CineBH prova a importância dos Festivais! E por que a crítica de cinema ainda é tão necessária… [Vídeo]

Em tempos nos quais algoritmos parecem decidir o que devemos assistir e grandes lançamentos chegam aos cinemas acompanhados de campanhas milionárias, festivais como a CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte cumprem uma missão que vai muito além de simplesmente exibir filmes. São nesses espaços que obras ainda desconhecidas encontram seus primeiros espectadores, cineastas conseguem conversar diretamente com o público e críticos têm a oportunidade de descobrir produções que talvez nunca apareçam com destaque na página inicial de um streaming.

Na cobertura da 20ª CineBH, o CinePOP mergulhou nessa experiência. Foram dias correndo entre sessões, conversando com realizadores, descobrindo filmes brasileiros e latino-americanos e, principalmente, debatendo cinema. Em uma conversa descontraída durante o festival, Renato Marafon, Raphael Camacho e o jornalista e crítico Miguel Arcanjo acabaram entrando em uma discussão que resume perfeitamente o espírito de uma mostra cinematográfica: afinal, para que serve um crítico de cinema?

A resposta talvez esteja justamente na impossibilidade de existir uma única resposta.

Assista:

Entre tantos filmes apresentados na CineBH, Miguel Arcanjo elegeu ‘Pequenas Tragédias’, de Daniel Nolasco, como sua grande descoberta até aquele momento. O longa acompanha um jovem gay vivendo em Catalão, no interior de Goiás, e utiliza elementos autobiográficos para discutir pertencimento, sexualidade e a sensação de crescer em um lugar no qual ser diferente pode significar viver permanentemente deslocado.

“É aquela cidadezinha mais conservadora. Existe um padrão do que significa ser homem naquele lugar, aquele agroboy. Então, se você foge desse padrão, se é um cara mais intelectual, gosta de ler livros, de ver filmes, como encontra seu lugar naquela cidade?”, refletiu Miguel.

Para o crítico, o filme encontra sua força justamente ao evitar respostas fáceis.

“Será que ele vai encontrar esse lugar? Será que vai precisar ir embora? Será que os amigos que estão na mesma situação vão conseguir lidar com a vida que têm ali? O filme deixa algumas dessas questões em aberto e faz a gente refletir muito sobre ser diferente.”

CineBH 2026: Um dia de aguardados filmes brasileiros

A discussão rapidamente deixou de ser apenas sobre cinema e se transformou em algo pessoal. Renato lembrou como, durante muito tempo, enxergar-se como diferente podia representar um trauma justamente porque a sociedade insiste em colocar as pessoas dentro das mesmas caixas.

Crítica | ‘Leite em Pó’ – Um FILMAÇO que apresenta um paciente da própria solidão (CineBH 2026)

E existe algo particularmente poderoso quando alguém finalmente encontra sua própria experiência projetada em uma tela.

“Eu cresci como um garoto gay do interior tentando descobrir o mundo e a gente não se via nas telas. Não tinha personagem gay. Eram poucos filmes, poucas séries, eu ficava procurando. E ainda existia aquele medo de pegar uma fita na locadora e pensarem: ‘Ele é gay’. A moça da locadora podia ser fofoqueira e contar para a cidade inteira”, relembrou Renato durante a conversa.

A história terminou com uma solução digna de comédia: “Aí eu virei a moça da locadora para não ter problema e poder pegar o que eu quisesse.”

CineBH 2026: Dilacerante longa chileno é o destaque do terceiro dia

Por trás da brincadeira existe uma questão fundamental sobre representatividade.

“É muito gostoso a gente se ver representado na tela. Acho que cinema também é sobre representatividade. Você assistir a um filme nacional e encontrar um pedaço da sua própria história ali.”

Crítica | ‘Pele de Rinoceronte’ – A luta por justiça e as diversas formas de resistência (CineBH 2026)

Filmes que talvez você nunca encontrasse fora de um festival

Esse talvez seja um dos papéis mais importantes da CineBH.

Enquanto multiplexes precisam disputar público com blockbusters e franquias gigantescas, um festival permite que filmes menores encontrem espectadores dispostos a experimentá-los sem saber exatamente o que vão receber.

O crítico do CinePOP Raphael Camacho, por exemplo, destacou a força do cinema latino-americano apresentado durante a mostra. Entre os títulos que mais o impactaram estava uma produção chilena centrada na crise migratória no norte do país.

“Achei dilacerante. Essa é a primeira palavra que encontro. Fiquei muito tocado pelas cenas e pela maneira como aquela narrativa foi conduzida. É um filme em que estou pensando até agora.”

Entre os brasileiros, Raphael destacou ‘Leite em Pó’, de Carlos Segundo, protagonizado por Vinícius de Oliveira. O longa acompanha um roqueiro frustrado que sobrevive de trabalhos ocasionais até ser empurrado por um acontecimento inesperado para uma jornada marcada pelo luto.

Raphael encontrou uma definição particularmente bonita para o protagonista:

“Ele entra em uma jornada como um nômade da própria existência.”

E é justamente diante de filmes como esse que aparece outra responsabilidade da crítica: como falar sobre uma obra sem destruir a experiência de quem ainda vai assisti-la?

“É um filme muito perigoso para escrever porque a gente não quer soltar spoilers. Isso faz parte da experiência de vocês também. No CinePOP, temos muito cuidado na hora de escrever para não entregar muita coisa. Às vezes precisamos revelar alguma coisa para contextualizar, mas existe essa preocupação.”

Afinal, crítica de cinema precisa ser imparcial?

Durante a conversa surgiu uma questão que acompanha a profissão desde que alguém decidiu escrever publicamente que gostou — ou odiou — um filme.

Crítica precisa ser imparcial?

Para Renato Marafon, a resposta é simples:

“Crítica é pessoal. Não existe crítica imparcial.”

Um crítico entra em uma sessão carregando sua própria história, referências, expectativas, experiências e sensibilidades. Duas pessoas podem assistir exatamente ao mesmo filme, na mesma sala e no mesmo horário, e sair dali com interpretações completamente diferentes.

“A crítica reflete nossos desejos e nossas expectativas. Mas eu, o Rapha e a equipe do CinePOP escolhemos cada palavra justamente para não sermos tirados de contexto. No final, crítica é nossa opinião sobre o filme. Cada pessoa precisa assistir e formar sua própria opinião.”

Isso não significa transformar crítica em ataque pessoal. Pelo contrário.

“Sempre com muito carinho e respeito. Mesmo quando você não gosta da crítica, tudo bem. Opiniões divergentes são maravilhosas. É isso que move o mundo.”

E poucas coisas demonstraram melhor essa ideia durante a CineBH do que ‘Se Eu Fosse Vivo… Vivia’, de André Novais Oliveira.

Dois críticos, o mesmo filme e duas experiências completamente diferentes

O longa reúne Conceição Evaristo e Norberto Novais Oliveira em uma história que começa acompanhando um relacionamento e, gradualmente, incorpora elementos fantásticos.

Miguel Arcanjo ficou encantado principalmente pela primeira parte.

“É um filme que me pegou muito no começo. Temos a estreia da Conceição Evaristo como atriz, uma escritora brasileira importantíssima, de Belo Horizonte. É também uma reconexão dela com Minas Gerais, agora em outro papel, não como escritora das escrevivências, mas como atriz.”

Miguel destacou principalmente a construção estética do início da produção, que retorna aos anos 1970 e aos bailes black.

“Essa parte foi filmada em película e é um primor estético. Tem iluminação maravilhosa, fotografia, figurino, uma direção de arte incrível.”

O problema, para ele, aparece quando o filme abandona parcialmente o terreno realista e mergulha em elementos de ficção científica e realismo fantástico.

“Eu gostei mais da parte realista, mais ligada ao romance. Fiquei com vontade de ver mais daquele casal. Você vê aquelas duas pessoas já idosas lidando com problemas de saúde, com a finitude. Como esse casal vai enfrentar tudo isso?”

Miguel reconhece a escolha artística de André Novais, mas confessa ter sentido falta daquela história inicial.

“Ele fez tão bem o romance que, quando foi para a ficção científica e para o realismo fantástico, fiquei meio ressentido, porque eu já tinha embarcado, já tinha mergulhado naquela história.”

Então Raphael Camacho pegou o microfone.

E discordou.

“Eu discordo de boa parte do que o Miguel falou.”

Talvez nenhum momento resumisse melhor a razão pela qual a crítica ainda importa.

Raphael enxergou justamente na mudança rejeitada por Miguel uma das maiores virtudes do filme.

“Eu amo a segunda parte. Acho que ela é um complemento fundamental para entendermos toda a trajetória daquele protagonista.”

Para ele, André Novais merece reconhecimento justamente por abandonar aquilo que poderia ser o caminho mais confortável.

“Acho que ele se arriscou. Saiu bastante da zona de conforto, e isso é fundamental para o cinema contemporâneo. Sair do convencional, tirar o público daqueles achismos, daquela ideia de que já sabemos para onde a história está indo.”

Onde Miguel enxergou uma ruptura que o afastou do romance, Raphael encontrou a expansão necessária daquela mesma história.

“A primeira parte constrói muito bem essa realidade de fácil identificação, e depois ele traz o imaginativo, essa dificuldade de se desprender da próxima partida de alguém que você ama. Para mim, é um filme-poesia capaz de tocar o coração.”

Quem está certo?

Os dois.

E nenhum deles.

Porque crítica não deveria existir para decretar uma verdade universal sobre uma obra. Ela existe para abrir uma conversa.

O crítico não precisa dizer o que você deve gostar

Existe uma diferença enorme entre dizer “este filme é ruim” e explicar por que aquele filme não funcionou para você.

Uma crítica interessante não encerra o debate. Ela oferece ferramentas para começá-lo.

É por isso que Raphael fez questão de concluir sua análise com um convite:

“Assista e tire suas próprias conclusões.”

Pode parecer uma frase simples, mas talvez seja uma das melhores definições para a função da crítica.

O crítico assiste, pesquisa, contextualiza, interpreta, escreve e apresenta seu olhar. O público pega aquele olhar, confronta com sua própria experiência e decide se concorda, discorda ou encontrou uma terceira interpretação que nenhum texto havia imaginado.

E festivais tornam esse processo ainda mais importante porque muitos daqueles filmes chegam sem campanhas milionárias, sem estrelas internacionais estampadas em outdoors e sem algoritmos insistindo para que você aperte o play.

Às vezes, a primeira pessoa a dizer “preste atenção nesse filme” é justamente um crítico.

‘Tem muita gente que fala: odeio cinema nacional’

A CineBH também evidencia outro problema: quantas pessoas dizem não gostar de cinema brasileiro sem realmente conhecer aquilo que está sendo produzido no país?

Durante a conversa, surgiu justamente essa provocação.

“Tem muita gente que fala: ‘Odeio cinema nacional’. Mas do que você está se alimentando?”, questionou Renato.

Existe um gigantesco cinema brasileiro circulando por festivais antes de chegar ao circuito comercial — quando consegue chegar.

“Tem filmes maravilhosos que infelizmente não chegam ao grande circuito, estreiam em poucas salas, mas merecem ser vistos. Às vezes você está perdendo justamente o melhor do cinema nacional.”

É aí que festivais e crítica se encontram.

Um apresenta o filme.

O outro ajuda a fazer aquele filme circular através da conversa.

CineBH também é onde o cinema encontra o próprio cinema

A importância da CineBH, porém, não termina na sala de projeção. Realizada pela Universo Produção, a mostra acontece em diálogo com o Brasil CineMundi, encontro voltado ao desenvolvimento e à coprodução de projetos audiovisuais.

Miguel Arcanjo, mineiro de Belo Horizonte, acompanhou de perto o crescimento dos eventos promovidos pela Universo Produção e lembrou como cada mostra acabou construindo uma identidade própria.

“A Universo Produção realmente mudou a cara do cinema em Minas Gerais e mudou a cara do cinema brasileiro.”

Primeiro veio a Mostra de Cinema de Tiradentes, dedicada especialmente à descoberta e discussão de novos caminhos do audiovisual brasileiro. Depois, a CineOP, em Ouro Preto, fortaleceu a discussão sobre cinema como patrimônio, memória, preservação e educação.

E então nasceu a CineBH.

“A CineBH tem essa característica de mercado porque acontece junto com o Brasil CineMundi. São encontros de coprodução em que produtores e diretores trazem seus projetos e apresentam para profissionais e festivais do mundo inteiro. Todo mundo está aqui em Belo Horizonte se encontrando.”

É cinema acontecendo antes mesmo de o filme existir.

Uma conversa iniciada em Belo Horizonte pode se transformar em parceria, financiamento, coprodução internacional e, anos depois, em um longa exibido justamente em outro festival.

Por que festivais ainda importam?

Talvez porque eles preservem algo que estamos perdendo aos poucos: a experiência coletiva de descobrir cinema.

Na CineBH, você entra em uma sessão sem saber exatamente o que encontrará. Sai, encontra outro crítico no corredor e começa uma discussão. Um adorou. Outro odiou. Um percebeu determinada metáfora. Outro enxergou algo completamente diferente.

Depois alguém entrevista o diretor.

Outro escreve uma crítica.

O público comenta.

O filme continua existindo muito depois dos créditos.

No fim das contas, talvez seja exatamente essa a função de um festival e também da crítica: não determinar quais filmes merecem ser amados, mas impedir que obras interessantes atravessem o mundo em silêncio.

Porque cinema não termina quando as luzes da sala se acendem.

Às vezes, é justamente ali que ele começa.

Notícias

‘Anything But Ghosts’: Novo TERROR do diretor de ‘Obsessão’ ganha data de estreia no Brasil

A Universal Pictures finalmente anunciou quando o terror sobrenatural 'Anything...

‘Lago dos Ossos’: Terror ERÓTICO com Marco Pigossi é ADIADO para novembro no Brasil

Anteriormente programado para outubro, o terror erótico 'Lago dos...