Entre encontros históricos, sessões nostálgicas e filmes que já despontam como favoritos da crítica, o terceiro e o quarto dia da 79ª edição do Festival de Cannes já consolidaram algumas das principais conversas deste ano.
Da abertura da mostra Un Certain Regard com um slasher metalinguístico ao aguardado encontro com Peter Jackson, passando pela celebração dos 25 anos de Velozes e Furiosos e pela recepção calorosa a Fatherland (2026), de Paweł Pawlikowski, a Croisette viveu dias intensos. Confira um resumo completo para ficar por dentro de tudo o que movimentou o festival até agora.
Peter Jackson revisita a própria carreira
Um dos momentos mais disputados da programação foi a conversa com Peter Jackson, que percorreu toda a trajetória do diretor, do horror trash de Total Náusea (1987) ao fenômeno mundial de O Senhor dos Anéis.
Jackson relembrou como King Kong (1933) foi decisivo para despertar sua paixão pelo cinema ainda na infância, inspiração que décadas depois culminaria em sua própria versão do clássico, King Kong (2005). O diretor também comentou os bastidores de Almas Gêmeas (Heavenly Creatures, 1994), responsável por revelar Kate Winslet ao mundo.

Questionado sobre a inteligência artificial no audiovisual, Jackson adotou um discurso pragmático. Para ele, a IA deve ser encarada como mais uma ferramenta de criação, desde que respeite direitos autorais e direitos de imagem.
A delicadeza do cinema japonês na competição
Entre os filmes da competição oficial, Nagi Notes, de Kōji Fukada, apostou na sutileza emocional para retratar afetos e solidão. O longa acompanha o reencontro entre uma escultora e a ex-cunhada que retorna à cidade depois de anos vivendo fora do Japão.
O filme remete ao estilo contemplativo de obras como Monster, de Hirokazu Kore-eda, e Dias Perfeitos, de Wim Wenders, ao explorar a beleza dos pequenos gestos e das relações silenciosas.
Já A Vida de Uma Mulher (no original La Vie d’une Femme), de Charline Bourgeois-Tacquet, trouxe Léa Drucker como uma cirurgiã que tenta equilibrar carreira, casamento, maternidade e o Alzheimer da mãe enquanto vive um romance inesperado com uma escritora.
“Teenage Sex and Death at Camp Miasma” chama atenção

O destaque mais divertido da programação veio da abertura da mostra Un Certain Regard com Teenage Sex and Death at Camp Miasma (2026), novo trabalho de Jane Schoenbrun.
O filme faz uma leitura metalinguística dos slashers dos anos 1980, dialogando diretamente com franquias como Sexta-feira 13, Halloween e A Hora do Pesadelo. A narrativa acompanha uma jovem diretora encarregada de revitalizar uma franquia de terror decadente, usando o próprio funcionamento da indústria cinematográfica como alvo da sátira.
Conhecida por We’re All Going to the World’s Fair e Eu Vi o Brilho da TV (I Saw the TV Glow), Schoenbrun entrega um filme que mistura horror, humor e crítica à cultura das franquias.
Velozes & Furiosos transforma sessão da meia-noite em celebração
O quarto dia do festival começou ainda de madrugada, com a sessão especial em homenagem aos 25 anos de Velosos e Furiosos. A exibição contou com a presença de Vin Diesel, Michelle Rodriguez e Meadow Walker, filha de Paul Walker.
Durante o evento, Vin Diesel reforçou o discurso de que a franquia se tornou um fenômeno mundial graças à relação construída com o público ao longo de mais de duas décadas. Segundo o ator, apesar da fama pelas cenas de ação e carros tunados, o sentimento central da saga sempre foi “amor” e “família”.
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Ceniza en la Boca aborda imigração e amadurecimento
Na mostra Cannes Premiere, Diego Luna apresentou Ceniza en la Boca (2026), drama sobre uma família mexicana tentando reconstruir a vida na Espanha.
O longa começa como um coming-of-age centrado na filha mais velha da família, obrigada a amadurecer rapidamente enquanto enfrenta empregos precários e problemas familiares. Porém, a narrativa muda de direção quando a família enfrenta uma tragédia na Espanha e os personagens retornam ao México, o que altera completamente o tom da história.
Fatherland desponta como favorito
Entre os concorrentes à Palma de Ouro, Fatherland surge até aqui como um dos títulos mais fortes da competição. O novo filme de Paweł Pawlikowski acompanha Thomas Mann em meio às tensões políticas da Alemanha dividida no pós-guerra.

Conhecido por Ida (2013) e Guerra Fria (2018), Pawlikowski mantém sua assinatura visual elegante e histórica. O elenco liderado por Sandra Hüller reforça o peso dramático da produção. Mesmo dividindo opiniões emocionalmente, o longa já aparece entre os preferidos da crítica especializada graças à sua direção rigorosa, à fotografia sofisticada e à abordagem política ambígua sobre a divisão entre Oriente e Ocidente.
Asghar Farhadi entrega filme envolvente
Se Fatherland impressiona pela forma, Histórias Paralelas, de Asghar Farhadi, foi um dos filmes que mais provocou envolvimento emocional até agora.
Com um elenco que reúne Isabelle Huppert, Virginie Efira e Catherine Deneuve, o diretor constrói uma narrativa sobre criação, manipulação e os limites entre ficção e realidade. Até aqui, o longa surge como um dos grandes destaques artísticos do festival, reforçando a habilidade de Farhadi em criar dramas psicológicos carregados de ambiguidades morais.

Com ainda muitos dias pela frente, a 79ª edição do Festival de Cannes segue alternando nostalgia, debates políticos, novas linguagens e filmes autorais que prometem dominar as discussões cinematográficas nas próximas semanas.
Veja os resumos em vídeo:




