Gênero na televisão consegue se adaptar a uma gama variada de abordagens

A capacidade que o gênero terror tem de dialogar com diversas ideias, provavelmente bem além do que qualquer outro gênero consegue, não só é fascinante como garante a sobrevivência do mesmo ao longo do tempo graças ao interesse do público jamais se arrefecer realmente. É dessa característica que nascem revoluções como O Exorcista à simples caça níqueis de marcas famosas como Drácula 2000.

Determinar que faixa etária vai consumir o produto também é um momento importante na pré-produção, principalmente para os produtores terem uma ideia de quanto tempo vai levar para terem um retorno do investimento. Por um bom tempo os filmes de terror não visavam uma faixa etária em específico, seus realizadores estavam preocupados em não terem muito do material modificado por serem violentos demais.

No entanto, esse “desinteresse etário” sofreu um recuo inesperado (e muito provavelmente acidental) nos anos 70; um período marcado por um maior engajamento político de cidadãos mais jovens e pelos embates ideológicos com os próprios pais ou quaisquer pessoas de idade mais elevada. A confusão da nova configuração da sociedade é perceptível nos acontecimentos que se seguiram, como a liberação sexual liderada pela revista Playboy, o pacifismo do movimento Hippie e o aumento da violência nos centros urbanos causados por criminosos cada vez mais jovens.



Os cineastas entenderam a mudança social de seu tempo

O ano de 1974 é interessante para posicionar como o marco zero desse diálogo do terror com a juventude graças aos lançamentos de Noite do Terror e Massacre da Serra Elétrica. Ambos são os primeiros exemplares conhecidos do slasher seguindo fielmente a fórmula de um assassino perseguindo jovens e matando um por um. O primeiro é um ótimo exemplo para notar como as regras do famoso subgênero surgiram mas seu charme, para a época, foi visualmente seu elenco que conseguiu produzir em partes da audiência um senso de representatividade que não era comum em filmes do gênero.

O segundo segue muito do caminho mencionado anteriormente: aplicação das regras do slasher e elenco jovem. Porém, Massacre da Serra Elétrica é um potencial caso de filme pensado propositalmente para dialogar com o cenário caótico do período. Em determinado momento do livro O Massacre da Serra Elétrica, assinado por Stefan Jaworzyn, é abordado brevemente a carreira prévia do diretor do filme, Tobe Hooper, além de um pouco sobre sua obra anterior; Eggshells de 1969.

O próprio cineasta afirma que essa obra foi concebida inteiramente durante a explosão do movimento Hippie e que diretamente dialoga com eles. Logo, sua produção seguinte não acidentalmente repete muitos elementos vistos em Eggshells tais como um elenco visualmente jovem e uma inesperada representação da cultura alternativa da época – que é perceptível quando visto as vestimentas do elenco principal, o consumo de drogas por diversão e a liberdade sexual que eles demonstram.

“Massacre da Serra Elétrica” dialoga de maneira subliminar com a juventude dos anos 70

Conforme os anos e décadas foram passando, o slasher foi se fortalecendo e mostrando que poderia gerar um retorno financeiro positivo. Isso levou ao domínio do mesmo durante os anos 80 e seu eventual desgaste, quando o mercado já estava saturado de sequências de franquias famosas e as novas marcas que surgiam eram, basicamente, refilmagens de outras já estabelecidas.

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Mas isso é no cinema, que por si só já possui orçamentos bem mais espaçados e total atenção das grandes referências da indústria. Na televisão o terror tido como juvenil tem um percurso, desde os primeiros anos, de sempre ser menos assustador do que deveria e mais adolescente que o necessário. Melhor explicando, muitos dos primeiros exemplares de terror juvenil na televisão vieram nos anos 90, que da sua metade para o final foi dominado pela metalinguagem proposta pelos filmes da franquia Pânico.

Agora o terror era muito menos sobre uma ambientação ou atmosfera intimidadora (como era no passado com Psicose e Halloween) e mais sobre como ele dialogava com elementos do cotidiano de uma parcela muito específica do grande público. Buffy, A Caça-Vampiros é um produto típico pertencente a esse período; lançado em 1996 ele faz um trabalho de mesclagem entre a figura tradicionalmente assustadora do vampiro com a cultura adolescente da época, pavimentando o caminho para produções de romances sobrenaturais que anos depois formariam a grade de canais como a CW.

A revolução de “Pânico” veio de sua capacidade de compreender o seu público-alvo.

A partir dos anos 2010 houve um repentino interesse por programas envolvendo a mencionada temática slasher, sendo o mais famoso a visita do produtor Ryan Murphy ao gênero com seu Scream Queens. Murphy já havia dado provas anteriormente de que estava pronto para lidar com esse tipo de enredo seja com o terror de qualidade nas primeiras temporadas de American Horror Story ou por saber trabalhar razoavelmente bem um tom adolescente moderno para a televisão com Glee.

É claro que não se pode esquecer de Scream, mesmo que esse tivesse limitações bem maiores que o seriado competidor lançado também em 2015. Por mais que ele não tivesse ligações com a franquia de filmes homônimos é perceptível a diferença na qualidade de elenco das duas séries, o que fez Scream apelar para cenas de gore com muito mais frequência que Scream Queens. Outra fraqueza apresentada pelo show foi que, enquanto a produção de Ryan Murphy apostava muito no humor incorreto para assim não ficar preso unicamente a cenas dos assassinatos, Scream não ofereceu a mesma versatilidade ao público.

Ainda que ambas as séries não estejam mais ativas, seu “legado” ainda pode estar vivo, mais especificamente na futura série da Amazon: Panic, esta que estreou há pouco tempo com uma premissa que mistura Jogos Mortais com o legado adolescente no terror; tanto do cinema quanto da televisão.

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