineses. No artigo The Yellow Peril: Dr Fu Manchu and the Rise of Chinaphobia Review, escrito por Phillip French ao The Guardian, é dissecado como Rohmer chegou à essa visão do vilão.

“O novo século abriu com a primeira referência, no Daily News de 21 de julho de 1900, ao ‘perigo amarelo na sua forma mais grave’…É neste ponto que a própria encarnação desta ameaça na forma do Dr. Fu Manchu começa a se desenvolver na mente confusa, fértil, florida e prolífica de seu criador., um autodidata da classe trabalhadora de ascendência irlandesa chamado Arthur Sarsfield Ward, que foi adotar o pseudonimo de Sax Rohmer…Como jornalista ele se tornou uma falsa autoridade em Limehouse (distrito de Londres) e na comunidade chinesa, além de afirmar ter visto um chinês alto e sinistro lá uma noite…”

Christopher Lee interpretando Fu Manchu

Em contrapartida, se Hollywood oferecia um campo escasso para talentos asiáticos, o pós Segunda Guerra testemunhou o renascer das indústrias cinematográficas chinesas e japonesas. A partir de 1945, a cidade de Xangai viu o retorno de diversos estúdios de cinema que haviam tido suas atividades interrompidas durante a ocupação japonesa; dentre os cineastas que voltaram nenhum representou peso mais simbólico do que Cai Chusheng.

Foi sob a euforia de um retorno do cinema chinês que a obra The Spring River Flows East ganhou vida em 1947, sendo considerada a obra prima do cinema da China em todos os tempos. Com mais de três horas de duração, a história narra um drama poderoso sobre o ponto de vista chinês a respeito da guerra e as privações inerentes desse cenário na população. 

Após a instauração do regime comunista, ainda nos anos 40, o cinema nacional não sofreu um novo esfriamento mas sim um incentivo; isso porque o Partido Comunista Chinês entendia o potencial daquele meio para a perpetuação da ideologia junto à população. Em contrapartida, todos os filmes vindos do ocidente (principalmente de Hollywood) e de Hong Kong (então protetorado inglês) estavam banidos.

“The Spring River Flows East” é um filme essencial do cinema chinês

Também nesse mesmo período, o cinema japonês se viu ainda estagnado; durante a guerra ele serviu como ferramenta de propaganda do império, no qual todas as produções obrigatoriamente deveriam seguir uma cartilha de recomendação no qual exaltavam as glórias do exército e do imperador. 



A situação não se viu muito melhor no pós guerra, quando as forças de ocupação norte-americanas verificavam cada produção realizada afins de verificar se não circulavam mensagens antiamericanas. Foi nessa fase que a carreira do cineasta Akira Kurosawa começou a ascender e com ele vieram os anos 50, tidos como o mais importante período do cinema nipônico.

Filmes como Os Sete Samurais (1954), Gojira (1954), Rashomon (1950) ultrapassaram as barreiras nacionais e inspiraram levas de artistas no ocidente; tendo a filmografia de Kurosawa um papel essencial nesse intercâmbio. Mesmo após décadas de seu primeiro filme, estilo de condução da câmera; enquadramento de cenário e senso estético. 

Akira Kurosawa, um dos arquitetos do cinema japonês do pós guerra

A partir do final dos anos 60 e início dos 70, Hollywood, tomada por um novo movimento com identificação profunda nos filmes independentes europeus, viu o surgimento de uma nova gama de artista vindos de seções tradicionalmente marginalizadas da sociedade. Foi o período da Blaxploitation de Gordon Parks e das artes marciais de Bruce Lee.

Graças à Operação Dragão (1973) Lee se tornou o primeiro ator sino-americano a figurar dentre os grandes nomes do cinema nacional; ele não se conteve apenas com a fama mas utilizou dessa nova posição para expor a situação precária com que outros sino-americanos eram vistos e representados; sendo mestre em diversos estilos de artes marciais, ele constantemente apresentava essa filosofia em seus filmes.

Como consequência o público, antes estranho a essa prática, a abraçou e, principalmente, abraçou a versão dela apresentada por Lee de que artes marciais não era algo bélico por natureza mas sim de reflexão e pesquisa.


Bruce Lee foi essencial não só para a popularização de filmes sobre artes marciais mas também de artistas chineses em geral

Ainda que a devida igualdade de representações asiáticas e ocidentais não seja uma realidade plena em Hollywood, dificultadas ainda mais pela deflagração da pandemia de Covid-19 e pela relação turbulenta entre Washington e Pequim, existe um gradual interesse em trabalhar abordagens dessas culturas (ainda que motivadas principalmente pelo potencial de bilheteria do público chinês) de forma mais comum.

É com isso em mente que Shang-Chi e a Lenda dos Dez Aneis se apresenta com uma dignidade não muito diferente de obras como O Tigre eo Dragão ou Amor à Flor da Pele; não se propondo a ser a obra unificadora entre ocidente e oriente mas como algo que simplesmente não se envergonha da bagagem cultural que carrega pela origem e não teme mistura-la com conceitos do estilo de vida ocidental.

  

 

 

 

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