Sam Raimi é um mestre desse estilo

Doutor Estranho e o Multiverso da Loucura é um dos títulos com mais potencial anunciado pela Marvel Studios. Não só pela moda vigente de se aproveitar ao máximo a ferramenta do multiverso (que permite encontros inusitados entre personagens sem maiores elaborações ou explicações) mas pelo que a produção pode proporcionar.

A primeira aventura de Stephen Strange, dirigida por Scott Derrickson, soube utilizar bem as características psicodélicas das suas histórias aliadas a efeitos visuais que herdaram muito da estética de sonhos apresentada por A Origem. Mais importante de tudo, foi uma forma de introdução muito positiva que apresentou o personagem para uma larga margem de público.

Entretanto, para onde seguir na sequência? A aposta mais comum, até por estar indicada no subtítulo, é de enveredar pelo conceito do multiverso; essa que é a estratégia declarada da Marvel Studios para a nova fase e já começou a ser trabalhada na série Loki e que promete atingir uma nova dimensão com Homem Aranha: Sem Volta para Casa.



Dentro do possível o filme de Scott Derickson apresentou conceitos interessantes

Em si o conceito do multiverso é uma enorme licença poética que permite a integração de diversos personagens que, em outra situação, não teriam como interagir sem a necessidade de uma preparação de médio ou longo prazo como o próprio estúdio tem feito desde a sua criação.

Dessa maneira, sob uma perspectiva criativa, os realizadores têm a possibilidade de brincar com cenários variados e o público pode experienciar uma situação em que seus personagens favoritos podem interagir diretamente, gerando assim um cenário de oferta por parte do estúdio que tem total ciência de que haverá procura por tal coisa.

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Outro elemento que contribui para o potencial de Multiverso da Loucura é a presença de Sam Raimi na direção. Este que é um diretor bastante conhecido por sua trilogia do Homem Aranha nos anos 2000 porém tem sua filmografia fincada profundamente no terror; mais do que isso, no terror B, aquele segmento famoso por ter orçamento bastante reduzido (então o uso de locações costuma ser muito pouco variado e quase sempre se passar em florestas).

Sam Raimi pode entregar uma excentricidade necessária para o herói

Outra característica é que não raramente esses filmes investem seus escassos recursos em efeitos visuais, ao invés de no elenco. Logo, muitos deles são estrelados por rostos desconhecidos (com qualidade duvidosa) e quase sempre tem cenas explícitas de gore, que utilizam trabalhos convincentes de maquiagem como efeito prático (Tom Savini se tornou referência no meio pelo trabalho de efeitos práticos em séries como Sexta Feira 13).



É desse meio que Raimi surgiu, principalmente pelo seu primeiro longa, A Morte do Demônio de 1981, mas também por experiências prévias que ele foi adquirindo na década de 70 com curta metragens. Um exemplo é a obra Within the Woods, de 1978, que não só conta com o eterno parceiro do diretor, Bruce Campbell, como soa bastante com um protótipo do que viria a ser A Morte do Demônio poucos anos depois.

Em ambos os casos, bem como em muitos outros, Raimi apostou no uso de cenas de gore intenso e trabalhos de maquiagem que traduzissem o quão malignas eram as forças com que os personagens estavam lidando e quão dolorosa poderiam ser as suas mortes. É através de uma estética um pouco mais “desleixada”, própria das obras trash, que o filme pode se consolidar na memória do público, além de fugir da eterna sombra da Marvel do abuso de CGI.

Multiverso da Loucura” pode, finalmente, fugir da regra de grande batalha de CGI do terceiro ato na Marvel

A primeira aventura do Dr. Estranho já apresentou a existência de ameaças de outras dimensões, agora com a possibilidade do multiverso o diretor pode ter a sua mão o uso de criaturas mais próximas da realidade padrão mas que se utilizem de possessões de corpos para ferir suas vítimas; não muito diferente das criaturas liberadas pelo Necronomicon em A Morte do Demônio.

Com a variedade ofertada por algo como o multiverso, o cineasta tem todo um leque de possíveis criaturas para utilizar na obra também para propósitos de continuidade ao surrealismo que pautou o capítulo anterior. Dessa maneira, Arraste-me para o Inferno é um exemplo de como o exagero do gore poderá ser usado para criar situações que podem quebrar as noções de realidade dos personagens, não fugindo muito do espectro proposto no filme anterior.

Há um potencial nato no projeto, ainda que evidentemente não será uma volta de Sam Raimi ao terror trash. A despeito dos já conhecidos acompanhamentos, bem próximos, do estúdio ao longo da produção é bem provável que o diretor reutilize ferramentas do passado, principalmente os jump scares, para enriquecer seu projeto. Afinal de contas, se ele encontrou espaço para tanto em Homem-Aranha (2002) será ainda mais fácil com Dr. Estranho. Desde que o estúdio permita.

 

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