Há exatos dez anos, Katy Perry fazia história com o lançamento do antecipadíssimo Teenage Dream, o álbum de maior sucesso de sua carreira. Considerado por inúmeros especialistas como um dos símbolos da música pop da década de 2010. Além de ter quebrado inúmeros recordes, um deles tornando Perry a primeira mulher e segunda artista na história a levar para casa o cobiçado Spotlight Award (ao ter colocado cinco canções em primeiro lugar na Billboard Hot 100), é inegável falar do impacto que a obra causou no cenário mainstream, calcando seu estrelato com solidez absoluta.

Durante a construção do álbum, Perry havia comentado que seguiria os passos de seu début One of the Boys, afastando-se relativamente da construção pop-rock para uma incursão extremamente dançante, cativante e que trouxesse apenas memórias boas a seus fãs. É claro que Katy já tinha encontrado sucesso considerável com os clássicos “I Kissed a Girl” e “Hot n Cold”, faturando, inclusive, duas indicações ao Grammy Awards – e, com razão, voltaria a se aventurar com a produção chiclete de Dr. Luke e Max Martin (este conhecido também por seu trabalho com Taylor Swift, Pink e Maroon 5, por exemplo) para uma espetacular jornada de libertação, celebração e autodescobrimento.

Para o bem ou para o mal, Teenage Dream mostrou um lado indesculpavelmente avassalador da cantora e compositora. Ela já havia chocado a sociedade conservadora alguns anos atrás com as faixas supracitadas e, aqui, o choque se transformaria em um apelo pelo amadurecimento e pelo enaltecimento de nossas próprias personalidades – como visto em “Firework”, até hoje um dos hinos LGBTQIA+ que não podem faltar nas playlists de orgulho. Mais do que isso, Perry condiciona a música a se transformar em um espetáculo visual e sonora, aproveitando o legado deixado por Lady Gaga com ‘The Fame’ e ‘The Fame Monster’; ora, se Gaga havia resgatado a EDM e lançado sombra para uma década inteira de produções upbeat, Katy não ficaria de fora e reclamaria por um espaço só seu nos holofotes da fama.



Cada peça da engrenagem é alicerçada em vibrante e contrastantes referências que variam desde homenagens a ABBA até estonteantes representações pin-up de Betty Paige, Shirley Temple e Marilyn Monroe – afinal, como não se encantar com a estética de “California Gurls” ou com a nostálgica narrativa de “Last Friday Night (T.G.I.F.)”? E, como a cereja do bolo, vemos uma variedade aplaudível de gêneros e subgêneros que se amalgamam em declamações que dominaram as pistas de dança, as estações de rádio e que permanecem na memória de muitos, mesmo daqueles que não a tomam como favorita.

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O mais interessante do álbum é a forma como um grupo seleto e numeroso de produtores, que já trabalhara com Perry antes, conseguiu unir forças para arquitetar uma plasticidade coesa que mantém a identidade faixa a faixa e, ao mesmo tempo, mescla diferentes investidas – como visto entre as três primeiras músicas, a elétrica “Firework” e a sintética “Peacock” (cujo bizarro título de fato não poderia prever uma história extremamente sex positive). Além de Luke e Martin, nomes como Benny Blanco, Lukasz Gottwald e Greg Wells repetem os feitos do álbum anterior, mas, dessa vez, afastando-se de mensagens profundas e apostando fichas no escapismo do synth-pop com força inimaginável. Mais do que isso, as doze tracks, de certa forma, repetem os feitos de Alanis Morrissette com ‘Jagged Little Pill’ ao voltarem-se para o teor mercadológico, resultando em vendas extraordinárias que já ultrapassaram mais de 8 milhões de unidades.

A verdade é que, em virtude de tudo o que Teenage Dream representa para Katy e para seus fãs, críticas mistas não mudam o significado do álbum, nem sua importância. Em um olhar mais contemporâneo (mais de uma década depois de seu lançamento), é notável que, apesar da falta de densidade lírica e de temas repetitivos, a artista se mostrou ousada em provocar os ouvintes com certos experimentalismos ainda crus, como visto nas dissonâncias “Circle the Drain”, ou com a fusão de dubstep e techno de “E.T.”, uma das simbólicas assinaturas da discografia de Perry. E, enquanto os especialistas internacionais destacaram a falta de personalidade e de vulnerabilidade do CD, “The One That Got Away” merece mais atenção por mostrar um outro lado da performer.



A despeito de serem boas ou não, é necessário comentar sobre o fato de todas as canções do álbum – incluindo a versão deluxe e o ‘Complete Confection’, lançado em 2012 – terem tido potencial enorme de cair no gosto popular e ascenderem como singles. Perry, analisando a indústria como ninguém, embalou-se em cada brecha encontrada e estruturou uma das eras mais bem trabalhadas da história da música, motivo pelo qual permanece viva mesmo uma década depois de seu lançamento. Teenage Dream entrou merecidamente para um patamar sagrado da indústria fonográfica e, naquele momento, colocou Katy no topo do mundo.

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